O código deve continuar: como um bootcamp de programação afegão atua como uma boia salva-vidas sob o domínio do Talibã
Computação

O código deve continuar: como um bootcamp de programação afegão atua como uma boia salva-vidas sob o domínio do Talibã

No Afeganistão, o empreendedorismo tecnológico já foi promovido como um elemento de construção da paz. Agora, os jovens programadores se perguntam se devem ficar ou ir embora.

Quatro meses depois que o governo afegão caiu nas mãos do Talibã, Asad Asadullah, de 22 anos, estabeleceu uma nova rotina.

Em sua cidade natal, na província de Samangan, no norte do Afeganistão, o ex-aluno de ciência da computação começava e terminava cada dia colado na tela de seu laptop.

Desde o final de outubro, Asadullah participava de um bootcamp virtual de programação organizado pela CodeWeekend, uma comunidade de entusiastas de tecnologia afegãos administrada por voluntários, com conteúdo fornecido gratuitamente pela Scrimba, uma empresa norueguesa que oferece workshops de programação online.

Em alguns dias, Asadullah dava uma pausa da tela para jogar um pouco de futebol, mas geralmente ele não via mais seus amigos tanto assim. Sob o regime talibã, “velhos amigos estão ficando muito deprimidos”, explica, e há um limite com o quanto consegue lidar. Em vez disso, ele me diz: “minha vida está no meu computador”.

Asadullah é um dos milhões de jovens afegãos cujas vidas e planos para o futuro viraram de cabeça para baixo quando o Talibã retomou o Afeganistão em agosto do ano passado. Quando a capital sucumbiu, Asadullah tinha dois semestres de faculdade pela frente e estava pensando em seus planos de pós-graduação. Ele não era exigente quanto ao seu primeiro emprego; qualquer coisa que o permitisse juntar algum dinheiro serviria. Mas ele tinha planos maiores: Asadullah queria iniciar sua própria empresa de software e compartilhar seu amor pela ciência da computação ensinando estudantes universitários e do ensino médio. “Quando começo a programar, consigo esquecer de tudo”, diz ele.

Atualmente, esses planos estão em pausa, e ninguém sabe por quanto tempo. A economia do país está em queda livre, as Nações Unidas alertam para a miséria e, enquanto isso, os novos governantes do Afeganistão oferecem poucas soluções para seus cidadãos.

Em circunstâncias tão terríveis, um bootcamp de programação, um resquício de um breve período de otimismo tecnológico no Afeganistão, pode parecer deslocado. Mas para seus participantes, oferece esperança de um futuro melhor, embora ainda não se saiba se tal futuro ainda é possível no Afeganistão.

Aprendizagem virtual

Quando o Talibã assumiu o poder em agosto, não estava claro quais eram os planos do governo para a Internet no Afeganistão. Eles cortariam o acesso à Internet? Usariam postagens de rede social, ou bancos de dados do governo, para identificar e atacar seus antigos inimigos? Continuariam a fazer suas próprias campanhas de relações públicas cada vez mais eficazes?

Como se revelou, o Talibã não cortou o acesso à Internet, pelo menos ainda não. Em vez disso, para os estudantes afegãos que podem pagar pela internet em casa, especialmente mulheres e meninas, que foram oficialmente banidas do ensino médio e superior pelo regime, a aprendizagem virtual se tornou uma das principais fontes de educação.

Parte desse movimento é bem organizado, com salas de aula virtuais criptografadas criadas por apoiadores internacionais, enquanto outros são totalmente autodirigidos, aprendendo por meio de vídeos do YouTube, por exemplo, ou listas de reprodução de palestras do TED. Muitas vezes, é algo intermediário, usando as plataformas de aprendizado on-line gratuitas ou que oferecem desconto.

Mulheres afegãs participam de um evento de 2018. Foto cortesia de CodeWeekend.

O bootcamp virtual do CodeWeekend se enquadra nesta última categoria. Setenta e cinco participantes foram aceitos no grupo e estão trabalhando no Frontend Developer Career Path do Scrimba, uma série de 13 módulos interativos de aprendizado em vídeo que cobrem tudo, desde o básico de HTML e CSS até dicas de como lidar com perguntas de entrevista de emprego sobre JavaScript ou GitHub.

Os participantes podem concluir os módulos em seu próprio tempo e em suas próprias casas, com mentores do CodeWeekend que se voluntariam semanalmente para responder suas perguntas, garantir que permaneçam no caminho certo e ajudar com a logística conforme necessário, incluindo o fornecimento de internet de reforço para manter os jovens online. Segundo os organizadores, cerca de 50 membros do grupo original estão ativos.

Garantir a conectividade com a Internet é apenas um dos desafios logísticos e financeiros de administrar um bootcamp, mesmo que virtual, no Afeganistão. Outro, é lidar com quedas de energia, que se tornam mais frequentes a cada inverno. Em uma tentativa de resolver esses dois problemas, a CodeWeekend vem tentando financiar os custos de crédito 3G e eletricidade de backup por meio de geradores e unidades de armazenamento de bateria.

Mas há outra questão que preocupa os organizadores: “o que o Talibã pensa”, diz Jamshid Hashimi, o engenheiro de software que iniciou o CodeWeekend com amigos sete anos atrás. O grupo não quer descobrir. “Até agora, evitamos interações com eles”, diz ele.

De certa forma, o formato virtual e assíncrono do bootcamp ajuda o CodeWeekend a ficar fora do radar. Facilita muito para as mulheres (cuja liberdade de circulação foi drasticamente restringida sob a interpretação extrema do Islã pelo Talibã) sem precisar sair de casa, ou mesmo a necessidade de interagir com participantes do sexo oposto, o que também pode provocar a ira do Talibã.

Zarifa Sherzoy, 19, é uma das participantes femininas do bootcamp. Recém-formada no ensino médio, ela esperava fazer o vestibular e começar as aulas na universidade no final de 2021, mas, em vez disso, ela e seus sete irmãos passam a maior parte dos dias em casa. Entre tarefas domésticas, quedas de energia e seu acesso limitado à Internet, ela passa apenas uma ou duas horas no bootcamp de programação. Mas ainda assim, mesmo isso forneceu uma nova estrutura e significado para seus dias. “Depois da chegada do Talibã”, ela se lembra de estar “muito cansada em casa todos os dias pensando em como acabar com isso”. No entanto, desde que o bootcamp de programação começou no final de outubro, a jovem reconhece que, embora seus problemas não tenham desaparecido, “tenho bons dias”.

O formato virtual tem outra vantagem adicional: permite que programadores fora da capital afegã, como Asad Asadullah, participem.

Bootcamp da CodeWeekend

Jamshid Hashimi em um evento de 2015. Foto cortesia de CodeWeekend

Quando Jamshid Hashimi, então um arquiteto de softwares de 23 anos da empresa de tecnologia afegã Netlinks, lançou a CodeWeekend em junho de 2014 para reunir programadores afegãos, ele foi inspirado pelo otimismo tecnológico que permeava Cabul.

A Fast Company escreveu em 2012 sobre o emergente cenário de startups do país, descrevendo a esperança generalizada desta forma: “Inacreditavelmente otimistas e totalmente obcecados, os aspirantes a magnatas da tecnologia do Afeganistão acreditam que a computação não apenas os ajudará a ganhar dinheiro, mas também garantirá a paz em suas terras”.

E não eram apenas as empresas de tecnologia que estavam esperançosas. A CodeWeekend fez parte de uma série de iniciativas que visavam estimular a inovação e o empreendedorismo dos jovens e, finalmente, o compromisso e a liderança na construção de um Afeganistão mais progressista, algumas delas financiadas por doadores internacionais para esse fim.

Outros exemplos incluíram o programa TEDxKabul, que chegou a Cabul pela primeira vez em 2012, com suas “ideias que valem a pena espalhar” (o slogan TEDx), bem como outras franquias globais focadas no empreendedorismo, como o Founder Institute-Kabul, que funcionou de 2014 a 2017. (Hashimi desempenhou um papel em ambos os programas, assim como a Technology Review americana, em momentos diferentes.) Em 2016, até o Google chegou à cidade, lançando o Google for Entrepreneurs’ Startup Grind, uma comunidade para aspirantes a fundadores de startups.

Mas a CodeWeekend sobreviveu a todas essas iniciativas, mesmo depois que alguns de sua própria equipe de liderança, incluindo Hashimi, deixaram o Afeganistão. Nos sete anos desde a sua criação, o grupo liderado por voluntários realizou cerca de 100 atividades presenciais em universidades, incubadoras e escritórios das principais empresas de tecnologia afegãs. Durante a pandemia, como em grande parte do mundo, seu trabalho se tornou virtual.

Os participantes se reuniam para aprender quase tudo, desde o básico do design do WordPress e a linguagem JavaScript até as ferramentas de coleta de dados. A economia do Afeganistão, movida à ajuda, tinha um enorme apetite por pesquisas e estudos e empregou especialistas em Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). Eles ouviram apresentações de startups locais e equipes de engenharia sobre seus novos aplicativos. Eles discutiram livros populares na comunidade global de tecnologia, como The Passionate Programmer (que Hashimi apresentou). E uma vez, em um evento que durou a noite toda, entusiastas de código aberto se reuniram para transmitir Laracon Online, a conferência global do Laravel, framework PHP gratuito e de código aberto.

Então, em 2019, após vários anos desses eventos organizados principalmente nos finais de semana, a CodeWeekend decidiu ir além: lançou um bootcamp de programação presencial. O primeiro grupo teve um programa piloto de quatro meses com 15 desenvolvedores, 12 dos quais se formaram ao final. Alguns, segundo Hashimi, encontraram trabalho como resultado de sua participação neste projeto.

Elyas Afghan, 24 anos, espera ser um deles depois de concluir o bootcamp. Seus dois irmãos mais velhos também trabalham na área (um está na Rapid Iteration, a empresa Hashimi) e, em parte, como resultado da influência deles, admite Afghan, trabalhar com computadores é tudo o que ele sempre quis fazer. Mais especificamente, ele espera encontrar um emprego em uma empresa global de tecnologia.

Após o piloto bem-sucedido, os organizadores da CodeWeekend planejaram uma segunda turma, mas então a pandemia aconteceu. Então, no final de agosto do ano passado, o governo afegão entrou em colapso, mas em vez de acabar com seus planos, isso os acelerou.

“Muitos sonhos foram desfeitos com a queda do governo”, lembra Hashimi, que já havia se mudado para Vancouver, Canadá. Como muitos afegãos no exílio, ele tinha uma profunda “necessidade de fazer alguma coisa”. E o que ele decidiu, diz ele, foi continuar ajudando da maneira que ele sabia melhor: apoiar os programadores afegãos. “As pessoas precisam de esperança”, disse ele, e como os eventos anteriores focados em tecnologia ou inovação forneceram isso, ele esperava que um treinamento de codificação fizesse o mesmo.

O objetivo de Hashimi para o bootcamp é “fornecer uma maneira mais sustentável para os jovens afegãos aprenderem habilidades novas e orientadas para o mercado”, ele escreveu por e-mail, e com essas habilidades “começar a ganhar uma renda para si e suas famílias”.

Para muitos dos participantes do bootcamp, todos os quais compartilham esses objetivos, o potencial para o trabalho online pode ser sua única opção. Na família de Sherzoy, de 19 anos, apenas seu pai está empregado atualmente, e o que ele ganha dificilmente é suficiente para sustentar ela e seus seis irmãos. Após o bootcamp, ela diz que espera “ajudar minha família e fazer algo pelo meu futuro”. Ela acrescenta: “Eu não quero ser analfabeta [sem instrução]”.

Um participante da CodeWeekend trabalha em um aplicativo em um evento em 2018. Foto cedida pela CodeWeekend.

Até agora, no entanto, a maioria das oportunidades de renda vem de outros esforços de Hashimi: além da CodeWeekend, ele também administra uma empresa de desenvolvimento de software que emprega ou contrata mais de 20 programadores afegãos, a maioria dos quais ainda está no Afeganistão, bem como uma plataforma online de freelancers, Yagan Kar (que significa “algum trabalho” em dari), para freelancers afegãos.

É um ajuste aos seus planos originais pré-Talibã. Mesmo depois que Hashimi deixou o Afeganistão em 2016 para fazer um mestrado no Reino Unido em gestão da inovação, ele costumava passar três ou quatro meses em seu país de origem todos os anos, apoiando a crescente comunidade de tecnologia. “Meu sonho”, diz ele, era “ter a maior empresa de software do Afeganistão”.

De certa forma, esse ainda é seu objetivo. “Quero trazer 1.000 empregos de fora do país até 2023”, o que “ajudaria muitos freelancers, jovens e desenvolvedores, e também a economia”.

Ele diz que “todos os afegãos querem ir embora”, mas a realidade é que a grande maioria deles não pode participar dos esforços de realocação e evacuação. Eles permanecerão no Afeganistão e precisarão de novas fontes de renda. Hashimi vê a comunidade internacional de tecnologia como um potencial provedor dessa renda, por meio de trabalho remoto e freelance.

Mas tudo isso levará tempo, e o país enfrenta desafios mais urgentes.

Nenhum país reconheceu oficialmente o novo regime e, como resultado, a comunidade internacional congelou as contas bancárias do país, bem como os agendamentos de entregas de auxílio monetário. Isso colocou sua economia já precária à beira do colapso e grande parte de sua população em risco de fome.

Os desafios econômicos são exacerbados pela violência, que não parou; a ONU documentou um aumento de execuções extrajudiciais contra aliados do governo anterior, enquanto outros grupos extremistas violentos, como a afiliada local do Estado Islâmico, continuam a aterrorizar civis com ataques suicidas.

Se as coisas finalmente se estabilizarem, pensa Asad Asadullah, ex-estudante de ciência da computação e participante do bootcamp, os empregadores afegãos, incluindo talvez até o governo do Talibã, poderão um dia contratar desenvolvedores afegãos também. Afinal, diz ele, o Talibã “conhece a importância da tecnologia, pelo menos nos níveis mais altos”.

Com os maiores desafios enfrentados pelo Afeganistão, esse dia parece muito distante, “talvez daqui a três ou quatro anos”, prevê Asadullah.

Mas ele não está esperando para ver. Nos quatro dias entre nossa primeira entrevista e nossas últimas mensagens do WhatsApp confirmando os detalhes desta história, ele e sua família fugiram para o Paquistão, juntando-se aos 2,6 milhões de afegãos que vivem como refugiados fora de sua terra natal.

Asadullah planeja ficar no Paquistão até encontrar uma oportunidade de ir à Europa ou aos Estados Unidos. Enquanto isso, ele continua praticando programação no seu dia a dia quando está online.