Você já disse “tudo bem?” ou “obrigado” a um chatbot? Já pediu conselhos sentimentais a uma IA? Se sim, seja bem-vindo(a) a uma das mudanças mais silenciosas da nossa época. As novas inteligências artificiais acolhem, consolam, elogiam, lembram do que contamos na semana passada e ajustam o tom de voz quando percebem tristeza. A simulação de emoções e de empatia pelas máquinas atingiu um grau inédito de sofisticação, e estamos, pouco a pouco, reorganizando nossa relação com elas. Não só isso. Precisamos pensar no que pode acontecer com a relação entre os próprios humanos quando estivermos longe das IAs. Depois de tanta empatia simulada, quando tivermos uma conversa olho no olho, será que vamos nos comportar de maneira diferente?
Poucas pessoas pensam tanto sobre isso quanto a professora do MIT, Sherry Turkle. Tive a oportunidade de entrevistá-la há muitos anos, quando ela lançava Alone Together (2011), livro em que mostrava como, conectados o tempo todo, estávamos cada vez mais sozinhos. Em mais de quatro décadas de pesquisa, Turkle acompanhou toda essa jornada. Primeiro, conversávamos entre nós, sem intermediários. Depois, passamos a conversar por meio de telas e das redes sociais. Agora entramos numa terceira fase, em que conversamos diretamente com as máquinas.
É disso que trata seu novo livro, “Artificial Intimacy: Who We Become When We Talk to Machines” (algo como “Intimidade artificial: quem nos tornamos quando conversamos com máquinas”), lançado nos Estados Unidos em 29 de setembro, ainda sem edição em português. Depois da era das redes sociais tentando capturar nossa atenção, agora as IAs querem capturar nossos sentimentos. Turkle chama as respostas das máquinas de “empatia de faz de conta” (pretend empathy). A máquina não sente nada por nós, mas finge cada vez melhor. Como o livro foi lançado há poucos dias, obviamente Turkle não teve tempo de analisar os lançamentos das últimas semanas. Mas me atrevo a dizer que eles reforçam o argumento central dela de forma quase didática.
Na conferência Connect, dia 23 de setembro, Mark Zuckerberg apresentou o Muse Charm, um aparelho do tamanho de um chaveiro feito para conversar com a Muse, o agente pessoal de inteligência artificial que a Meta lançou no início de setembro. Numa pequena tela, aparece um avatar animado que reage em tempo real quando alguém fala. Para quem é mais velho, a comparação com o Tamagotchi é imediata. Lançado há quase 30 anos, o Tamagotchi era um “ovinho de plástico” com um bichinho virtual que precisava ser “alimentado” e “limpo”. Se fosse negligenciado, “morreria”. Foi uma febre e, talvez, uma das primeiras experiências em massa de cuidar de uma máquina como se ela fosse um ser vivo. A diferença é que o Tamagotchi pedia comida. O Muse Charm conversa, lembra e, nas palavras de Zuckerberg, está sempre disponível.
Também no mesmo 29 de setembro, dia em que o livro de Turkle chegava às livrarias, a OpenAI apresentou os Dots: são agentes que trabalham continuamente dentro do ChatGPT. Cada usuário pode dar um nome ao seu e escolher formato, cor, olhos e acessórios. Parecem mascotes. Ou pets.
Em comum entre o Muse Charm e os Dots, há uma antropomorfização clara, ou seja, a atribuição de traços humanos ao que não é humano. Não são robôs humanoides hiper-realistas, são “bichinhos”. Mas têm olhos, nomes, alguma “cara de gente”. E aqui eu faço uma provocação. Depois de uma nova onda de alertas globais sobre uma superinteligência capaz de destruir a humanidade, a indústria parece ter encontrado o antídoto perfeito para o medo. Como temer o Exterminador do Futuro quando ele cabe no bolso e te faz companhia 24h por dia com olhinhos fofos?
Eu sei, ainda estamos no início dessa nova “intimidade artificial”, mas dá para refletirmos sobre várias consequências, inclusive uma possível “desumanização” nas relações diretas entre humanos (até quando elas existirem). Um estudo de Hye-young Kim, da London School of Economics, e Ann McGill, da Universidade de Chicago, publicado no Journal of Consumer Psychology, traz resultados iniciais preocupantes. Quanto mais traços emocionais as pessoas percebiam numa máquina, mais humana ela parecia. O efeito colateral: os humanos de verdade passavam a parecer menos humanos, e os participantes se mostravam mais tolerantes com maus-tratos a trabalhadores e menos dispostos a ajudá-los. Já máquinas apenas “racionais”, por mais inteligentes que fossem, não provocavam esse efeito. A IA que nos confunde não é a que parece pensar, é a que finge sentir.
Os experimentos não foram feitos em grande escala e mediram efeitos de curto prazo. As próprias pesquisadoras ressaltam que a IA não é, em si, nociva às relações sociais. Ainda assim, é possível que um grande risco não seja o fato de as máquinas se tornarem mais parecidas conosco, e sim passarmos a olhar pessoas de verdade de maneira indiferente ou até mesmo hostil. Tudo por conta de uma intimidade simulada, sem atritos, sem vulnerabilidade, sem o lado “chato” do outro.
Nesse futuro, conversar com alguém poderá ser considerado cansativo demais. Relações humanas são imperfeitas por definição. Exigem tempo, tolerância e negociação, entre outras coisas. É um desafio conviver com alguém que não atende a 100% de nossas expectativas. Se a relação com as IAs reduzir nossa disposição para esse tipo de esforço, pode ser que a humanidade do outro comece a nos parecer insuficiente.



