Há três anos, a empresa de capital de risco Andreessen Horowitz apontou que a distinção entre empresas “AI-first” e as demais era clara. Em 2026, essa distinção se dilui. Exemplos como o CapCut, com centenas de milhões de usuários ativos, as novas ferramentas de IA do Canva ou o Notion, que ampliou significativamente sua receita associada à IA, mostram que a tecnologia deixou de ser diferencial e passou a ser infraestrutura. O próprio ChatGPT alcança uma escala sem precedentes, enquanto concorrentes como o Gemini crescem rapidamente. “Estamos passando de um mundo onde os desenvolvedores escrevem 100% do seu código para um onde eles escrevem 0%”, disse Matan Grinberg, cofundador da Factory, ao Financial Times.
Tecnologias centradas em IA estão reconfigurando indústrias e categorias inteiras. O que era uma funcionalidade dentro de uma plataforma virou a plataforma em si, integrando workflows, automação e personalização. Isso importa porque desloca onde o valor é criado e, consequentemente, para onde o capital tende a migrar. E a lição desse novo cenário é crucial, segundo a Andreessen Horowitz: “quanto mais um serviço de gestão de conteúdo (LLM) souber sobre você, melhores serão os resultados que ele poderá proporcionar e mais você o utilizará”.
A IA influencia fortemente a forma como trabalhamos, estudamos e aprendemos. Ela (já) seleciona o que lemos, prevê o que compramos, traduz nossos pensamentos em texto e até ajuda médicos a detectar doenças antes do surgimento dos sintomas. Ultrapassou as telas e os servidores. 2026, aliás, marca o momento em que a Inteligência Artificial confronta sua real utilidade, segundo Stanford. O debate muda da questão de se a IA importa para quão rápido seus efeitos estão se difundindo, avalia Erik Brynjolfsson , diretor do laboratório de Economia Digital da universidade.
Toda vez que a OpenAI, dona do ChatGPT, lança uma funcionalidade nova, pressiona modelos de negócios existentes e, em alguns casos, os torna obsoletos rapidamente. Sam Altman, o fundador da empresa, aponta que o próximo passo é ‘entrar com ChatGPT’ em tudo, posicionando-o como a interface principal entre consumidores e Internet. A ideia ambiciosa, mas perfeitamente plausível agora, é que ele seja o ponto de partida de compras, reservas, navegação até cuidado pessoal e saúde.
Quando a Inteligência Artificial passa a intermediar decisões em escala, do consumo ao crédito, ela não apenas reorganiza mercados, mas redefine os fluxos de capital que sustentam esses mercados. Há fortes sinais para testemunharmos a ascensão de uma nova era de ‘superaplicativos’ impulsionados por agentes de IA. Esses sistemas vão além da automação de tarefas simples e passam a coordenar processos mais complexos. Aceleram uma gama crescente e cada vez mais complexa de processos e já se tornam facilidades essenciais de eficiência, otimização, segundo relatório do BCG. A vantagem competitiva tende a migrar de quem apenas adota tecnologia para quem reconstrói sistemas inteiros a partir dessa nova lógica, defende o executivo Sangeet Paul Choudary, autor do popular Substack @plataforms.
Gerando o novo dinheiro
Essa transformação estrutural se reflete diretamente no mundo do dinheiro. A infraestrutura digital financeira avança com a expansão do dinheiro digital: ativos tokenizados, DeFi, stablecoins e criptomoedas. Segundo análise recente da Accenture sobre pagamentos internacionais, a migração planejada para carteiras digitais, provedores não-bancários e moedas digitais pode deslocar trilhões de dólares em volume transacional até 2028, indicando uma reconfiguração relevante dos sistemas de pagamento globais.
O capitalista de risco Chamath Palihapitiya observa que durante grande parte da história investir era uma questão de relacionamentos, discernimento e timing. Envolvia, sobretudo, quem você conhecia, o seu conhecimento e a convicção necessária para agir mais rapidamente do que os outros. Mas essas habilidades funcionavam porque a informação era escassa e os mercados mais lentos e centralizados. Hoje bem sabemos que o jogo virou com a abundância de dados e a aceleração dos mercados. A ascensão dos agentes de IA, a evolução da IA generativa e as conquistas do machine learning já nos mostram o que pontua Palihapitiya tão bem:
“Nenhum ser humano, por mais inteligente, experiente ou bem relacionado que seja, consegue processar manualmente esse fluxo de dados em tempo real e executar negociações com perfeita precisão”.
Avançamos para um mundo de investimentos cada vez mais mediado pela IA. Embora esse movimento ainda enfrente limitações importantes, como opacidade dos modelos, risco sistêmico, regulação financeira tradicional e dependência excessiva de automação, já passamos de um estágio inicial do investimento mediado por algoritmos. Agora estamos entrando no investimento centrado na IA. Veja só o exemplo da Alpha Arena. Essa plataforma de negociação financeira impulsionada pela IA coloca seis modelos avançados (GPT, Gemini, Claude, DeepSeek, Grok e Qwen Max) para competirem entre si na negociação de criptomoedas. O dinheiro é de verdade, mas as decisões são totalmente autônomas. A ideia da plataforma não é só medir viabilidade para uma trading em mercados dinâmicos e voláteis, mas entender limitações, desempenho, novas métricas e se esses modelos são capazes de oferecer o nível de decisão que o mundo dos investimentos hoje demanda. Não basta pensar rapidamente; é preciso sobreviver à incerteza.
Investir nunca foi tão complexo, mas também nunca foi tão acessível: quando o dinheiro digital se conecta com a IA generativa, é a hora de entender um novo mundo de possibilidades. Todo mundo, no fim, quer uma estratégia pronta e correr menos riscos. Caminhamos para novos sistemas operacionais que nos plugam a investimentos do mundo inteiro, aperfeiçoando a capacidade de entregar o portfólio que precisamos. Uma nova ordem em que o capital pode ser operado por sistemas capazes de analisar, alocar, rebalancear e executar decisões financeiras em tempo real. Integrando ativos tokenizados com infraestrutura global. Esse é um movimento que venho chamando de “dinheiro generativo”. Mais do que digital: é um “dinheiro” dinâmico, programável e adaptável.
Proteger o seu capital, minimizando os riscos, talvez agora seja um dos maiores desafios, e é claro que precisamos ver regulações e evoluções do mercado financeiro como um todo. Também precisamos falar mais sobre segurança, governança e estabilidade. E sobre acessibilidade: quem de fato vai ter acesso a essas ferramentas e como podemos transformá-las de forma mais democrática possível?
É sempre bom pensar que novas soluções exigem novas lógicas e que o blockchain está aí evoluindo para criar os contratos inteligentes de que precisamos. Eu sei que toda nova ordem carrega os convertidos, céticos e otimistas, mas gosto muito de olhar a perspectiva democrática do que se abre para nós: em termos de acesso, escala e decisões à altura do que a volatilidade atual exige. Talvez precisemos, todos nós e em alguma medida, atualizar nossos próprios modelos operacionais. Até porque se essa lógica se consolidar, o maior risco não será investir mal, será permanecer fora de um sistema em que o próprio dinheiro passou a operar sem você.
Resumo
A Inteligência Artificial não está apenas transformando como investimos, está redefinindo o que chamamos de dinheiro. Vivemos um cenário marcado por guerras, disrupções, volatilidade e mudança de poder. O capital está sendo redistribuído e todo mundo quer proteger o seu dinheiro ou patrimônio. E esse talvez seja um dos maiores paradoxos dessa nova ordem: investir nunca foi tão acessível, mas também nunca foi tão complexo. É nesse contexto que emerge o que defino como ‘dinheiro generativo’: um cenário em que o capital passa a ser programável (com decisões executadas por agentes), adaptável (portfólios dinâmicos em tempo real) e integrado à infraestrutura financeira global.



