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Tem sido difícil desviar os olhos das manchetes sobre a onda de calor na Europa. As temperaturas estão batendo recordes em todo o continente, e o clima está ameaçando vidas, fechando escolas e, em um caso particularmente irônico, forçando o cancelamento de um evento da London Climate Week (a semana de clima de Londres) sobre calor extremo.
À medida que o verão europeu se intensifica e vemos esse tipo de clima avançar pelo Hemisfério Norte, estou sempre de olho na rede elétrica. E uma atualização notável que chamou minha atenção foi a notícia de que uma usina nuclear no sul da França teve de ser fechada por causa do calor.
A mudança climática está pressionando a rede elétrica por todos os lados, afetando tanto a oferta quanto a demanda. O calor pode afetar a disponibilidade de energia, da geração à infraestrutura de transmissão, como abordei na minha matéria mais recente. Mas a mudança climática também está ajudando a elevar o uso de eletricidade, e os países da Europa e do mundo precisarão se adaptar.
Nos EUA, quase 90% das residências têm aparelhos de ar-condicionado. Isso significa que muitas redes elétricas registram sua maior demanda nos meses de verão, quando o risco de reduções de tensão e apagões é mais elevado.
As pessoas costumam ser rápidas em apontá-lo como vilão, e é verdade que a tecnologia responderá por uma parcela significativa do aumento da demanda global por energia no futuro. Mas a realidade é que ondas de calor podem ser incrivelmente perigosas e, à medida que a mudança climática eleva as temperaturas, esse risco se torna mais real em partes do mundo que historicamente não precisavam se preocupar tanto com o calor.
Na Europa, o condicionador de ar é historicamente muito menos comum, com cerca de 20% das residências em todo o continente usando o equipamento. Alguns países, incluindo aqueles atingidos por esta onda de calor, têm taxas ainda menores, o Reino Unido fica em cerca de 5%, e a Alemanha, em torno de 3%.
Mas esses números começam a subir quando as pessoas se adaptam a verões cada vez mais brutais. À medida que isso acontece, devemos esperar maior demanda por eletricidade e mais pressão sobre a rede elétrica, assim como nos EUA. E as concessionárias muitas vezes precisam buscar energia além das fronteiras para comprar mais eletricidade, elevando os preços para todos.
“A principal pressão vem de um aperto triplo: a demanda por resfriamento aumenta drasticamente, enquanto as usinas e redes elétricas se tornam menos eficientes, e algumas usinas térmicas e nucleares precisam reduzir a produção porque a água de resfriamento está quente demais ou escassa”, diz Simone Tagliapietra, pesquisador sênior do Bruegel, um think tank de economia e políticas públicas, por e-mail.
O planejamento da rede elétrica na era da mudança climática geralmente significa que precisamos de muito mais oferta, e rapidamente. Mas uma faceta interessante desse desafio é que, em alguns lugares, os padrões sazonais estão mudando, aumentando a dificuldade de atender à demanda.
Em geral, os operadores da rede elétrica planejam manutenções e paralisações em usinas com base nos picos esperados de demanda. Tome a energia nuclear como exemplo. Nos EUA, as paralisações programadas para manutenção e reabastecimento tendem a ocorrer na primavera e no outono, quando a demanda fica abaixo dos picos do verão e dos picos um pouco menores do inverno.
A Europa, no entanto, historicamente registra o pico de sua rede no inverno, porque o aquecimento elétrico é mais comum do que o ar-condicionado. Por isso, algumas paralisações programadas acontecem na primavera e se estendem para o verão, o que está afetando a oferta neste momento.
Na usina de Golfech, perto de Toulouse, na França, por exemplo, a unidade 2 teve de ser desligada semana passada por causa das temperaturas da água no rio próximo, que é usado para resfriar o reator. Mas a unidade 1 já estava fora de operação por causa de manutenção programada e reabastecimento, segundo a EDF, operadora da usina.
Continuaremos a ver temperaturas recordes ao redor do mundo por causa da mudança climática. As comunidades estão se adaptando, e as concessionárias de energia terão de acompanhar. E, se você achou este verão europeu quente, espere até o ano que vem. Com o padrão climático El Niño, 2027 pode muito bem superar em muito essas ondas de calor.





