Chegamos ao momento de convergência extrema. A IA generativa escala atualmente três vezes mais rapidamente do que qualquer onda tecnológica da história, segundo o artigo The State of AI of the Economy. A comparação vale para revoluções que transformaram profundamente a nossa vida, o nosso comportamento e os negócios: a Internet, em 1995, o mobile, em 2007, e a nuvem (cloud), em 2010. Mas essa é apenas parte da história.
Os últimos anos também foram decisivos para o blockchain, que amadureceu, indo além das criptomoedas, tornando-se uma infraestrutura para coordenar confiança, propriedade e incentivos em sistemas descentralizados, analisa a Pantera Capital. Mas o relatório recente da empresa levanta um ponto importantíssimo: estamos negligenciando a forma como essas duas tecnologias se reforçam mutuamente.
“A IA reduz drasticamente o custo de produção de informações, possibilitando a geração infinita de conteúdo, agentes e identidades digitais, ou seja, abundância. O blockchain utiliza criptografia e consenso distribuído para verificar a autenticidade e garantir a propriedade, ou seja, a escassez, de uma forma que minimiza as suposições de confiança”.
Abundância e escassez funcionam como yin e yang. Essa convergência é a base do que venho chamando de capital generativo: ativos financeiros que combinam propriedade programável, Inteligência Artificial e execução autônoma para adaptar continuamente sua estratégia sem intervenção humana.
A base do novo dinheiro inteligente
Durante décadas, investir significou administrar ativos. O investidor escolhia aplicações, acompanhava mercados, rebalanceava carteiras, controlava riscos e decidia quando comprar ou vender.
Desde Harry Markowitz e a Modern Portfolio Theory (1952), a gestão de investimentos passou a se apoiar na construção de carteiras eficientes por meio da relação risco-retorno e da diversificação. Ainda assim, rebalancear um portfólio sempre dependeu de um investidor ou de um gestor profissional. Os ativos eram, essencialmente, passivos: produziam resultados quando alguém tomava decisões por eles. Esse modelo começa a se tornar insuficiente.
Em um mundo marcado por tensões geopolíticas crescentes, guerras, mudanças regulatórias e pela velocidade com que a IA transforma negócios e mercados, a volatilidade deixa de ser exceção. O desafio já não é prever o próximo choque, mas construir sistemas capazes de responder continuamente a ele. A vantagem competitiva passa a depender menos de escala e mais de velocidade e adaptação, como mostra um relatório recente da PwC sobre IA aplicada ao setor bancário.
Essa transformação já aparece na indústria financeira. Segundo a EY, a automação inteligente pode reduzir custos operacionais em até 40% e acelerar serviços em até cinco vezes. Na JPMorgan Asset & Wealth Management, consultores já encontram informações até 95% mais rápido, permitindo dedicar mais tempo ao relacionamento com clientes. Mais do que automatizar tarefas, os agentes de IA começam a resolver problemas históricos das instituições financeiras: integrar sistemas incompatíveis, conectar bases de dados fragmentadas e acelerar decisões. Como resume a PwC, ao “falar” a linguagem de diferentes sistemas e transformar dados em insights acionáveis, esses agentes fazem da velocidade, e não do tamanho, a principal métrica competitiva
A verdadeira convergência: a carteira deixa de ser estática
As capacidades analíticas da IA, combinadas aos contratos inteligentes do blockchain, ampliaram significativamente a nossa capacidade de tokenizar ativos. A tecnologia permite criar representações digitais fracionadas, programáveis e negociáveis de praticamente qualquer ativo. Ela oferece mais liquidez, transparência e eficiência. Fundos, títulos, imóveis e créditos de carbono já começam a remodelar os mercados de capitais e ampliar o acesso ao investimento. Segundo o Fórum Econômico Mundial, a convergência entre finanças tradicionais (TradFi) e finanças descentralizadas (DeFi) deverá acelerar nos próximos anos. Mas o verdadeiro salto acontece no passo seguinte.
Pela primeira vez, surge a possibilidade de incorporar parte dessa inteligência aos próprios ativos, transformando-os em sistemas capazes de monitorar riscos, adaptar estratégias e executar decisões automaticamente. A maturação dos modelos de IA e dos agentes autônomos torna possível construir modelos que observem o ambiente, interpretem sinais de mercado, aprendam continuamente e ajustem suas estratégias em tempo real. É essa convergência entre blockchain, tokenização e Inteligência Artificial que permite a criação de ativos verdadeiramente inteligentes (ativos tokenizados, cuja administração é realizada por agentes de IA dentro de parâmetros definidos pelo investidor).
Um título tokenizado de renda fixa, por exemplo, pode incorporar um agente que monitora inflação, curva de juros, volatilidade e liquidez. Ao detectar mudanças relevantes, redistribui automaticamente parte da carteira entre títulos públicos, stablecoins e ETFs tokenizados, sempre dentro dos parâmetros previamente definidos pelo investidor.
O artigo Building Crypto Portfolios with Agentic AI mostra como sistemas multiagentes de IA poderão construir e rebalancear automaticamente carteiras de criptoativos, adaptando continuamente a alocação conforme mudanças nas condições de mercado. Em vez de apenas executar regras fixas, esses agentes analisam informações, escolhem estratégias e ajustam o portfólio de forma dinâmica. No mundo cada vez mais volátil, essa possibilidade é ouro.
Nesse cenário, as carteiras deixam de ser estáticas para se tornarem adaptativas, agregando ativos que rebalanceiam continuamente a exposição do investidor ao risco. O dinheiro torna-se programável não apenas para executar regras, mas para responder ao ambiente dentro de limites previamente estabelecidos (como índices de estresse ou exposição). Hoje, como mostra este artigo publicado na Springer Nature, a maioria das estruturas de otimização de portfólio assume objetivos e restrições estáticas, o que as torna frágeis diante de mudanças de regime, fricções de transação e informações em constante evolução.
Uma nova infraestrutura financeira, o tal capital generativo, emerge quando ativos inteligentes, IA e blockchain passam a operar de forma integrada, permitindo a investidores permanecerem o mais próximo possível da estratégia ótima em um ambiente que muda continuamente.
A era do capital generativo, porém, exige estruturar modelos para estudar os efeitos sistêmicos da adoção de agentes financeiros. Quando muitos agentes utilizam sinais semelhantes, pode aumentar também o risco sistêmico, o comportamento de manada e a perda de liquidez, como mostra um artigo publicado no Instituto de Finanças e Tecnologia da UCL, University College London.
No fundo, começaremos a fazer outras perguntas: se um agente autônomo interpretar incorretamente um evento e executar operações que provoquem perdas relevantes, quem responderá: o investidor, o desenvolvedor do modelo, o custodiante, o emissor do ativo ou a plataforma que opera o sistema?
No fim de junho, Sarah Breeden, vice-governadora do Banco da Inglaterra, defendeu em uma conferência do Banco Central Europeu em Portugal, a criação de “kill switches” para agentes autônomos. Segundo ela, os agentes podem reagir de maneira semelhante aos mesmos gatilhos de mercado, aumentando a volatilidade durante momentos de estresse. Mas Sarah também foi contundente: “A Inteligência Artificial está remodelando as finanças rapidamente”.
Os riscos e desafios
O ano de 2026 se configura como um momento decisivo para os ativos digitais. Estruturas regulatórias mais claras, maior adoção empresarial e avanços em interoperabilidade estão transformando o blockchain de tecnologia experimental em infraestrutura financeira, de acordo com o WEF. Já vemos, aliás, o surgimento de uma nova classe financeira de produtos híbridos, aponta o Silicon Valley Bank. Os centros de dados de mineração de criptomoedas estão se transformando em provedores de computação diversificados, fortalecendo modelos de negócios e posicionando o blockchain como pilar fundamental da era da IA, segundo análise Global X ETFs.
No futuro próximo, a gestão desses ativos poderá ser amplamente automatizada, com risco mais bem administrado e muito menos complexidade para o usuário final. Mas hoje vivemos a transição. A gestão de ativos continua majoritariamente manual, operar uma carteira adaptativa permanece complexo e desafios importantes ainda precisam ser resolvidos. Entre eles estão a interoperabilidade entre diferentes blockchains, a coordenação regulatória internacional, a governança dos agentes autônomos e os mecanismos de auditoria e responsabilidade sobre decisões tomadas por sistemas inteligentes. Mas tudo isso faz parte dos avanços e das grandes convergências da inovação.
Estamos assistindo à transição de uma economia baseada na gestão manual do capital para uma em que o próprio capital incorpora inteligência, aprende continuamente e trabalha de forma autônoma. É para lá que podemos olhar com afinco. Como resume Cole Crawford, cofundador do OpenStack: “IA sem escassez é ruído; criptomoedas sem inteligência são apenas encanamento. Juntas, elas formam uma nova economia”. A economia do capital generativo.


