A maior parte da rede elétrica do Quênia funciona com fontes renováveis. Mas, com 25% das comunidades fora dela, o país está apostando na energia solar para atingir sua meta de oferecer acesso universal à eletricidade até 2030 sem elevar as emissões. A economia cada vez mais favorável da tecnologia solar tem ajudado. Há alguns anos, um painel custava cerca de três dólares (cerca de 15 reais) por watt. Agora, caiu para centavos.
Nas margens de Nairóbi, uma capital movimentada, avançamos por uma mistura de arranha-céus e lojas de materiais de construção intercalados com pequenos terrenos onde se cultiva milho ou batata. Depois de alguns minutos, chegamos a uma barraca à beira da rua administrada por Milcah Wanjiru, de óculos. Ela vende muitos pacotes de meio litro de leite, pães e fósforos, mas o principal negócio de Wanjiru é um serviço: ela mói farinha de milho para os moradores locais, que a usam com mais frequência no ugali, um prato comum no Quênia semelhante à polenta, embora menos cremoso.
No meio de sua pequena loja, uma máquina de moagem fica apoiada sobre três pernas ajustáveis. “Sempre que os clientes vinham moer seus grãos, pediam outros produtos”, diz Wanjiru, “e foi assim que comecei a estocar esses outros itens”.
Lojas com moinho de grãos são comuns aqui em áreas rurais e na maioria dos bairros, especialmente os de baixa renda, até mesmo na cidade. Mas a maior parte deles usa diesel. O dela? Funciona com energia solar ou eletricidade da rede.
Matt Carr, CEO e cofundador da Agsol, a empresa que projetou o moinho de Wanjiru, está aqui comigo, em visita para ouvir a opinião dela sobre seu produto. Uma questão a incomoda. “Ele pode ser lento”, diz Wanjiru a Carr, explicando que os grãos podem ficar presos na câmara frontal, por onde entram na máquina. Às vezes, tudo trava.
Carr afirma que o moinho reduz automaticamente a velocidade se o grão estiver minimamente úmido, para que os martelos trituradores em seu interior possam extrair o máximo possível de farinha. Infelizmente, esse processo pode levar ao problema que ela está descrevendo.
No geral, Wanjiru parece satisfeita com a máquina, que usa desde dezembro de 2025. Ela torna a operação do negócio mais barata. Cerca de 40% do valor que donos de lojas com moinhos movidos a diesel cobram dos clientes vai para o pagamento de combustível, segundo Carr. Enquanto isso, operar a máquina movida a energia solar da Agsol pode ser até 80% mais lucrativo depois que o custo inicial, de cerca de 1.300 dólares (cerca de 6.700 reais), é quitado, o que leva de seis a 12 meses. Wanjiru também gosta do fato de que, ao contrário dos modelos a diesel, seu moinho consegue processar quantidades muito pequenas de grãos, o que trouxe alguns novos clientes para ela.
Carr lançou o primeiro produto da Agsol em 2018, no Quênia, e já captou mais de 4 milhões (cerca de 21 milhões de reais) em investimentos, grande parte por meio de um programa do governo do Reino Unido que apoia projetos de energia limpa na região. No ano passado, a Agsol vendeu 530 unidades. A empresa, sediada nos arredores de Nairóbi, recebeu pedidos de lugares tão distantes quanto Moçambique e Angola.
Ao nos despedirmos de Wanjiru, ela se vira e se inclina sobre sacos de juta meio cheios de amendoim, feijão-mungo, arroz e milheto, organizados cuidadosamente sobre paletes de madeira no piso de cimento. Pega uma porção com uma concha de um dos sacos e despeja o conteúdo em uma balança. Um cliente espera para ser atendido.





