Quando um chatbot conversa com uma criança, quem responde por essa relação?
BrasilInteligência artificialO futuro deu sinais

Quando um chatbot conversa com uma criança, quem responde por essa relação?

Pesquisas sobre vínculo emocional, companheiros digitais e brinquedos conversacionais anteciparam um problema que agora entrou nas regras brasileiras de proteção infantil

Em 18 de março de 2026, o Brasil colocou os sistemas conversacionais de Inteligência Artificial dentro de uma regra específica de proteção de crianças e adolescentes. O Decreto nº 12.880, que regulamentou o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, o ECA Digital, estabelece obrigações para produtos capazes de gerar conteúdo e interagir com usuários a partir de instruções em linguagem natural.

O texto menciona diretamente modelos de linguagem, agentes conversacionais e interfaces similares. Esses sistemas devem deixar claro para crianças e adolescentes seu caráter sintético e automatizado, prevenir manipulação comportamental, avaliar riscos algorítmicos à segurança e à saúde e adotar salvaguardas para o desenvolvimento físico, mental e psicossocial. A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) ficou responsável por regulamentar e fiscalizar essas exigências.

Essa mudança havia começado um dia antes. Em 17 de março, entrou em vigor a Lei nº 15.211/2025, sancionada seis meses antes. O ECA Digital alcança produtos e serviços de tecnologia direcionados a crianças e adolescentes ou de acesso provável por eles e estabelece regras relacionadas a gerenciamento de riscos, privacidade, supervisão parental e proteção contra uso excessivo.

A legislação acrescenta uma nova camada à proteção infantil no ambiente digital. Não importa apenas o conteúdo que uma criança encontra na tela. Passa a importar também como a tecnologia conversa com ela, como sustenta essa interação e que tipo de vínculo pode estimular.

Essa mudança, agora incorporada às regras brasileiras, já vinha aparecendo nas tecnologias e pesquisas acompanhadas pela MIT Technology Review Brasil. Os estudos sobre vínculo emocional com chatbots, a expansão dos companheiros digitais e a chegada de sistemas conversacionais aos brinquedos infantis, que publicamos por aqui, formavam um mapa antecipado de um problema que agora entra explicitamente na regulamentação.

Os sinais de que a relação já estava mudando

Em “A OpenAI divulga primeira pesquisa sobre como o uso do ChatGPT afeta o bem-estar emocional das pessoas“, a MIT Technology Review acompanhou as primeiras pesquisas da OpenAI e do MIT Media Lab sobre os efeitos sociais e emocionais do uso do ChatGPT. Um dos trabalhos analisou quase 40 milhões de interações na plataforma e combinou os dados com pesquisas realizadas com usuários.

Em paralelo, o MIT Media Lab conduziu um experimento controlado de quatro semanas com 981 participantes para observar indicadores como solidão, interação social com outras pessoas, dependência emocional do chatbot e uso problemático. Os estudos foram realizados com adultos e não incluíram participantes menores de 18 anos.

Os resultados não sustentavam uma relação simples de causa e efeito entre conversar com um chatbot e apresentar piores indicadores de bem-estar. O envolvimento emocional era raro no conjunto das interações analisadas. No experimento controlado, porém, participantes que espontaneamente usaram mais o chatbot apresentaram resultados piores em alguns dos indicadores avaliados, e características individuais, como maior confiança e atração social pelo sistema, apareceram associadas a maior dependência emocional e uso problemático.

A segunda peça apareceu em “Os companheiros de IA são o estágio final da dependência digital, e os legisladores estão tomando providências”. A reportagem acompanhava produtos desenhados para ocupar o lugar de interlocutores. Diferentemente das redes sociais, nas quais algoritmos organizam principalmente conteúdos produzidos por outras pessoas, companheiros de Inteligência Artificial podem conversar diretamente com o usuário, adaptar respostas, aprender preferências e sustentar interações por longos períodos.

Desde então, algumas empresas passaram a restringir diretamente esse tipo de interação para menores. Em outubro de 2025, a Character.AI anunciou que retiraria de usuários com menos de 18 anos o acesso a conversas abertas com seus personagens, mudança que começou a ser implementada no mês seguinte. Em setembro de 2026, a empresa informou que a restrição permanecia em vigor e que sua experiência para adolescentes passava a combinar outros formatos de interação com mecanismos de aferição de idade e supervisão parental.”

Essa diferença muda também o problema da atenção. A plataforma não precisa apenas escolher qual conteúdo mostrar em seguida. O próprio sistema pode continuar a conversa. O decreto brasileiro trata exatamente dessa dimensão ao definir como problemáticas arquiteturas de escolha, fluxos de interação e funcionalidades que explorem vulnerabilidades cognitivas ou relacionadas à idade. O texto cita pressões emocionais, urgências fabricadas, inferências emocionais e estímulos inadequados à idade entre as práticas capazes de interferir na autonomia do usuário.

O terceiro sinal foi explicitamente atrativo para as crianças. Na matéria “Brinquedos com IA estão em alta na China e agora começam a aparecer nas prateleiras dos EUA“, mostramos uma geração de brinquedos conectados a modelos de linguagem. Ursos de pelúcia e dispositivos acoplados a esses objetos começaram a conversar, contar histórias e assumir personagens. Uma das empresas acompanhadas, a FoloToy, já vendia seus produtos em mais de dez países, incluindo o Brasil. E a trajetória da companhia também ganhou um novo capítulo depois da matéria.

Em novembro de 2025, testes do U.S. PIRG Education Fund identificaram falhas nas salvaguardas de brinquedos conversacionais, incluindo o urso Kumma, produzido pela empresa. Após a divulgação dos resultados, a FoloToy informou ter suspendido temporariamente as vendas do produto para realizar uma revisão interna, reforçar mecanismos de moderação e atualizar proteções destinadas a crianças. A comercialização foi retomada gradualmente depois dessas mudanças. O episódio mostrou, na prática, que incorporar um modelo de linguagem a um brinquedo infantil também transfere para o fabricante decisões sobre limites de conversa, moderação e comportamento do sistema.

A mudança de interface importa, por abrir uma janela de oportunidade poderosa. A criança não precisa decidir abrir um aplicativo identificado como ferramenta de Inteligência Artificial para encontrar um sistema conversacional. A interação pode começar simplesmente quando ela resolve brincar.

A confirmação chega em 2026

As reportagens acompanhavam fenômenos diferentes: efeitos psicossociais do uso prolongado de chatbots, produtos construídos para simular companhia e sistemas conversacionais incorporados a objetos infantis.

Hoje, o ECA Digital enxerga e aproxima essas frentes. Ao mencionar explicitamente modelos de linguagem e agentes conversacionais, a regulamentação brasileira reconhece que o risco pode estar tanto no conteúdo produzido quanto na dinâmica da interação. Transparência, desenho do produto, manipulação comportamental e desenvolvimento psicossocial passam a fazer parte da mesma discussão regulatória.

A aplicação dessas regras também começou a alcançar serviços concretos. Em agosto de 2026, a ANPD iniciou ações de monitoramento de plataformas digitais, lojas de aplicativos e ferramentas de Inteligência Artificial generativa. Um dos processos inclui serviços como ChatGPT, Claude, Gemini, Copilot, DeepSeek, Meta AI e Perplexity. Segundo a Agência, o objetivo é verificar a adoção de medidas relacionadas às obrigações do ECA Digital e à regulamentação do Marco Civil da Internet.

No mês seguinte, outra obrigação prevista no ECA Digital chegou ao primeiro marco de cumprimento. No dia 17, terminou o prazo para que provedores de aplicações de internet direcionados a crianças e adolescentes, ou de acesso provável por eles, com mais de um milhão de usuários menores de 18 anos registrados no Brasil, publicassem seu primeiro relatório semestral de transparência. Segundo a ANPD, os documentos devem informar, entre outros pontos, medidas de proteção de dados, identificação de contas infantis e os métodos e resultados utilizados para avaliar e gerenciar riscos à segurança e à saúde.

O relatório não determina sozinho se uma conversa entre criança e máquina é segura. Mas obriga empresas de grande porte a exporem parte do processo usado para identificar e administrar esses riscos.

Quem responde pela relação?

O desenho legal brasileiro distribui responsabilidades. Pais e responsáveis recebem ferramentas de supervisão. A ANPD regula e fiscaliza. As empresas, por sua vez, passam a ter obrigações relacionadas ao próprio funcionamento do produto.

Essa divisão importa porque a supervisão parental ocorre depois de muitas decisões de projeto. Antes que uma criança converse com um sistema, alguém definiu como ele responderá, quais informações utilizará para personalizar a interação, como reagirá a situações sensíveis e quais mecanismos poderão prolongar a conversa.

Quando o usuário é uma criança, essas escolhas também passam a ser decisões de proteção infantil. Isso não significa que uma conversa com Inteligência Artificial seja necessariamente prejudicial. As pesquisas disponíveis ainda são limitadas, e os estudos sobre uso emocional acompanhados em 2025 foram realizados com adultos. Eles próprios recomendam cautela ao extrapolar os resultados.

O que mudou foi o objeto da pergunta. Durante anos, boa parte da segurança digital infantil esteve concentrada no que crianças poderiam acessar, em quais dados poderiam ser coletados e em quem poderia entrar em contato com elas. Sistemas conversacionais acrescentam outra variável: a própria tecnologia pode ocupar o lugar de quem conversa.

Ao longo de 2025, a MIT Technology Review Brasil acompanhou partes dessa mudança em pesquisas sobre vínculo emocional, companheiros digitais e brinquedos conversacionais. Em 2026, essas questões apareceram reunidas na regulamentação brasileira. Quando uma máquina conversa com uma criança, a segurança não depende apenas da frase que aparece na tela. Depende também da relação que o sistema foi projetado para construir.

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