Os pintinhos se mexiam e começavam a bicar a casca, ou tentavam eclodir, mas não de um ovo.
Em vez disso, esses filhotes estavam se desenvolvendo dentro de copos plásticos transparentes, impressos em 3D, na sede da Colossal Biosciences, em Dallas, no estado norte-americano do Texas.
A empresa de biotecnologia afirmou hoje que desenvolveu um “ovo totalmente artificial” como parte de seu esforço para ressuscitar espécies extintas de aves, como o dodô e o moa-gigante.
Mas “casca de ovo artificial” provavelmente seria uma descrição melhor para a invenção. Trata-se de uma malha impressa em formato oval, revestida internamente com uma membrana especial à base de silicone que deixa o oxigênio entrar, assim como uma casca de ovo real faz.
Para gerar aves, a Colossal pegou ovos de galinha recém-postos e cuidadosamente despejou o conteúdo nas cascas artificiais, onde continuaram a se desenvolver. Uma janela no topo permite que os pesquisadores observem o interior.
“Ver todos eles se mexendo dentro de seus ovos artificiais foi absolutamente alucinante”, diz Andrew Pask, diretor científico da empresa. “Você realmente sente que pode criar vida fora do útero.”
A Colossal foi fundada em 2021 com planos de usar edição genética e tecnologia reprodutiva para restaurar espécies extintas, incluindo o mamute-lanoso. Desde então, arrecadou 620 milhões para o que, agora, chamam de criação “escalável e controlável” de animais.
De acordo com Pask, a tecnologia do ovo poderia ajudar a conservar espécies de aves em risco. Ela também poderia ser usada em um projeto para recriar o extinto moa gigante, uma ave não voadora de mais de três metros de altura que viveu na Nova Zelândia e botava ovos de quatro litros, maiores do que os de qualquer ave viva.
Talvez a Colossal consiga construir um grande o suficiente. A empresa forneceu uma fotografia de um protótipo de ovo impresso em 3D tão grande que os funcionários começaram a chamá-lo de “secador de salada”.
O moa foi extinto depois que os ancestrais dos maoris chegaram à Ilha do Sul da Nova Zelândia, cerca de 750 anos atrás. Sítios arqueológicos exibem os ossos das aves ao lado de ferramentas de corte de pedra, uma evidência clara de que foram caçadas.
Para deixar claro, a Colossal não está perto de recriar o moa. Antes que isso pudesse acontecer, os cientistas precisariam estudar dados de DNA de ossos antigos de moa e inserir milhares de alterações genéticas no genoma de uma ave existente, algo que ainda é tecnicamente difícil de fazer, com ou sem um ovo artificial.
Alguns cientistas também acham que a Colossal está reivindicando crédito demais pela casca de ovo artificial. A empresa anunciou em um vídeo estrondoso no YouTube, entoando que resolveu a “questão impossível de qual veio primeiro: a galinha ou o ovo”.
O vídeo é puro Hollywood. Foi feito para ser engraçado e empolgante. Mas a Colossal tem o hábito de antagonizar cientistas ao fazer afirmações falsas e exageradas. No ano passado, por exemplo, a empresa disse que havia recriado o extinto lobo-terrível, uma alegação amplamente rejeitada por especialistas.
Desta vez, a afirmação exagerada da Colossal de ter criado o “primeiro sistema de incubação sem casca da história” é o que está levantando suspeitas entre o pequeno grupo de cientistas que vêm trabalhando na tecnologia há anos.
“Claramente um exagero”, diz Katsuya Obara, da Universidade de Tsukuba, no Japão, que em 2024 chocou galinhas sob um filme plástico transparente. “A tecnologia aqui é essencialmente uma modificação de métodos existentes.”
Na verdade, observa Obara, cultivar aves em recipientes artificiais remonta a 1998, quando outro grupo japonês conseguiu fazer isso com codornas.
O que pode ser um avanço da Colossal é a membrana especial, que permite ao embrião acessar mais oxigênio. Sistemas anteriores exigiam que os cientistas suplementassem o gás, algo que pode não ter sido bom para os pintinhos, já que frequentemente alguns deles não conseguiam eclodir.
O trabalho na casca de ovo artificial foi realizado em Dallas pela equipe de desenvolvimento exógeno da Colossal, ou Exo Dev. Esse grupo também está tentando desenvolver úteros artificiais para mamíferos, começando por marsupiais.
“Estamos olhando para cada aspecto do que acontece durante uma gestação de mamíferos para analisar detalhadamente como passamos a recapitular isso”, diz Pask.
Para essa equipe, uma casca de ovo artificial é uma vitória técnica relativamente rápida e fácil. Isso porque galinhas já são um exemplo de desenvolvimento fora do útero. Depois que um ovo é posto, um pequeno embrião, localizado sobre a gema, começa a crescer, extraindo nutrientes dela, da clara e até da casca, que fornece cálcio. A Colossal diz que precisa adicionar cálcio moído aos ovos artificiais.
Para criar um moa, a Colossal terá de alterar geneticamente outro tipo de ave, mudando potencialmente milhares de letras de DNA. Mas, até agora, as galinhas são a única espécie de ave que pode ser geneticamente modificada. E isso ocorre por meio de um processo complicado de edição de células-tronco que produzem óvulos e espermatozoides. Os cientistas precisam adicionar ou remover letras de DNA dessas células e, depois, injetá-las de volta em um ovo. A ave resultante carregará as alterações genéticas em suas glândulas sexuais e, então, poderá transmiti-las.
Pask diz que a ideia da Colossal é que ela poderia modificar células-tronco aviárias o suficiente para produzir espermatozoides ou óvulos semelhantes aos de moa. Então, poderia ter a situação estranha de uma galinha botando um ovo com um embrião de moa dentro. “Você teria galinhas fazendo óvulo de moa e espermatozoide de moa. Mas ainda é um ovo de galinha”, diz ele.
Helen Sang, professora emérita do Instituto Roslin, no Reino Unido, diz que não tem certeza de que um embrião de moa conseguiria sobreviver com a gema de um ovo de galinha, dadas as diferenças evolutivas. “Há desafios significativos a superar para desenvolver o embrião de uma espécie diferente em ovos artificiais”, diz Sang.
Apenas um desses desafios é a enorme discrepância de tamanho. A quantidade de gema em um ovo de galinha dificilmente seria suficiente para sustentar o filhote de moa, que é muito maior. Ainda assim, Pask diz que é exatamente aí que o ovo artificial será útil.
Ele afirma que pode ser possível usar uma agulha fina para, aos poucos, “juntar 50 gemas e tornar essa massa de gema muito maior”.
“O ovo de galinha não vai ser grande o suficiente para sustentar o crescimento do moa até o momento em que normalmente eclodiria, mas é quando você poderia pegar esse ovo, colocá-lo no ambiente do ovo artificial e ampliá-lo em tamanho”, diz ele.
Até agora, diz Pask, o ovo artificial está funcionando bem para galinhas, quase bem demais. “Eclodimos 26 galinhas e, então, nosso CEO nos pediu para pisar no freio. Temos galinhas demais correndo por aí.”



