Os solteiros mais cobiçados da Coreia do Sul trabalham no setor de chips
Negócios e economia

Os solteiros mais cobiçados da Coreia do Sul trabalham no setor de chips

Com os pagamentos impulsionados pelo boom da IA, um emprego na SK Hynix pode colocar você no início da fila das agências de casamento

Baek, um gerente de 35 anos da gigante sul-coreana de semicondutores SK Hynix, foi cadastrado há um ano na Sunoo, uma agência matrimonial com sede em Seul. Em uma atitude típica de pais sul-coreanos ansiosos, a mãe dele fez a inscrição na esperança de encontrar uma boa esposa para o filho.

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Ultimamente, diz Baek (que pediu para ser identificado apenas pelo sobrenome para preservar a privacidade), ele e os colegas de trabalho têm tido mais sorte para conseguir encontros do que antes, talvez por causa dos impressionantes bônus que acabaram de receber. Com os lucros astronômicos gerados pelo boom dos chips de IA, a SK Hynix fechou, no ano passado, um acordo histórico com o sindicato, para distribuir aos funcionários 10% dos lucros operacionais, o que representa um adicional de US$ 476 mil para cada um deles em 2026. Um acordo semelhante, acompanhado de um pagamento único de valor considerável, foi firmado com os funcionários da Samsung em maio deste ano.

Com essa riqueza recém-adquirida, trabalhadores do setor de chips como Baek se tornaram alguns dos solteiros e solteiras mais disputados da Coreia do Sul. “Tenho um colega de trabalho que vive indo a encontros às cegas e, recentemente, tem conseguido muitos”, diz Baek. “Nos últimos meses, também tenho conseguido muitos encontros, talvez por causa dos bônus que recebi.”

Jovens sul-coreanos brincam na Internet que a melhor roupa para usar em um encontro às cegas é um uniforme da SK Hynix.

O boom dos chips de IA está mudando o tecido social da Coreia do Sul ao criar uma nova elite de trabalhadores de “colarinho de silício”, que ganham cerca de 20 vezes mais do que a média da população do país. Embora isso esteja ajudando alguns profissionais do setor de chips a encontrar relacionamentos, também alimenta temores de um aprofundamento da desigualdade de renda e intensifica o debate público sobre o tema.

O amor em tempos de chips

A Coreia do Sul está no epicentro do boom dos chips que impulsiona a corrida da IA. Samsung e SK Hynix fornecem grande parte dos chips de memória de alta largura de banda, conhecidos pela sigla HBM (high-bandwidth memory), usados nos aceleradores de IA da Nvidia, as GPUs empregadas no treinamento de modelos de Inteligência Artificial. À medida que empresas de IA gastam centenas de bilhões de dólares na construção de data centers ao redor do mundo, a demanda por HBMs cresce além da capacidade dos fornecedores, levando os preços a níveis sem precedentes. Como resultado, Samsung e SK Hynix estão obtendo lucros recordes.

A economia da Coreia do Sul, agora, gira em torno das duas gigantes dos chips. Em maio, ambas ultrapassaram a marca de US$ 1 trilhão em valor de mercado. As exportações de chips também ajudaram a impulsionar um crescimento de 1,7% do Produto Interno Bruto (PIB) da Coreia do Sul, no primeiro trimestre de 2026. O Kospi, principal índice de ações do país, quase triplicou no último ano, tornando-se o mercado de melhor desempenho do mundo.

Nadando em dinheiro, trabalhadores do setor de chips estão fazendo compras desenfreadas em lojas de departamentos próximas às fábricas do “cinturão dos semicondutores”, gastando em tudo: de móveis de luxo e eletrodomésticos a joias e relógios. Eles também estão comprando imóveis perto das rotas dos ônibus fretados que transportam funcionários até os complexos das empresas. E estão desembolsando dinheiro para contratar casamenteiros.

“Muitas pessoas me perguntam se posso apresentá-las a trabalhadores do setor de chips”, diz Lee Sung-mi, uma casamenteira da Sunoo que, há anos, faz o papel de cupido para profissionais do setor. “Na verdade, pessoas que antes os rejeitaram, agora, estão pedindo para serem apresentadas a eles novamente, já que os salários e bônus dispararam para níveis muito acima do que todo mundo ganha.”

Uma mulher que mora em Gangnam, um bairro sofisticado de Seul repleto de edifícios residenciais de luxo e butiques de grife, havia rejeitado um funcionário da SK Hynix, porque a fábrica onde ele trabalhava ficava longe demais, em Icheon, uma cidade rural a cerca de 80 quilômetros a sudeste de Seul, marcada por plantações de arroz e fábricas. Em maio, no entanto, ela pediu à casamenteira que os apresentasse novamente. Agora, os dois estão namorando há um mês.

Na Coreia do Sul, agências matrimoniais avaliam os clientes com base em uma longa lista de critérios, como escolaridade, emprego, renda, aparência e histórico familiar, incluindo se os pais idosos economizaram o suficiente para a aposentadoria. Em uma economia na qual os preços dos imóveis e os custos para criar os filhos estão disparando, a competição por empregos é acirrada e a rede de proteção social é limitada, um bom emprego é a credencial definitiva no mercado de relacionamentos. E se torna ainda mais cobiçada em um momento em que muitos jovens sul-coreanos estão abrindo mão por completo do casamento e de ter filhos, por considerarem a vida familiar um sonho que não podem pagar.

Cada cliente da Sunoo recebe uma pontuação como potencial cônjuge, determinada por um algoritmo que atribui notas a cada critério. Desde que os generosos bônus foram anunciados, as notas referentes ao emprego dos funcionários da Samsung subiram de 80 para 84, enquanto as dos funcionários da SK Hynix passaram de 78 para 82. Pontuações acima de 90 são reservadas a médicos e advogados, que sempre foram valorizados como símbolos de prestígio e riqueza, mas, agora, estão perto de serem ultrapassados pelos trabalhadores do setor de chips. A nota 99, a mais alta possível, é reservada a chefes de Estado.

O novo status está mudando a maneira como os próprios trabalhadores do setor de chips encaram os relacionamentos. “Os da Samsung e da SK Hynix estão se inscrevendo em nossos serviços, porque se sentem mais preparados financeiramente”, diz Lee. “Esses trabalhadores também estão ficando mais exigentes, pois entendem que, agora, estão em uma boa posição. As mulheres querem conhecer homens com rendas mais altas e empregos melhores, e os homens querem conhecer mulheres mais jovens, mais bonitas e com empregos melhores.”

Uma engenheira da SK Hynix na faixa dos 40 anos, que antes estava desesperada para se casar o mais rápido possível, começou a rejeitar homens com quem teria saído antes do boom dos chips. Ultimamente, com mais propostas de encontros, passou a avaliar os pretendentes com mais cuidado. “Agora ela está mais tranquila e quer ir com calma para conhecer alguém melhor”, diz Lee.

Uma bênção ambígua

Enquanto os trabalhadores do setor de chips aproveitam os frutos do trabalho, a enxurrada de bônus está alimentando a ansiedade entre outros sul-coreanos. “Quando a desigualdade de riqueza deixa de ser uma mera diferença de renda e passa a ser uma diferença de identidade […] isso pode alimentar conflitos sociais”, diz Se-eun Jung, economista da Universidade Inha.

No início deste mês, o Banco da Coreia alertou que o boom dos chips criará uma economia em “formato de K”, na qual um pequeno grupo de trabalhadores avança rapidamente, enquanto todos os demais ficam para trás. Segundo o banco, os ganhos extraordinários estão indo para pessoas de alta renda e quase não chegam ao restante da economia. Essa polarização poderia reduzir a motivação das pessoas para trabalhar ao estreitar as possibilidades de ascensão social, alertou a instituição.

Trabalhadores de outros setores estão desabafando na Internet sobre a desmotivação provocada pelo aumento da desigualdade de riqueza. “Os bônus de 1 bilhão de wones (US$ 650 mil) acabaram com minha motivação para trabalhar. Fico sem energia quando dou aula”, escreveu um funcionário do Escritório Metropolitano de Educação de Seul no Blind, um aplicativo no qual funcionários podem discutir anonimamente questões sobre os locais de trabalho. Outros estão desistindo de procurar emprego, lamentando que anos de trabalho em uma pequena empresa jamais poderiam se equiparar ao bônus de um único ano na Samsung.

Em uma publicação no Facebook, em maio, Kim Yong-beom, chefe de políticas da Presidência, propôs pagar um “dividendo da IA” aos cidadãos, por meio da tributação dos lucros gerados pela Inteligência Artificial. A ideia desencadeou um acalorado debate público. Alguns argumentam que o setor tem uma dívida com a sociedade, que formou engenheiros, subsidiou a infraestrutura e concedeu créditos tributários. Outros rebatem que os lucros já estão sendo compartilhados com a população por meio das ações das empresas.

Há também a questão de quanto tempo essa nova classe social vai durar. A indústria de semicondutores é notoriamente cíclica. Os gastos com IA podem esfriar, fabricantes de chips concorrentes podem alcançar as líderes e existe ainda o risco de que parte dos trabalhadores do setor seja substituída pela automação. Em março, a Samsung anunciou que pretende automatizar totalmente suas fábricas até 2030, provocando uma reação negativa entre os funcionários do setor.

Embora não saibam ao certo quanto tempo a boa fase vai durar, trabalhadores do setor de chips, como Baek, estão aproveitando o momento. “Hoje em dia, dizemos que queremos trabalhar duro e deixar nossos ossos aqui na SK Hynix”, afirma. “E espero conseguir encontrar uma esposa parecida comigo.”

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