O silêncio depois do parto: como a tecnologia pode ajudar a enxergar a depressão que quase ninguém vê
Biotech and Health

O silêncio depois do parto: como a tecnologia pode ajudar a enxergar a depressão que quase ninguém vê

IA, plataformas digitais e novos modelos de acompanhamento prometem transformar o rastreamento da depressão pós-parto. O maior desafio é garantir que nenhuma mulher deixe de receber ajuda quando mais precisa.

Quando a filha Luna nasceu prematura, com sete meses de gestação, e passou 40 dias internada na UTI neonatal, a empreendedora Roberta Simões imaginou que o pior já tinha ficado para trás. Mas em casa, tarefas simples como trocar uma fralda, preparar uma mamadeira e ir ao mercado passaram a exigir um esforço que ela não reconhecia em si mesma. O obstetra atribuiu o quadro a cansaço, privação de sono e hormônios. Prescreveu vitaminas e repouso. Não funcionou. Quando Luna completou oito meses, Roberta já não conseguia mais sair da cama. “Eu dizia ao meu marido que sentia como se eu não fosse mais eu”, lembra. O diagnóstico de depressão pós-parto só veio depois da insistência de amigos e familiares, seguido de oito meses de antidepressivos e psicoterapia até ela se recuperar.

A experiência de Roberta está longe de ser rara. Estudos brasileiros e a própria Organização Mundial da Saúde apontam uma prevalência média de 13% no primeiro ano pós-parto, chegando a 20% em países de baixa renda. Pesquisas que usam a Escala de Edimburgo — mais sensível a sintomas leves — encontram números ainda maiores, próximos de uma em cada quatro mulheres. A diferença, segundo os especialistas ouvidos nesta reportagem, é sobretudo metodológica: varia o instrumento de triagem, o critério diagnóstico e o contexto socioeconômico. Mas o número exato importa menos do que um consenso compartilhado por todos eles: a maior parte dessas mulheres não é identificada a tempo. E isso significa dor, perda de produtividade e pior: riscos para a mãe e para o bebê, algo negligenciado pela maioria dos profissionais de saúde que têm contato com mulheres que dão à luz.

Um diagnóstico que chega tarde demais

Segundo o psiquiatra Joel Rennó, diretor do Programa de Saúde Mental da Mulher do Instituto de Psiquiatria da USP (ProMulher), cerca de 60% dos casos de depressão pós-parto começam ainda durante a gestação, mas os primeiros sinais costumam ser confundidos com o que se considera natural da gravidez: fadiga, insegurança, alterações do sono, medo do futuro. “A consulta de pré-natal é excelente para monitorar pressão arterial, diabetes gestacional e crescimento fetal”, observa. “Mas a dimensão emocional acaba negligenciada, não por preconceito, e sim porque falta tempo ou preparo para investigar.”

Entre os fatores de risco mais bem estabelecidos estão episódios prévios de depressão ou ansiedade, histórico familiar de transtornos mentais, conflitos conjugais, gravidez não planejada, violência obstétrica ou doméstica, dificuldades financeiras e ausência de rede de apoio. “Se o profissional estiver disposto a perguntar e, principalmente, a ouvir, consegue identificar boa parte dessas mulheres ainda durante a gestação”, afirma o obstetra Elias Ferreira de Melo Jr., do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (HC-UFPE) e membro da comissão da Febrasgo responsável pelo protocolo nacional de depressão pós-parto.

O atraso no diagnóstico tem consequências que vão além da mãe. Segundo o psiquiatra Amaury Cantilino, doutor em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento, dificuldades persistentes na interação entre mãe e bebê nos primeiros meses, que é o período de intensa reorganização neural, podem aumentar a vulnerabilidade da criança a problemas emocionais e cognitivos no futuro. Nos quadros mais graves, a doença não tratada figura entre as principais causas de morte materna por suicídio no primeiro ano pós-parto.

Paradoxalmente, os instrumentos para rastrear boa parte desses casos existem há décadas. A Escala de Depressão Pós-Natal de Edimburgo (EPDS) e a Postpartum Depression Screening Scale (PDSS) — esta última validada no Brasil pelo próprio Cantilino — são questionários simples, curtos e amplamente estudados. Na Austrália, por exemplo, a aplicação já é rotina regulamentada no pré-natal. No Brasil, apesar de recomendadas pelo Ministério da Saúde, essas escalas seguem subutilizadas, dependendo da iniciativa de serviços ou profissionais isolados.

Tecnologia como porta de entrada, não como diagnóstico

É nesse vazio — entre o conhecimento disponível e a dificuldade de aplicá-lo — que uma nova geração de ferramentas digitais desperta o interesse de médicos e empreendedores. Nenhum dos especialistas ouvidos nesta reportagem acredita que um algoritmo, sozinho, será capaz de diagnosticar depressão pós-parto ou decidir um tratamento. O consenso é outro: a tecnologia pode atacar a maior fragilidade da assistência materna atual, que é o desaparecimento da mulher do sistema de saúde logo após o parto.

“Hoje o maior problema não é desenvolver um algoritmo que descubra quem está deprimida”, afirma o empreendedor Thiago Lima, criador de uma plataforma de acompanhamento materno-infantil. “O problema é que essa mulher desaparece entre o obstetra e o pediatra.” Durante a gestação, as consultas são frequentes; depois do parto, o foco migra quase inteiramente para o recém-nascido. A aposta de iniciativas como aplicativos e startups voltadas ao tema é manter um vínculo contínuo com a mulher desde o primeiro ultrassom até o puerpério — usando conteúdo personalizado e engajamento emocional como porta de entrada para, no momento certo, aplicar escalas de triagem já validadas.

O obstetra Elias Ferreira de Melo Jr. imagina um fluxo semelhante: um chatbot, acessível por WhatsApp, faria perguntas. Identificado o risco, a paciente seria encaminhada a um profissional treinado, capaz de confirmar a necessidade de atendimento especializado. “O problema não é criar uma ferramenta de diagnóstico”, resume. “É conseguir identificar essas mulheres e levá-las rapidamente para quem possa ajudá-las.”

Joel Rennó vê nesse tipo de estratificação de risco um dos usos mais promissores da IA em psiquiatria perinatal. Embora ainda não existam biomarcadores específicos para a doença, já é possível cruzar dados clínicos, psicológicos e sociais para apontar as mulheres mais vulneráveis — e agir antes que o quadro se agrave, com ações psicoeducativas, grupos de apoio ou encaminhamento precoce.

O que a tecnologia sozinha não resolve

Para a psicóloga perinatal Adriana Navarro, a prevenção deveria começar antes mesmo dos primeiros sintomas. O chamado pré-natal psicológico — modelo que ela desenvolveu em sua tese de doutorado — trabalha fatores de proteção, expectativas em relação à maternidade e construção de rede de apoio ainda durante a gestação. “Se conseguimos identificar precocemente quem apresenta maior vulnerabilidade, podemos atuar antes que o quadro se instale”, afirma.

Mas nenhuma solução digital resolve sozinha uma pergunta anterior: quem, de fato, vai ter acesso a ela. Joel Rennó lembra que a desigualdade de acesso à saúde mental não é exclusiva de quem depende do SUS. “Atendo no consultório médicas, filhas de médicos, com quatro meses de um quadro que ninguém percebeu”, afirma. Além disso, nem toda gestante tem smartphone com internet estável e nem todo serviço público de pré-natal tem estrutura para incorporar ferramentas digitais de triagem à rotina.

Roberta, a personagem do início desta reportagem, costuma pensar nisso quando olha para trás. Hoje recuperada, acredita que teria aderido a qualquer ferramenta que a ajudasse a entender o que estava acontecendo com ela. Mas, acima de tudo, gostaria que alguém tivesse percebido mais cedo que aquilo não era apenas exaustão. “Eu não queria desistir da vida”, lembra. “Eu só queria voltar a ser quem eu era.”

Talvez seja esse o maior potencial da inovação na saúde materna: não criar máquinas capazes de diagnosticar emoções, mas garantir que nenhuma mulher precise esperar meses até descobrir que seu sofrimento tinha nome, tratamento e, principalmente, que ela não precisava enfrentá-lo sozinha.

Último vídeo

Nossos tópicos