À medida que o conflito entre Estados Unidos e Irã continua a engolir o Oriente Médio, com o acesso ao Estreito de Ormuz em disputa, um dos efeitos econômicos globais mais visíveis tem sido a alta dos preços dos combustíveis fósseis. Em particular, não dá para escapar das notícias sobre o preço da gasolina, que chegou a ultrapassar uma média de quatro dólares (cerca de 20 reais) por galão no país, o nível mais alto desde 2022.
Mas, olhando para a frente, outras consequências para a economia global podem estar se aproximando nos plásticos. Eles são feitos com o uso de petroquímicos, e os impactos na cadeia de suprimentos do gargalo do petróleo perto do Irã estão começando a se acumular.
A produção do material responde por cerca de 5% das emissões globais de dióxido de carbono hoje. E o nosso momento atual mostra o quanto os produtos de petróleo e gás estão entranhados em nossas vidas. Isso vai muito além de seu uso para energia.
Enquanto escrevo isto, estou vestindo roupas que contêm fibras plásticas, digitando em um teclado de plástico e olhando através das lentes plásticas dos meus óculos. É difícil imaginar como é o nosso mundo sem o material. E, de certa forma, afastar-se do plástico derivado de combustíveis fósseis pode se mostrar ainda mais complicado do que descarbonizar nosso sistema de energia.
Os preços do petróleo bruto têm estado em uma montanha-russa nas últimas semanas, e os preços recentemente ultrapassaram 100 dólares (cerca de 515 reais) por barril.
Ele contém uma enorme variedade de hidrocarbonetos, e normalmente é refinado ao ser submetido a uma unidade de destilação que separa a matéria-prima em diferentes frações de acordo com seu ponto de ebulição. Essas frações então passam por processamento adicional para se transformarem em tudo, de combustível de aviação a ligante asfáltico. Já vimos os picos de preço de alguns materiais extraídos do petróleo bruto, como gasolina e combustível de aviação.
Vamos focar em outro componente, a nafta. Ela pode ser adicionada à gasolina e ao combustível de aviação para melhorar o desempenho. Também pode ser usada como solvente ou como matéria-prima para fabricar plásticos.
Atualmente, o Oriente Médio responde por cerca de 20% da produção global de nafta e fornece cerca de 40% do mercado na Ásia, onde os preços já subiram 50% no último mês.
Já estamos começando a ver esses efeitos chegarem à ponta. O preço do polipropileno, que é feito de nafta e usado em recipientes para alimentos, tampas de garrafa e até peças automotivas, está subindo, especialmente na Ásia.
Normalmente, os fabricantes mantêm um pequeno estoque acumulado, mas ele será esgotado em breve, provavelmente nas próximas semanas. O maior fornecedor de garrafas de água da Índia anunciou recentemente que elevará os preços em 11% depois que seus custos de embalagem subiram mais de 70%, segundo reportagem da Reuters. Os brinquedos podem ficar mais caros, à medida que os fabricantes enfrentam preocupações com a cadeia de suprimentos.
Os estadunidenses provavelmente sentirão esses efeitos em cadeia de forma especialmente intensa se as interrupções continuarem. O consumidor médio usou mais de 250 quilos de plásticos novos em 2019, segundo um relatório de 2022 da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. É um número enorme. A média global é de apenas 60 quilos.
Os efeitos dos preços mais altos, tanto para combustíveis quanto para matérias-primas, podem se somar e se multiplicar, e as alternativas não estão amplamente disponíveis. Plásticos de base biológica feitos com materiais como açúcares de plantas existem, mas ainda representam uma parcela ínfima do mercado. Em 2025, a produção global de plásticos totalizou mais de 431 milhões de toneladas métricas por ano. As versões de base biológica e biodegradáveis representaram cerca de 0,5% desse total, uma participação que pode chegar a 1% até 2030.
Eles são muito mais caros do que seus equivalentes derivados de combustíveis fósseis. E muitos são feitos com matérias-primas agrícolas, portanto ampliá-los demais pode ser prejudicial para o meio ambiente e pode competir com outras indústrias, como a produção de alimentos.
A reciclagem também não é uma resposta simples. O método mecânico é o padrão atual usado para materiais como os plásticos, que compõem garrafas de água e copos descartáveis de café. Mas isso degrada os materiais ao longo do tempo, de modo que não podem ser usados indefinidamente. A reciclagem química tem seu próprio conjunto de problemas, as instalações que a realizam podem ser altamente poluentes, e hoje os plásticos que entram em plantas de reciclagem avançada, em grande parte, não se transformam de fato em novos plásticos.
Tem havido muita discussão nas últimas semanas sobre como essa crise energética vai empurrar o mundo mais na direção da energia renovável. Painéis solares, veículos elétricos e baterias podem de repente se tornar mais atraentes à medida que enfrentamos as consequências drásticas de uma interrupção no fornecimento global de combustíveis fósseis.
Mas, quando se trata de plástico, o futuro parece muito mais complicado. Mesmo que a indústria esteja enfrentando praticamente as mesmas interrupções que o setor de energia, não existem as mesmas alternativas evidentes disponíveis para uma transição. Nossas vidas estão atreladas ao material, com usos que vão do essencial, como equipamentos médicos, ao trivial, como meu copo de café para viagem. Em breve, nossa economia pode sentir os efeitos do quanto dependemos dos plásticos derivados de combustíveis fósseis e de quão difícil será substituí-los.





