Procurar emprego pode ser uma experiência exaustiva. É preciso identificar oportunidades, preparar currículos, escrever apresentações e convencer desconhecidos de que a contratação vale a pena. Depois vem a espera. Na maioria das vezes, nenhuma resposta. Resta recomeçar todo o processo novamente.
Um candidato americano chamado Octavius Fabrius resolveu acelerar esse processo. Criou uma conta de e-mail, abriu um perfil no LinkedIn, montou um currículo e começou a enviar propostas com mais velocidade e assertividade. Em uma semana, acumulou 278 entrevistas de emprego.
Octavius despertou o interesse de uma empresa de suplementos alimentares e participou de um teste online de redação publicitária. Foi rejeitado. O recrutador considerou que seus textos pareciam produzidos por Inteligência Artificial. A ironia é que Octavius não era mesmo uma pessoa. Era um agente desenvolvido por um desenvolvedor usando OpenClaw. Depois da descoberta, o perfil no LinkedIn acabou sendo deletado.
Até agora, o debate sobre Inteligência Artificial e emprego girava entre dois cenários. No primeiro, empresas substituiriam trabalhadores por sistemas automatizados. No segundo, profissionais que dominassem melhor a Inteligência Artificial ganhariam vantagem sobre os demais. Agora surge uma terceira possibilidade. As IAs procuram oportunidades, apresentam propostas e tentam conquistar vagas, competindo com humanos.
Meu interesse no tema começou depois que li uma matéria na revista Wired falando sobre o ataque das IAs no jornalismo. Há quase uma década, jornais e revistas já produzem notícias automatizadas. A sueca United Robots, por exemplo, fornece matérias completas sobre resultados esportivos e fenômenos meteorológicos. Em 2022, a fornecedora afirmava que 90% dos textos entregues eram publicados automaticamente por jornais do mundo todo, sem intervenção de nenhum humano no processo de publicação.
Mas a Inteligência Artificial abriu uma possibilidade nova: a de agentes que não apenas escrevem notícias, mas também procuram quem esteja disposto a comprá-las. O processo pode começar identificando um assunto interessante que pode render uma reportagem. Depois, organiza os dados, produz um resumo, elabora uma proposta de pauta e localiza o endereço de um editor. Em seguida, envia um e-mail apresentando a história e oferecendo seus serviços. Tudo isso pode ocorrer sem que alguém precise comandar cada etapa. O ganho é bom. Cada reportagem custa, em média, 700 dólares.
A receptividade das redações ainda é pequena. Editores de revistas relataram receber propostas de agentes artificiais. A maior parte das propostas termina como tantas candidaturas humanas: sem resposta.
O público também demonstra resistência. Uma pesquisa do Reuters Institute, realizada em seis países em 2025, mostrou que apenas 12% dos entrevistados se sentiam confortáveis com notícias inteiramente produzidas por Inteligência Artificial. O percentual chegava a 62% quando eram produzidas integralmente por jornalistas.
Surge uma contradição. Para quem compra conteúdo, a automação pode oferecer velocidade e custos menores. Para quem consome, pode representar perda de credibilidade. Ainda estamos longe de um mercado em que agentes autônomos sejam contratados regularmente como jornalistas. Muitos recebem negativas, poucos conseguem clientes e seus resultados financeiros são difíceis de comprovar. Mas a mudança merece atenção.
Durante anos, nos perguntamos se perderíamos nossos empregos para a Inteligência Artificial. Agora precisamos considerar uma nova possibilidade: as IAs estão na fila do emprego ao nosso lado. Que vença o melhor.



