Depois de operar em sigilo durante anos, uma startup chamada R3 Bio, de Richmond, na Califórnia, revelou de repente detalhes sobre seu trabalho na semana passada, afirmando ter captado recursos para criar “sacos de órgãos” de macacos não sencientes como alternativa aos testes em animais.
Em entrevista à Wired, a R3 citou três investidores: o bilionário Tim Draper, o fundo Immortal Dragons, sediado em Singapura, e os investidores em extensão da vida da LongGame Ventures.
Mas há mais nessa história. E a R3 não quer que essa história seja contada.
A MIT Technology Review descobriu que John Schloendorn, fundador da startup que operava em sigilo, também apresentou uma visão surpreendente, medicamente explícita e eticamente controversa para o que ele chamou de “clones sem cérebro”, que serviriam como corpos humanos de reserva.
Imagine assim: uma versão bebê de você mesmo, com apenas estrutura cerebral suficiente para se manter viva caso algum dia você precise de um novo rim ou fígado.
Ou, alternativamente, segundo ele especulou, um dia seu cérebro poderia ser colocado em um clone mais jovem. Essa poderia ser uma forma de ganhar uma segunda vida por meio de um procedimento ainda hipotético conhecido como transplante de corpo.
O contexto mais amplo das propostas da R3, assim como as atividades de outra startup sigilosa com objetivos relacionados, não havia sido relatado anteriormente. Essas informações foram mantidas em segredo por um círculo de defensores radicais da extensão da vida, que temem que seus planos de imortalidade possam ser inviabilizados por manchetes caça-cliques e pela reação negativa do público.
E isso porque a ideia pode soar como algo saído diretamente de um filme de ficção científica assustador. Uma pessoa que ouviu a apresentação da R3 sobre clones e falou sob condição de anonimato ficou atordoada com as implicações e abalada pela forma entusiasmada com que Schloendorn fez a exposição. A apresentação, disse essa pessoa, foi como um “contato imediato do terceiro grau” com o “Dr. Fantástico”.
Uma inspiração fundamental para Schloendorn é uma malformação congênita em que crianças nascem sem a maior parte dos hemisférios corticais. Ele mostrou a pessoas exames médicos dos crânios quase vazios dessas crianças como evidência de que um corpo pode viver sem grande parte do cérebro.
E ele falou sobre como fazer crescer um clone. Como úteros artificiais ainda não existem, corpos sem cérebro não podem ser desenvolvidos em laboratório. Por isso, ele afirmou que o primeiro lote de clones sem cérebro teria de ser gestado por mulheres pagas para realizar essa tarefa. No futuro, porém, um clone sem cérebro poderia dar à luz outro.
Na última segunda-feira, no mesmo dia em que se apresentou ao mundo na Wired, a R3 nos enviou uma ampla contestação de nossas descobertas. A empresa afirmou que Schloendorn “nunca fez nenhuma declaração de que hipotéticos ‘clones humanos não sencientes’ [seriam] gestados por barrigas de aluguel”. A mais abrangente dessas contestações foi sua insistência de que “quaisquer alegações de intenção ou conspiração para criar clones humanos ou seres humanos com danos cerebrais são categoricamente falsas”.
Mas nem Schloendorn nem sua cofundadora, Alice Gilman, parecem conseguir se afastar do assunto. Em setembro passado, a dupla fez uma apresentação no Abundance Longevity, um evento em Boston com ingressos de US$ 70 mil, organizado pelo promotor do antienvelhecimento Peter Diamandis. Embora a apresentação para cerca de 40 pessoas não tenha sido gravada e devesse permanecer confidencial, uma cópia da programação do evento mostra que Schloendorn estava lá para apresentar sua “aposta final para derrotar o envelhecimento” em uma sessão chamada “Substituição Completa do Corpo”.
Segundo uma pessoa que esteve presente, foram discutidos tanto pesquisas com animais quanto clones pessoais para obtenção de órgãos de reposição. Durante a apresentação, Gilman e Schloendorn chegaram a ficar diante de uma imagem de uma agulha de clonagem. Questionada sobre se a palestra tratava de clones sem cérebro, Gilman nos disse que, embora o negócio atual da R3 seja substituir modelos animais, “a equipe se reserva o direito de manter discussões hipotéticas e futuristas”.
A MIT Technology Review não encontrou evidências de que a R3 tenha clonado alguém, ou mesmo qualquer animal maior que um roedor. O que encontramos foram documentos, pautas adicionais de reuniões e outras fontes que descreviam um roteiro técnico para o que a R3 chamou de “clonagem para substituição corporal” em uma carta de 2023 enviada a apoiadores. Esse roteiro envolvia aprimoramentos no processo de clonagem e diagramas de circuitos genéticos sobre como criar animais sem cérebros completos.
Segundo investidores, um dos principais objetivos da captação de recursos era apoiar esforços para testar essas técnicas em macacos a partir de uma base no Caribe. Isso oferecia um caminho para um plano de negócios de prazo mais curto, voltado a experimentos médicos e testes toxicológicos mais éticos, caso a empresa conseguisse desenvolver o que agora chama de “sacos de órgãos” de macacos. No entanto, esse trabalho evidentemente serviria de base para qualquer possível versão humana.
Embora tenha doutorado, Schloendorn é um outsider da biotecnologia que publicou pouco e é mais conhecido por ter montado, certa vez, um laboratório faça-você-mesmo na garagem de sua casa na região da Baía de São Francisco. Ainda assim, seus vínculos com a vertente experimental da ciência da longevidade lhe renderam uma rede de contatos no Vale do Silício e aliados na ARPA-H, uma agência norte-americana de inovação em saúde disposta a assumir riscos. Somado ao seu sucesso na captação de recursos junto a investidores, isso indica que o conceito de clones sem cérebro deve ser levado a sério por uma comunidade mais ampla de cientistas, médicos e especialistas em ética, alguns dos quais expressaram preocupações profundas.
“Na minha opinião, isso parece uma loucura”, disse Jose Cibelli, pesquisador da Universidade Estadual de Michigan, depois que a MIT Technology Review lhe descreveu a ideia da R3 de clones sem cérebro. “Como você demonstra segurança? O que é segurança quando se está tentando criar um ser humano anormal?”
Vinte e cinco anos atrás, Cibelli esteve entre os primeiros cientistas a tentar clonar embriões humanos, mas seu objetivo era obter células-tronco compatíveis, não produzir um bebê. “Não há limites para a imaginação humana nem para as formas de ganhar dinheiro, mas é preciso haver limites”, afirma. “E esse é o limite de criar um ser humano que não é um ser humano.”
“Pesquisa de viabilidade”
Desde o nascimento da ovelha Dolly, em 1996, pesquisadores clonaram cães, gatos, camelos, cavalos, bovinos, furões e outras espécies de mamíferos. A injeção de uma célula de um animal existente em um óvulo cria um embrião geneticamente idêntico que pode se desenvolver, embora nem sempre sem problemas. Defeitos, deformidades e natimortos continuam sendo comuns.
Esses riscos graves são a razão pela qual nunca ouvimos falar de um clone humano, embora, em teoria, seja possível criar um.
Mas os clones sem cérebro invertem essa lógica. Isso porque o objetivo final não é criar uma pessoa saudável, mas um corpo inconsciente que provavelmente precisaria de suporte à vida, como uma sonda de alimentação, para permanecer vivo. Como esse corpo compartilharia o DNA da pessoa copiada, seus órgãos seriam uma correspondência imunológica quase perfeita.
Defensores desse conceito mais amplo argumentam que seria eticamente aceitável retirar órgãos de um corpo não senciente. Alguns também acreditam que substituir partes do corpo por outras novas e jovens, processo conhecido como “substituição”, seja o caminho mais provável para prolongar a vida, já que, até agora, nenhum medicamento consegue reverter o envelhecimento.
E há ainda a ideia de um transplante completo de corpo. “Certamente, para os pacientes de criônica, isso parece algo realmente promissor”, diz Anders Sandberg, proeminente transumanista sueco e especialista em ética de tecnologias futuras. Ele observa que muitas pessoas que optam por ter o corpo armazenado em câmaras criônicas após a morte escolhem a opção mais barata, de preservar “apenas a cabeça”, portanto “pode haver um mercado para ter um corpo clonado extra”.
A MIT Technology Review procurou Schloendorn pela primeira vez há dois anos, depois de descobrir que ele havia conduzido um seminário on-line confidencial chamado Body Replacement Mini Conference, no qual apresentou “avanços laboratoriais recentes rumo à criação de corpos de substituição”.
Segundo uma cópia da programação, essa sessão de 2023 também incluiu uma apresentação do especialista em clonagem Young Gie Chung. Houve ainda outra de Jean Hébert, que na época era professor da Faculdade de Medicina Albert Einstein e hoje é gerente de programa na ARPA-H, onde supervisiona um projeto que utiliza células-tronco para restaurar tecido cerebral danificado. Hébert popularizou a chamada solução de substituição para evitar a morte em um livro de 2020 intitulado Replacing Aging.
Em uma entrevista concedida antes de ingressar no governo, em 2024, Hébert descreveu uma relação informal, mas “muito colaborativa”, com Schloendorn. A ideia geral era que, para interromper o envelhecimento, um deles descobriria como reparar um cérebro, enquanto o outro descobriria como criar um corpo sem cérebro. “É uma combinação perfeita, certo? Corpo, cérebro”, disse Hébert à MIT Technology Review na ocasião.
Ao trabalhar fora do circuito convencional, Schloendorn tinha a enorme vantagem de “não estar preso à necessidade de publicar o próximo artigo ou conseguir o próximo financiamento”, disse Hébert, acrescentando: “É uma maneira maravilhosa de fazer pesquisa. É simplesmente limpa e pura.” A R3 agora aparece no site da ARPA-H em uma lista de possíveis parceiros do programa de Hébert.
Em uma mensagem trocada com Schloendorn pelo LinkedIn naquele mesmo ano, ele descreveu seu trabalho como “pesquisa de viabilidade em substituição corporal”.
“Vamos tentar fazer isso de uma forma que produza benefícios sociais concretos desde cedo, e precisamos estar preparados para aceitar um não como resposta caso se descubra que isso não pode ser feito com segurança”, escreveu Schloendorn na época. Ele recusou uma entrevista naquele momento, dizendo que, antes de sair do modo sigiloso, queria ter certeza de que os benefícios estivessem “razoavelmente fundamentados na realidade”.
Isso pode se mostrar desafiador. Embora a substituição de partes do corpo pareça lógica, como trocar a correia dentada de um carro velho, na realidade há poucas evidências de que receber órgãos de um gêmeo mais jovem faria alguém viver por mais tempo.
Um transplante completo de corpo, por sua vez, provavelmente seria fatal, pelo menos com as técnicas atuais. No teste mais recente do conceito, publicado em julho passado, cirurgiões russos removeram a cabeça de um porco e depois a costuraram novamente ao corpo. O animal de fato sobreviveu, respirando com dificuldade e bebendo água de uma seringa. Mas, como sua medula espinhal havia sido seccionada, ele ficou completamente paralisado. Até o momento, não existe um método comprovado para reconectar uma medula espinhal seccionada. Em um ato de misericórdia, os médicos sacrificaram o porco após cerca de 12 horas.
Até mesmo alguns dos investidores da R3 afirmam que o empreendimento é um projeto arriscado e com poucas chances de sucesso, comparável à colonização de Marte. Boyang Wang, diretor da Immortal Dragons, falou em conferências sobre longevidade a respeito da tecnologia de troca de corpos, referindo-se à possibilidade de que, “quando chegar a hora, você possa transplantar seu cérebro para um novo corpo”. Wang confirmou, em uma chamada pelo Zoom em janeiro, que estava se referindo à R3 e que investiu US$ 500 mil na empresa durante uma rodada de captação de recursos em 2024.
Mas, desde que fez o investimento, Wang afirma ter se tornado menos otimista. Hoje, ele considera o transplante de corpo inteiro “muito inviável, nem sequer muito científico” e “muito distante de oferecer esperança para qualquer aplicação realista”.
Ainda assim, ele afirma que o investimento na R3 está de acordo com sua filosofia de fazer apostas pouco convencionais que possam representar avanços contra o envelhecimento. “O que pode realmente fazer a diferença?”, pergunta. “Porque o tempo está se esgotando.”
Modo sigiloso
Corpos clonais estão na fronteira mais extrema de um conjunto de tecnologias em avanço, todas voltadas ao cultivo de peças de reposição. Pesquisadores estão explorando células-tronco, embriões sintéticos e organoides semelhantes a massas, e algumas empresas estão clonando porcos geneticamente modificados cujos rins e corações já foram transplantados para alguns pacientes. Cada um desses métodos busca aproveitar o desenvolvimento, o processo pelo qual os corpos dos animais se formam naturalmente no útero, para cultivar órgãos plenamente funcionais.
Há até um grupo crescente de cientistas do meio acadêmico convencional que afirma que corpos não sencientes poderiam solucionar a escassez de órgãos, caso pudessem ser produzidos por meios artificiais. Dois professores da Universidade Stanford, que chamam essas estruturas de “bodyoids”, publicaram um editorial na MIT Technology Review no ano passado defendendo a produção de corpos humanos de reposição. Embora o editorial tenha deixado muitos detalhes por conta da imaginação, eles classificaram a ideia como “no mínimo plausível e possivelmente revolucionária”.
“Há muitas variações disso em que se tenta encontrar uma forma socialmente aceitável”, diz George Church, professor da Universidade Harvard que atua como consultor de startups da área. Mas Church afirma que gestar um corpo inteiro provavelmente seria ir longe demais, especialmente porque quase todos os pacientes nas listas de transplante aguardam apenas um único órgão, como um coração ou um rim.
“Quase não existe cenário algum em que seja necessário um corpo inteiro”, afirma. “Acho apenas que, mesmo que um dia isso seja aceitável, não é um bom ponto de partida.” Por enquanto, diz Church, corpos humanos sem cérebro “não são muito úteis, além de serem repulsivos”.
É possível dizer que é por isso que a tecnologia de substituição corporal ainda parece arriscada de discutir, mesmo entre entusiastas da extensão da vida que, de outra forma, estão dispostos a injetar peptídeos chineses ou a ter seus corpos congelados criogenicamente. “Acho que é algo empolgante ou interessante do ponto de vista científico, mas acho que o mundo ainda não está totalmente preparado para isso”, diz Emil Kendziorra, CEO da Tomorrow Bio, empresa de Berlim que armazena corpos a -196 °C na esperança de que possam ser trazidos de volta à vida no futuro.
“Todo mundo fica tipo: sim, sabe, a criopreservação faz todo o sentido”, diz ele. “Aí você fala em substituição total do corpo. E todo mundo fica tipo: Calma, calma, calma.”
Mesmo assim, a tecnologia de “substituição” encontrou uma base fervorosa de apoio entre um grupo de adeptos da longevidade que se autodenominam “hardcore” e seguem uma filosofia chamada Vitalismo, segundo a qual a sociedade deveria redirecionar recursos para alcançar vidas de duração ilimitada. A crescente influência desse movimento, conquistada por meio de lobby, investimentos, recrutamento e comunicação pública, foi detalhada no início deste ano pela MIT Technology Review.
Na primavera passada, durante um encontro dessa comunidade, Kendziorra esteve entre os participantes de uma reunião chamada “Replacement Day”, exclusiva para convidados e realizada fora da programação pública. Era ali que ideias mais radicais podiam ser discutidas livremente, já que, para alguns integrantes do círculo vitalista, a substituição de partes do corpo surgiu como a forma mais plausível e menos dispendiosa de vencer a morte.
Pelo menos essa foi a conclusão de um roteiro para tecnologias antienvelhecimento elaborado por um grupo vitalista, o Longevity Biotech Fellowship, que estimou que criar uma prova de conceito de um clone humano sem neocórtex custaria US$ 40 milhões, uma quantia pequena, em termos relativos.
O relatório citava a existência de duas empresas sigilosas trabalhando na clonagem de corpos inteiros não sencientes, embora tivesse o cuidado de não identificá-las. Se as atividades dessas empresas se tornarem públicas, “haverá uma reação enorme, as pessoas vão odiar”, disse o empreendedor Kris Borer ao apresentar o roteiro em um resort francês em agosto passado.
“Há uma quantidade enorme de filmes e romances distópicos sobre esse tipo de coisa. Foi por isso que não falei sobre nenhuma das empresas que estão trabalhando nisso. Elas estão tentando se esconder da atenção pública”, disse ele. “Precisamos que investidores-anjo e outras pessoas invistam meio que em segredo até que as coisas estejam prontas.”
Borer chegou a dizer qual considera ser a melhor forma de tornar isso público: primeiro, introduzir lentamente a substituição corporal na consciência da sociedade, revelando objetivos mais limitados, que seriam mais aceitáveis. “Não vamos começar com Vamos clonar você e lhe dar um corpo. Vamos começar com Vamos resolver a escassez de órgãos”, disse ele. “Com o tempo, as pessoas vão se acostumar com a ideia, e então poderemos partir para as coisas mais hardcore.”
Em uma entrevista no início deste mês, Borer se recusou a identificar as empresas envolvidas em seu roteiro para a imortalidade ou a dizer se a R3 é uma delas. Mas identificamos uma startup sigilosa adicional, desta vez focada em substituir os órgãos internos de uma pessoa, e não o corpo inteiro. Chamada Kind Biotechnology, é uma empresa sediada em New Hampshire e comandada pelo pesquisador antienvelhecimento Justin Rebo, que ocasionalmente colabora com Schloendorn.
Segundo pedidos de patente apresentados pela empresa, a equipe de Rebo está trabalhando para criar animais com uma “completa incapacidade de sentir, pensar ou perceber o ambiente”. Imagens incluídas nas patentes mostram camundongos produzidos pela empresa que não têm um cérebro completo e outros que não têm rosto nem membros. Eles fizeram isso removendo genes de embriões com a tecnologia de edição genética CRISPR, com o objetivo de criar um “saco de órgãos que cresce praticamente por conta própria”, com apenas um sistema nervoso mínimo. Uma ilustração submetida ao escritório de patentes mostra algo que se parece com uma bolsa de viagem de carne conectada a tubos de suporte à vida.
Em um e-mail, Rebo afirmou que sua empresa está trabalhando em uma forma “ética e escalável” de criar órgãos de animais para transplantes experimentais em seres humanos. Ele observa que “milhares morrem enquanto esperam” por um órgão.
Alguns dos pedidos de patente da Kind abrangem, de fato, a possibilidade de produzir esses sacos de órgãos a partir de células humanas. Rebo afirma que essa é uma possibilidade mais especulativa. Mas ele considera seu trabalho parte da abordagem de “substituição” para a longevidade. Em primeiro lugar, isso ocorre porque uma “produção escalável de órgãos jovens e de alta qualidade” permitiria que cirurgiões tentassem transplantes em mais tipos de pacientes, incluindo muitas pessoas idosas com doenças cardíacas que hoje não são candidatas a um transplante.
“Com órgãos abundantes e de alta qualidade, a substituição poderia se tornar uma forma direta de rejuvenescimento por meio da troca de partes que estão falhando”, afirma.
E Rebo imagina que substituir simultaneamente vários órgãos internos, cultivados juntos no saco, poderia ter efeitos rejuvenescedores ainda mais amplos. “Em última análise, substituir partes que estão falhando é um caminho direto para prolongar a vida humana saudável”, afirma.
Church, que concordou no início deste ano em atuar como consultor da Kind Bio, vê esse trabalho como parte de um esforço para “direcionar” essas tecnologias “para algo que seja mais útil e mais aceitável desde o início”, afirma. “E então vamos ver como a sociedade reage a isso, em vez de partir diretamente para a forma mais repulsiva e mais inútil, que é o que alguns deles parecem estar tentando alcançar.”
“Há uma maneira de descobrir”
Pessoas que conhecem Schloendorn o descrevem como alguém de energia incessante, “100% dedicado” ao objetivo da extensão extrema da vida. Em 2006, ele escreveu um artigo em uma revista de bioética explicando por que o “desejo de viver para sempre” é racional, e sua pesquisa de doutorado na Universidade do Arizona foi financiada por uma organização de pesquisa sobre longevidade chamada SENS Foundation.
Ele também é bem relacionado. Em entrevista, Aubrey de Grey, o influente e controverso captador de recursos e prognosticador que cofundou a SENS, chamou Schloendorn de “um dos meus protegidos”. E, por volta de 2010, Peter Thiel teria investido US$ 1,5 milhão na ImmunePath, uma empresa criada por Schloendorn para desenvolver tratamentos com células-tronco, embora ela tenha fracassado pouco tempo depois. Um representante de Thiel não respondeu a um pedido de confirmação do valor.
Em 2021, Schloendorn já havia seguido em frente e fundado a R3 Biotechnologies. Ele começou a divulgar a ideia de substituição corporal e a discutir um plano passo a passo para chegar até ela: primeiro avaliar as técnicas em laboratório, depois em macacos e, talvez, no futuro, em seres humanos.
Uma “carta às partes interessadas” de 2023, assinada por Schloendorn, começa afirmando que “a clonagem para substituição corporal exigirá engenharia genética de múltiplos componentes em uma escala jamais tentada em primatas”. Felizmente, acrescenta, técnicas moleculares de “inativação cerebral” são bem conhecidas em camundongos e também deveriam funcionar na “gestação de primatas inteiros”, uma categoria que inclui tanto macacos quanto seres humanos.
Funcionaria? “Há uma maneira de descobrir”, diz a carta.
Wang, o investidor da Immortal Dragons, afirma que colocou dinheiro na R3 depois que a empresa lhe mostrou que é possível criar camundongos sem cérebros completos. “Havia imperfeições, mas os camundongos resultantes sobreviveram, cresceram e, para mim, isso é um experimento bastante convincente”, afirma. Para ele, isso foi evidência suficiente para financiar a tentativa da R3 de “replicar o resultado em primatas”.
Em sua declaração por e-mail, a R3 afirmou que a empresa e seus fundadores “nunca produziram qualquer grau de alteração cerebral em nenhuma espécie, não tentaram fazê-lo, não contrataram terceiros para fazê-lo e não têm planos específicos de fazê-lo no futuro”. Acrescentou ainda: “Não trabalhamos com primatas não humanos vivos.”
O maior obstáculo técnico, porém, continua sendo a clonagem. De cada 100 tentativas de clonar um animal, normalmente apenas algumas são bem-sucedidas. Só esse fato já torna a clonagem de um ser humano, ou de um macaco, quase inviável.
Mas a R3 parece ter feito um esforço para enfrentar o problema da eficiência. Em um documento analisado pela MIT Technology Review, a empresa afirma ter implementado melhorias no procedimento básico em roedores, mencionando uma proteína chamada desmetilase de histona, que ajuda a apagar a memória genética de uma célula. Adicioná-la pode aumentar significativamente a chance de a célula formar um embrião clonado depois de ser injetada em um óvulo em laboratório.
Essas moléculas foram usadas na primeira clonagem bem-sucedida de um macaco, realizada em 2018 na China. Mas ainda assim não foi fácil, na verdade, foi um esforço enorme e caro lidar com um grande número de macacos no cio e realizar fertilização in vitro neles. Segundo Cibelli, da Universidade Estadual de Michigan, a clonagem de macacos continua quase impossível, pelo menos em território norte-americano, simplesmente porque é “inviável financeiramente”.
Ainda assim, o sucesso em macacos ajudou a demonstrar, pelo menos do ponto de vista biológico, que a clonagem reprodutiva humana poderia ser possível.
A empresa também pode ter tentado enfrentar um segundo obstáculo antigo da clonagem: defeitos no funcionamento da placenta. Por causa desses problemas, alguns animais clonados morrem pouco depois do nascimento.
O documento da R3 menciona uma “correção do parto” desenvolvida pela empresa para aumentar ainda mais a taxa de sucesso da clonagem. Embora a MIT Technology Review não tenha descoberto em que consiste o processo da R3, encontramos uma referência a ele na página do LinkedIn de Maitriyee Mahanta, cientista que coassinou a carta de 2023 aos stakeholders da R3 e é ex-assistente de pesquisa de Hébert. Não conseguimos entrar em contato com Mahanta para obter comentários.
Sua página descrevia sua função atual como “líder de biologia molecular”, estudando clonagem, “correção da taxa de nascimento” e desenvolvimento cortical usando células de primatas não humanos. Seu vínculo profissional é informado como sendo com a Longevity Escape Velocity Foundation, organização sem fins lucrativos da qual de Grey é presidente e diretor científico. Mas de Grey afirma que sua fundação apenas providenciou um visto de trabalho para Mahanta como parte de uma parceria “com a empresa onde ela de fato passa seu tempo”.
Assim como várias outras pessoas entrevistadas para esta reportagem, de Grey fez um esforço engenhoso para evitar confirmar diretamente a existência da R3 quando conversamos, ao mesmo tempo em que discutia livremente aspectos teóricos da tecnologia de clonagem corporal. Por exemplo, ele falou sobre formas de reduzir o tempo de espera para que seu duplo cresça até atingir um tamanho adequado para a retirada de órgãos. Segundo ele, uma mutação genética adicional poderia ser acrescentada para provocar “puberdade precoce central” no clone. Essa condição causa um estirão de crescimento, e até o aparecimento de pelos pubianos, em uma criança pequena.
Clonando ditadores
Quem clonaria um corpo e pagaria para mantê-lo vivo por anos, até que ele fosse necessário? Os primeiros clientes dessa tecnologia cara, caso algum dia ela se mostre viável, provavelmente seriam os ultrarricos ou os ultrapoderosos.
De fato, de alguma forma, os principais ditadores do mundo parecem ter recebido o recado sobre peças de reposição. Em setembro, um microfone aberto captou uma conversa entre o presidente russo Vladimir Putin e o líder chinês Xi Jinping enquanto caminhavam por Pequim com o autocrata norte-coreano Kim Jong Un. Na conversa, o russo especulou sobre a extensão da vida.
“A biotecnologia está em desenvolvimento contínuo. Órgãos humanos podem ser transplantados continuamente. Quanto mais você vive, mais jovem se torna e [pode] até alcançar a imortalidade”, disse Putin por meio de um intérprete.
“Alguns preveem que, neste século, os seres humanos viverão até os 150 anos”, respondeu Xi em tom de concordância.
Não se sabe como os líderes tomaram conhecimento dessas possibilidades. Mas cenários envolvendo ditadores são um tema constante entre os entusiastas da substituição corporal.
“Há empresas trabalhando nisso. Elas estão operando em sigilo, não podemos revelar muita coisa sobre elas, mas o conceito geral é que, se você não tivesse nenhum escrúpulo ético, poderia fazer grande parte disso hoje”, disse Will Harborne, diretor de investimentos da LongGame Advisors, no ano passado, durante uma entrevista com o podcaster Julian Issa. “Se você fosse o ditador de algum país e quisesse um clone de si mesmo, já poderia mandar criar um. Você pode criar um embrião clonado de si mesmo, conseguir uma barriga de aluguel para levá-lo até o fim da gestação e fazer [um] corpo crescer até os 18 anos com um cérebro e, no fim, se fosse um ditador, poderia matá-lo e tentar transplantar sua cabeça para o corpo dele.”
“E ninguém está sugerindo que você faça isso, é algo muito antiético, mas grande parte da tecnologia já existe”, disse ele. Harborne observou que o motivo para remover o córtex de um clone criado para esse propósito é que “não queremos matar outras pessoas para viver para sempre”.
Harborne posteriormente confirmou à MIT Technology Review que o fundo investiu US$ 1 milhão na R3 cerca de um ano e meio atrás.
Para que o processo de substituição corporal seja ético, o cérebro do clone precisa ter seu desenvolvimento limitado para que ele não tenha consciência. É aí que entra o interesse por malformações congênitas. Exames médicos impressionantes de crianças com uma condição rara, a hidranencefalia, mostram ausência total dos hemisférios cerebrais. Ainda assim, se receberem cuidados, elas podem conseguir viver até os 20 e poucos anos, embora não consigam falar nem realizar movimentos intencionais.
A questão técnica, então, é como produzir intencionalmente uma condição desse tipo em um clone. Sandberg, o futurista, afirma ter visitado o laboratório da R3, conversado com Gilman e assistido a uma apresentação sobre como a engenharia genética pode ser usada para moldar o crescimento do cérebro. Trabalhos anteriores demonstraram que, ao adicionar um gene tóxico, é possível matar tipos específicos de células em um embrião em desenvolvimento e preservar outros, resultando em um camundongo sem neocórtex.
Embora Sandberg não seja especialista em biotecnologia, ele afirma que a teoria da R3 lhe pareceu plausível. “Acho que é possível impedir o desenvolvimento do cérebro de forma suficiente para que se possa dizer: ‘Sim, quase certamente não há consciência aqui’”, diz Sandberg. “Portanto, não pode haver sofrimento nem, em um sentido prático, um indivíduo.”
“Acho que o objetivo geral, na verdade, parece eticamente bastante aceitável”, afirma.
Ainda assim, pode ser difícil determinar de fato onde a consciência começa e termina. Segundo os padrões médicos atuais, não é permitido retirar os órgãos de pessoas com hidranencefalia porque elas não atendem ao critério de morte encefálica: seu tronco encefálico continua funcionando. Um problema ainda mais sério é a existência de evidências de que o tronco encefálico, por si só, produz uma forma básica de consciência. Se isso for verdade, diz Bjorn Merker, neurocientista que entrevistou cuidadores de mais de cem crianças com hidranencefalia, um plano “para retirar órgãos de organismos modelados com base nessa condição seria antiético”.
É claro que a versão mais extrema do sonho da substituição não consiste apenas em retirar órgãos. Trata-se de assumir o corpo inteiro. Sergio Canavero, controverso cirurgião italiano que propôs transplantes de cabeça e de cérebro, afirma ter sido procurado alguns anos atrás por Schloendorn e outras pessoas em busca de orientação. “Eles me disseram que estavam pensando em um transplante de cabeça em uma criança de dois ou três anos”, afirma. “Eu parei na hora. Como alguém poderia sequer conceber isso? A compatibilidade biomecânica não existe. É preciso esperar pelo menos até os 14 anos. E eu diria 16. Para mim, ficou muito claro que esses caras não são cirurgiões, são biólogos.”
Canavero afirma não ser contrário à clonagem de corpos para transplante, ele acha que isso poderia funcionar. “Mas, se você quiser usar um clone”, diz ele, “ele precisa ser um clone não senciente. Caso contrário, é assassinato, um homicídio.”
A MIT Technology Review não encontrou nenhuma evidência de que a R3 já tenha criado um “saco de órgãos”, muito menos um clone humano sem cérebro. E há muitos motivos para acreditar que esse futuro hipotético de “substituição completa do corpo” jamais se concretizará, que não passa de uma fantasia de viver para sempre.
“Há tantas barreiras”, diz Cibelli. A lista é longa: a clonagem humana é ilegal em muitos países, não é segura e poucos especialistas competentes gostariam, ou ousariam, participar. E há ainda o fato inconveniente de que, por enquanto, não existe maneira de levar um clone sem cérebro até o nascimento, a não ser no corpo de uma mulher. Pense nisso, diz Cibelli: “Você teria de convencer uma mulher a gestar um feto que será anormal.”
Sandberg concorda que é aí que as coisas podem começar a ficar complicadas. “O problema aqui, é claro”, afirma ele, “é que o fator de repulsa é enorme.”
