‘Acho importante levar a emergência climática ao papa’
Natureza e espaço

‘Acho importante levar a emergência climática ao papa’

Cientista vê poder de alcance da comunicação do líder católico para a transição energética, e comenta sobre a conferência de Santa Marta e planos de criar um MIT da Amazônia

Ao saber que havia sido escolhido para o grupo de especialistas selecionados pelo Papa Leão XIV, em março, o pesquisador e professor Carlos Afonso Nobre foi pego de surpresa. Com formação no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e doutor pelo MIT, ele vai integrar o Dicastério de Desenvolvimento Humano Integral, junto a outros dez nomes. Mesmo sendo um homem da ciência, Nobre vê com bons olhos a possibilidade de poder levar ao papa a palavra da emergência climática.

Nesta entrevista, ele avalia que a transição energética pode ser impulsionada com a atual guerra, entre Estados Unidos e Irã, e a instabilidade no Estreito de Ormuz, assim como aconteceu na Crise do Petróleo dos anos 1970, que acelerou a produção de bioetanol no Brasil. Também adianta detalhes do painel científico que vai lançar na Primeira Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, esta semana, em Santa Marta, na Colômbia. Aos 75 anos, ainda busca realizar sonhos, como tirar do papel um “MIT” da Amazônia, criando uma rede de laboratórios de inovação entre os nove países que compõem a floresta.

Sobre o convite do Vaticano, primeiramente, gostaríamos de saber se alguém já entrou em contato com você. Se já houve alguma explicação sobre como vai ser esse processo, quanto tempo vai durar, ou mesmo se já há mais detalhes sobre essa posição.

Não. No dia 30 de março, o Vaticano anunciou, em Roma, a criação desse grupo, desse conselho de Desenvolvimento Humano Integral. Tem aquele nome complexo de Dicastério. Mas foi isso. Um anúncio e eu estava lá, entre os onze nomes. E ainda não tive um contato direto com o Vaticano.

Como você vê essa aproximação da religião com a ciência? De a igreja convidar especialistas para a aconselharem?

Eu entendo que o papa queira realmente um grupo de pessoas que vão lhe dar informações importantes sobre tudo, e eu certamente vou dar informações sobre o que a gente chama de emergência climática, que está acontecendo no planeta, e o risco que a Amazônia corre.

Como levar essa questão de uma forma nova ou diferente para o papa? O que você espera dessa interação com ele?

A interação é importante porque nós, cientistas climáticos, nos últimos anos, sequer falamos mais de mudança climática. Tratamos como emergência climática. E não estamos caminhando para evitá-la. Por exemplo: estamos, praticamente, atingindo 1,5 grau de aquecimento global. Esse era o limite do Acordo de Paris. A gente está correndo um enorme risco.

Então, nesse sentido, acho importante levar essa questão também para esse papa, para que ele também possa levar à frente a pauta sobre o risco que o planeta corre caso não consigamos reduzir muito as emissões dos gases de efeito estufa. Esse alerta da seriedade e da rapidez com que nós temos que combater é muito importante. Até porque as emissões bateram recorde em 2025, e continuam altas nesses primeiros meses de 2026. O papa tem um certo poder de comunicação. Há 1,4 bilhão de católicos no mundo.

Saindo um pouco desse assunto do Vaticano, o que você espera dessa conferência que vai acontecer agora, em Santa Marta, na Colômbia, justamente no período em que temos uma guerra que eleva os preços dos combustíveis fósseis?

Essa conferência é um resultado da COP 30, porque o Brasil lançou os dois Mapas do Caminho: um para zerar os desmatamentos, até 2030, e fazer a regeneração dos biomas; e o outro, que era para zerar o uso de combustíveis fósseis. Infelizmente, alguns países não concordaram nem com um nem com outro, então não houve esse avanço. Eu tinha uma expectativa de que essa COP seria tão importante quanto o Acordo de Paris e a COP 26, mas não foi. Não houve o acordo dos países. Durante a COP, Holanda e Colômbia, em função de não ter realmente havido avanço nisso, propuseram essa conferência para zerar o uso de combustíveis, que acontece na cidade de Santa Marta.

A presidência da COP 30 convidou o pesquisador Johan Rockström e eu para criarmos o primeiro Pavilhão de Ciência Planetária de uma COP, em Belém. Nós fizemos mais de 60 sessões, e levamos aos negociadores todas essas questões de ter que zerar rapidamente o uso de combustíveis fósseis. Ali, a presidência da COP nos pediu que criássemos o Painel Científico para a Transição Energética Global, com o mesmo objetivo. Nós estamos criando agora esse painel científico, que será lançado lá em Santa Marta. Teremos por volta de 30 cientistas tratando de transição energética. Também teremos especialistas na política da transição energética. Então nós já vamos convidar, espero que ele aceite, um grande líder nessa área, Maurício Tolmasquim.

A ideia dessa reunião internacional é de que todos os países comecem a acelerar muito [a transição energética]. Enquanto isso, nós, do painel científico, vamos fazer um relatório muito importante, que será lançado na COP 31, na Turquia. Nosso plano é que esse painel científico dure até 2030, e mostre que a ciência indica a viabilidade total, que é a importância, a urgência, mas também a importância de que haja tecnologias.

Pensando na guerra, nesse contexto de mais uma crise do petróleo, que já vimos antes, na década de 70. O cenário turbulento que vivemos agora pode realmente impulsionar uma transição energética?

Olha, essa é uma excelente pergunta. Lá na década de 70, a crise fez o Brasil produzir o bioetanol. Precisamos ver se essa guerra, que ainda não sabemos quando vai terminar, vai na direção do que aconteceu nos anos 70, ou se vai na direção oposta. Vamos ver se não vão aumentar muito mais a exploração para não ter risco com o petróleo.

Estou otimista aqui. A guerra vai fazer acelerar a transição energética.

Para encerrarmos, gostaríamos de saber como anda o seu projeto de criar um instituto na Amazônia, que começou em 2022. Você falou em algumas entrevistas que era uma ideia inspirada no MIT.

Eu convidei um grande cientista da Amazônia, o professor Adalberto Val, que concebeu comigo e várias outras pessoas o estudo de viabilidade. Nós produzimos um estudo mostrando a importância do AMIT (Amazon MIT, ou “MIT da Amazônia”, em português). De fato, foi inspirado no MIT. Eu fiz meu doutorado lá. A ideia é ter um instituto pan-amazônico, um superinstituto para salvar a Amazônia. Ele teria áreas relacionadas com proteção, sobre como desenvolver uma infraestrutura sustentável, como restaurar áreas degradadas, como desenvolver a socioeconomia com os produtos da biodiversidade e também a Amazônia urbana. Essas são as cinco grandes áreas do AMIT. Agora, estamos trabalhando muito para conseguir convencer os países amazônicos. Já levamos para vários ministérios aqui no Brasil. Nosso sonho é conseguirmos lançar em dois anos para, a partir daí, começarmos a construir diversos laboratórios de inovação.

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