Série Eleições: IA sabe o que políticos fizeram no mandato passado
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Série Eleições: IA sabe o que políticos fizeram no mandato passado

Mamute Político ajuda sociedade a acompanhar o trabalho do congresso nacional em propostas, votações e discursos

É lugar-comum dizer que, depois que passa o período eleitoral, os cidadãos nem se lembram em quem votaram. E os números reforçam essa percepção. Uma pesquisa divulgada em junho pelo Datafolha aponta que 85% se recordam de quem escolheram para presidente, mas apenas 23% sabem seu deputado federal, e o número se repete na categoria deputado estadual. Mas o Mamute Político pretende ajudar os eleitores com uma “memória de elefante”. A plataforma digital brasileira utiliza Inteligência Artificial e dados oficiais para facilitar o monitoramento de deputados federais e senadores no Congresso Nacional.

São 513 deputados federais e 81 senadores acompanhados na plataforma, que reúne 4.532 proposições e 892 votações até o momento. O objetivo é que o usuário selecione os parlamentares de seu interesse, visualize dados em tempo real no painel, receba alertas de movimentações e ainda possa consultar informações com uma linguagem natural. É possível buscar pelo nome, partido, estado e legislatura. Já são cerca de mil usuários gratuitos cadastrados.

“É uma proposta que coloca o usuário para monitorar a pessoa que ele votou. Ou não, ou a pessoa que ele odeia, mas que ele quer ser uma pedra no sapato. O que está valendo também, é do jogo e reforça a democracia”, define Maurício Ferro, criador da plataforma.

Ao acessar a página de um parlamentar, você encontra os dados cadastrais como informações pessoais e contatos, além de estatísticas e votos, proposições, emendas e taquigrafias, com links direto para as fontes oficiais. Isto em uma versão gratuita, para aqueles que quiserem ir mais a fundo e assinar o serviço, é possível ver ainda informações como gastos e trajetória. Na área Pesquisa IA, um chatbot responde questões como proposições aprovadas no último mês, por exemplo. Na versão gratuita, a pesquisa é limitada a duas consultas por semana. Na paga, não há limite e o histórico fica salvo.

O resultado ainda não aponta o link da fonte de dados usada para elaborar a resposta, é uma melhoria que ainda deve ser implementada, mas indica número da proposta e data do discurso para que o usuário possa checar a resposta. Ao realizar uma pergunta subjetiva sobre qual deputado fez mais pela educação, a IA informa que “não é possível determinar com base nas informações fornecidas, pois a base de dados não permite uma avaliação comparativa de impacto ou mérito”. A ferramenta sugere que pode listar os parlamentares que mais discursaram sobre o tema e apresentar trechos de seus discursos que abordam o assunto.

O criador, Maurício Ferro, é um jornalista entusiasta de tecnologia que há muitos anos acompanhava as pesquisas sobre leitores desmemoriados e se questionava por que ninguém tinha pensado ainda em como ajudar a população. Criador do Correio Sabiá, um jornal pensado diretamente para WhatsApp, ele aproveitou uma oportunidade de financiamento do programa Codesinfo, do Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor), financiado pela Google News Initiative, com investimentos de R$ 160 mil por projeto.

“Eu já havia mapeado que existiam diversos projetos para incrementar a transparência pública, só que nenhum deles era voltado para o eleitor. Coitado do eleitor. Ninguém estava pensando nele. E, na minha visão, esse é o maior obstáculo para as pessoas conseguirem cobrar os seus representantes. Então já havia de um lado uma série de iniciativas, inclusive com tecnologia, para permitir que as pessoas acompanhassem um projeto de lei, mas era sempre um acompanhamento pelo projeto, pela medida, pela proposta de emenda constitucional e nunca colocando o eleitor para acompanhar o cara em quem ele votou”, lembra.

A ideia já existia bem antes da atual onda de IA. Em 2018, Ferro criou o Correio Sabiá na esteira da eleição marcada pela desinformação. Dois anos depois, ganhou uma bolsa do International Center For Journalists que financiou a estruturação de um site, que permitiu estruturar sua empresa de mídia e tecnologia com diversas frentes de projetos. Em 2020, surgiam as primeiras ideias do que viria a ser o Mamute Político.

“A proposta de inclusão da IA surge nesse contexto, quando vem o hype, a gente começa a pensar aquela ideia pode ser catalisada com Inteligência Artificial. A gente pode fazer um negócio muito maior e muito melhor”.

Como funciona a coleta de informações

O Mamute Político foi criado por uma equipe de desenvolvedores com uma Inteligência Artificial que usa bases públicas. O projeto fechou parceria com uma “software house”, o Núcleo Jornalismo, que trabalha tanto com desenvolvimento como enquanto veículo, e que já havia um projeto de monitoramento na área, mas “do outro lado da moeda”, o Legislatech, que monitora documentos públicos, em tramitações legislativas e diários oficiais.

“A gente tem no Brasil um ambiente muito robusto de transparência. O problema que a gente enfrenta é transformar esses dados em informação. Então os dados estão lá. Eles existem, só que o cidadão não consegue acessar. É bem difícil de você entender o que está ali. Então o nosso trabalho foi pegar os dados existentes e torná-los acessíveis”.

Ferro pensou no longo prazo fechando a parceria não só como desenvolvimento, mas como troca de tecnologia para que a equipe do Correio Sabiá pudesse tocar a longo prazo. A plataforma tem código aberto e pode ser readaptada para outras finalidades, como o monitoramento estadual e municipal. O trabalho foi realizado com o OpenRouter, uma espécie de agregador de IAs. Se há algum problema com o ChatGPT, ele passa a rodar com o Gemini para garantir a continuidade do serviço.

As APIs usadas são da Câmara dos Deputados, do Senado e, mais recentemente, do Tribunal Superior Eleitoral. A coleta de dados é automática e já são mais 330 mil informações que passam por um processo próprio de raspagem e integração dos dados, que não exige armazenamento. De madrugada, o sistema faz a raspagem e a cada domingo a IA é treinada. A lógica se assemelha com a ferramenta NotebookLM, do Google, onde você informa a base de dados e deixa o ambiente fechado. Segundo Ferro, os testes do projeto mostraram respostas mais precisas e rápidas que as informadas no ChatGPT e no Claude.

Isso não quer dizer que o Mamute Político não possa errar. Nenhuma IA está completamente protegida de alucinações, e é por isso que eles também apostam no letramento da audiência. “É importante que usuário verifique várias vezes, se possível vá lá, procure a informação. Mas, pelo que me parece, pelos testes que a gente fundiu, ele trabalha com a pata mais centrada na realidade”.

Para quem é o Mamute Político

A ideia é que a plataforma seja usada pelos cidadãos para acompanhar políticos e por isso tem uma versão gratuita. Também é esperado um uso ampliado, com comparações, por exemplo, que são reservados para a versão paga. Esse segundo público é formado de jornalistas, principalmente locais, que possam usar a plataforma para acelerar suas apurações. Mas também podem se interessar pesquisadores, sindicatos, organizações do terceiro setor e até os próprios gabinetes de políticos, por organizar as atividades do Congresso Nacional.

“Quem fez um trabalho legal, que destinou um valor de emenda parlamentar para uma causa importante, num reduto que para ele é relevante, pode utilizar isso, inclusive, como instrumento de propaganda. Ele pode falar, olha, eu sou quem mais destinou no Rio de Janeiro recurso para educação. Eu consigo comparar na plataforma”.

O importante é que nem os candidatos e nem a plataforma sejam deixados de lado depois do período eleitoral e que a tecnologia possa operar como uma memória externa.

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