Mixando música com blockchain, NFTs e DAOs, a caminho da Web 3
ComputaçãoSegurança digital por Embratel

Mixando música com blockchain, NFTs e DAOs, a caminho da Web 3

Músicas em NFTs não apenas podem trazer novos modelos de negócios para seus criadores, como também pode incentivar os fãs a encontrar novos artistas de forma mais proativa.

No mercado da música tradicional, apenas alguns poucos “sortudos” conseguem um contrato discográfico, e quando isto acontece, não é raro que tenham de ceder até 80% dos royalties para a gravadora. Segundo relatório do Citigroup, os artistas apenas ficam com 12% da receita de suas músicas.

Tendo isto em conta, proponho um passeio pela indústria da música (desde a Era Pré-Internet e o surgimento das plataformas de música até o impacto provocado pelo uso da tecnologia blockchain) para, ao final, compreendermos o estágio atual e as tendências que levarão este mercado ao metaverso e à Web 3.0.

A cadeia de fornecimento da música na Era Pré-Internet

Há alguns bons anos atrás, até era compreensível a necessidade de uma fila interminável de intermediários, dado o esforço físico necessário para gravar uma música no início do século XX. Para se ter uma idéia, veja como era a cadeia de fornecimento de música gravada, antes da Era iTunes (2015):

Intermediários como selos e gravadoras agregavam valor ao mercado da música de três maneiras principais:

1. Proporcionando aos artistas acesso ao equipamento de gravação, suporte operacional, branding e marketing, e canais de vendas

2. Monitoramento e gerenciamento de Propriedade Intelectual (registro e violações da propriedade intelectual)

3. Rentabilidade da Propriedade Intelectual através do gerenciamento do pagamento de royalties (por exemplo, taxas de licenciamento de processamento)

Vale destacar, aqui, que estávamos vivendo em plena era analógica, onde tudo era manual, burocrático, o que exigia uma infraestrutura extremamente cara e lenta. Importante lembrarmos que, na era Pré-Internet, ou seja, antes das plataformas como Spotify, iTunes e YouTube, o suporte operacional incluía a produção de hardware musical (discos de vinil ou CDs ou fitas de áudio).

Além disso, era comum fazer uso do que é conhecido como “empacotamento” (agrupamento): a montagem de muitas composições de diversos artistas em um único dispositivo físico (um CD, por exemplo), o que permitia a justaposição de uma banda ou cantor menos conhecido, com um nome renomado.

E esta capacidade de dar “destaque” a artistas e bandas em início de carreira é que ajudou as gravadoras a influenciar consideravelmente a “sorte” dos artistas.

Mas após o surgimento da Internet e o desenvolvimento de softwares, as coisas começaram a mudar.

A indústria da música na Era das Plataformas

Com o advento da Internet, vieram os modelos de negócios em rede, cujo principal resultado são as conhecidas plataformas da Internet, que reordenaram esse “standard do empacotamento”, permitindo que composições “individuais” fossem vendidas e consumidas em formato digital, além de permitir que alguns artistas contornassem certos intermediários.

O “empacotamento” agora ocorre em listas de serviços de streaming como Apple Music, Spotify, Pandora e Amazon Music, dentre outros. E as “playlists”, controladas pelos serviços de streaming digital, possuem uma influência enorme.

Durante a Era da Internet, e ao longo do século XX, a indústria musical gerou uma miríade de empresas que canalizaram receitas por um sistema de comercialização altamente complexo e caro, apoiado por acordos de licenciamento e registro de direitos autorais.

É fato que este ecossistema reduziu os custos de transação da comercialização de música entre artistas/intérpretes e os pontos de venda de música (serviços de streaming), bem como reduziu intermediários (distribuidoras e gravadoras de música).

No entanto, esses “players” reduziram os custos de transação de forma “desigual”, em virtude das significativas assimetrias de informação que prevalecem entre os membros do ecossistema, o que possibilitou a alocação da maior parte da arrecadação aos intermediários, em detrimento dos autores e intérpretes.

E tais assimetrias existem por conta da maneira peculiar como os direitos autorais foram concebidos (verdadeiros monopólios legais), cuja posse dá poder de mercado a quem quer que esteja em uma posição de preeminência econômica factual no setor.

Para se ter uma idéia do que estamos falando, observe abaixo o infográfico de distribuição de receitas da indústria da música, em especial o quanto é destinado para Record Label (gravadoras) e Plataform Cost (Plataformas):

Fonte: Audius

Como provavelmente quase todas as pessoas que você conhece usam Spotify, Apple Music, ou algum outro serviço de streaming de música, é chocante saber o quão pouco os artistas recebem através destas plataformas.

Dito de outro modo, de aproximadamente 8 milhões de artistas no Spotify, apenas 0,53% deles (42.100 artistas) ganharam mais de US $10.000,00 no ano; e apenas 0,17% (13.400) ganharam mais de US $50.000,00.

Neste contexto, não é à toa que artistas se sintam injustamente recompensados. Veja abaixo uma comparação de pagamentos por streaming (2022), onde um artista, para receber US $ 1 (um dólar, ou o equivalente a R$ 5,13), precisa que sua música seja tocada 229 vezes no Spotify, 136 vezes na Apple Music, 249 vezes na Amazon Music.

Ao contrário dos artistas, os últimos resultados financeiros do 3º trimestre de 2021 do Spotify foram em torno de US$ 381 milhões de dólares. Usuários mensais ativos geraram uma receita de US$ 2,8 bilhões em receita para a empresa, dos quais US$ 112 milhões se tornaram fluxo de caixa livre para a empresa gastar com eles mesmos (fonte: businesswire: a A Berkshire Hathaway Company).

Mixando música com blockchain

Insira tokens não fungíveis (NFTs) como uma solução.

A maioria das pessoas conhece NFTs como fotos na Internet utilizadas tanto para coleções pessoais quanto como fotos de perfil nas mídias sociais. Mas, na verdade, tokens não fungíveis também podem representar outros ativos que não podem ser substituídos por outro de igual qualidade, quantidade.

Um NFT pode representar qualquer coisa (seja física, seja digital) na Internet, desde que esta coisa seja “única”, como ferramentas dentro de um videogame, ingressos para eventos do mundo real, ou ainda, uma música.

Não há dúvida de que nosso mundo on-line está cheio de conteúdo digital. Mas qual o valor que todo este conteúdo traz para o criador deste conteúdo, para aquele que gastou tempo, dedicação e esforço para criar determinado conteúdo e disponibilizá-lo na Internet?

Na Web 2.0, a web como conhecemos hoje, a propriedade de seu conteúdo é transferida para plataformas de mídia social, e é utilizado para rentabilizar da maneira que esses sites julgarem conveniente. Quem quiser se aprofundar mais sobre este assunto, uma leitura indispensável é o livro “The Age of Surveillance Capitalism”.

Pois bem, quando transformamos alguns desses conteúdos únicos em NFTs, se registrados em um blockchain, eles passam a ser realmente um ativo “único”, impossível de ser falsificado, adulterado ou fraudado, devolvendo ao criador de conteúdo a propriedade real do seu trabalho.

Vamos então contextualizar o potencial dos NFTs por meio de um exemplo mais relacionado à música, antes de relacionarmos NFTs de música com a Web 3.

Imagine-se como um grande fã do Coldplay quando eles ainda eram uma banda em ascensão em Londrês. Vamos também fingir que o Coldplay era entusiasta da tecnologia blockchain e cunhou a canção “Yellow” no ano 2000, seu primeiro grande sucesso, como um NFT, que por acaso você adquiriu. Quanto valeria agora esse NFT? Certamente, mais do que quando foi lançado. Como um fã, você poderia “investir” na carreira do Coldplay — e como o Coldplay começou a acumular vários Grammy Awards, seu investimento também teria rendido dividendos.

Aqui, vale destacar que NFTs também permitem “royalties perpétuos”, graças à programabilidade dos Smart Contracts. Isto é, para todas as vendas futuras desse NFT, o Coldplay receberia algum percentual do valor da venda estabelecido pela banda.

Estes tokens musicais dão à banda Coldplay a propriedade real do seu trabalho. Não há mais situações confusas com disputas por direitos autorais. Afinal, a propriedade é poder.

Com NFTs baseados em blockchain, não há mais aquela mistura obscura de direitos de propriedade fracionados, com fluxos de pagamento “opacos” para o artista ou banda, o que muitas vezes leva à subvalorização do trabalho do artista mencionada nos parágrafos anteriores.

A tecnologia blockchain trouxe transparência à toda cadeia de fornecimento da música, permitindo que o criador dite seus termos via código de software desde a cunhagem de música como NFTs; o que permite que os artistas produzam provas criptograficamente escassas e verificáveis de seu trabalho, amarrando para sempre o artista a sua canção.

Música, NFTs e DAOs a caminho da Web 3

Assim como as pessoas colecionam arte, carros e figurinhas de esportes, por que não colecionar música? Poucas coisas são tão marcantes quanto as memórias evocadas pela música.

Qual música te remete à sua infância? Ou a seu primeiro romance?

Os NFTs dão propriedade digital tangível sobre essas memórias e pode ser muito cedo para entender o impacto disso.

Músicas em NFTs não apenas podem trazer novos modelos de negócios para seus criadores, como também pode incentivar os fãs a encontrar novos artistas de forma mais proativa.

Isto porque, a propriedade da música via NFTs baseados em blockchain desbloqueia outra ferramenta crucial no arsenal da Web 3.0: o alinhamento de incentivos através da tokenização.

E a tokenização da música possibilita o uso de DAOs por gravadoras que já estão alinhadas ao espírito da Web 3.0, como é o caso da Good Karma DAO – uma verdadeira “gravadora autônoma descentralizada” cujo token, $KARMA, é utilizado como incentivo para alinhar os interesses dos participantes da plataforma (artistas, bandas, fans e membros da DAO)

Os membros da DAO ganham o token $KARMA por seguirem artistas, fazerem comentários criativos e contribuírem para as operações diárias do DAO.

E a função principal do DAO é semelhante às gravadoras tradicionais, mas a transparência e a governança aberta desafiam o “ethos” das empresas atualmente existentes.

Os próprios artistas também recebem token $KARMA ao assinarem o Good Karma DAO, o que alinha seus interesses com o crescimento e o sucesso da DAO.

Possibilidades

A infraestrutura da indústria da música ao estilo da web 3.0, a Web Descentralizada, já está sendo construída diante de nossos olhos.

Claro que ainda estamos construindo esta infraestrutura, que demanda muito trabalho, foco e investimento.

Mas, de tudo o que vimos até aqui, já é possível vislumbrarmos como e quanto artistas e bandas, os verdadeiros produtores de conteúdo, irão se beneficiar de modelos de negócios mais dinâmicos, menos burocráticos e mais justos.

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