Muita coisa é nova na Copa do Mundo da FIFA que acontece neste mês, nos Estados Unidos, no Canadá e no México. Ela reúne mais seleções do que nunca. É a primeira a ocorrer em três países-sede diferentes. E, como nas Copas anteriores, há mais de meio século, terá uma bola de futebol com um design totalmente novo.
Um grupo de pesquisadores que vem testando a física das bolas da Copa do Mundo há 20 anos estudou recentemente, essa nova versão, chamada Trionda. Fabricada pela Adidas, a Trionda tem quatro gomos vermelhos, verdes e azuis, texturizados com sulcos profundos e emblemas de folha de bordo, águia verde e estrela para representar os três países. Em experimentos em túnel de vento, a equipe descobriu que essa bola é melhor do que versões anteriores em alguns aspectos, mas chutes de longa distância talvez não cheguem tão longe quanto no passado.
“A visão simples é que a Trionda pode penalizar muito levemente distâncias extremas, mas deve recompensar uma técnica limpa e um voo previsível”, diz um integrante da equipe, John Eric Goff, que pesquisa física do esporte e será professor de prática em engenharia na Universidade Purdue, em Indiana, nos EUA. “Goleiros, defensores dando lançamentos longos e finalizadores de média e longa distância são os casos em que eu olharia primeiro para diferenças visíveis.”
A Adidas vem desenhando bolas novas para cada Copa do Mundo desde a década de 1970. Algumas mudanças de design nas primeiras décadas foram estéticas: a bola de 1986 trazia gráficos inspirados em templos astecas para o torneio do México e a de 1994 tinha gráficos espaciais em homenagem ao 25º aniversário do pouso na Lua. Houve também algumas diferenças estruturais, como núcleos de espuma aprimorados e melhor resistência à água. Mas, no geral, as bolas usavam o mesmo design de 32 gomos pentagonais costurados.
Isso mudou na Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, quando a Adidas apresentou a bola +Teamgeist. Ela tinha apenas 14 gomos curvos, unidos por colagem térmica, em vez de costurados. O design ajudava a manter a umidade do lado de fora, para que a bola não ficasse mais pesada ao longo do jogo, diz Goff. Foi mais ou menos nessa época que ele começou a estudar bolas de futebol. Desde então, ele e seus colegas acompanharam as transformações, à medida que a Adidas lançou bolas com diferentes texturas de superfície e ainda menos gomos, mudanças de design significativas o bastante para afetar o jogo.
Movimento em voo
Logo no início, Goff percebeu que, ao analisar dados de trajetória de uma bola, ele conseguia derivar seu coeficiente de arrasto, um número que determina a resistência do ar que ela enfrenta em pleno voo, a uma determinada velocidade. Pouco depois, ele começou a trabalhar com uma equipe no Japão para analisar como o comportamento da bola da Copa do Mundo em voo muda a cada novo design.
Os experimentos, realizados na Universidade de Tsukuba, no Japão, foram propositalmente consistentes ao longo dos anos porque “manter continuidade é importante para comparar novos dados com conjuntos de dados históricos”, diz Takeshi Asai, professor que trabalha nos experimentos. Eles consistem em prender a bola a uma haste metálica conectada a um instrumento chamado balança de forças, que mede forças aerodinâmicas como arrasto e sustentação, enquanto a bola é exposta às mesmas velocidades de vento que enfrentaria em um jogo real, de sete a 35 metros por segundo.
A equipe testa a bola em diferentes orientações, “mas só dá para fazer algumas, porque a bola Trionda custa US$ 170”, diz Goff, e cada novo teste, na prática, a destrói. Os experimentos mostram à equipe como o coeficiente de arrasto muda com a velocidade e, então, Goff escreve código para simular a trajetória geral da bola enquanto ela voa pelo ar.
A análise da equipe mostrou como as bolas recentes da Copa do Mundo evoluíram em relação à Jabulani de oito gomos, usada no evento de 2010, na África do Sul. A Jabulani recebeu muitas críticas de jogadores, sobretudo goleiros, que disseram que ela tinha uma trajetória enganosa, que “mergulhava de forma traiçoeira”, como um jogador disse ao jornal The Guardian.
A bola tinha um defeito central: era lisa demais. Embora seu coeficiente de arrasto fosse relativamente baixo em altas velocidades, quando a bola desacelerava até certo ponto, o coeficiente disparava, fazendo com que ela perdesse velocidade muito rápido e se comportasse como os jogadores de 2010 reclamavam. Essa transição súbita, chamada crise de arrasto, ocorre em velocidades mais altas para bolas mais lisas, mas, com textura adicional como costuras e sulcos, a transição pode ser evitada até que a bola atinja velocidades mais baixas. Isso permite que a bola viaje mais longe e, em geral, se comporte de modo mais previsível durante o jogo típico.
“É o mesmo motivo pelo qual bolas de golfe têm covinhas e bolas de beisebol têm aquelas belas 108 costuras duplas. Se esses elementos ásperos dessas bolas não existissem, você não chegaria nem perto do tipo de distância que vê hoje quando essas bolas são arremessadas ou rebatidas”, diz Goff. “Precisa haver algum tipo de rugosidade na bola para deslocar essa transição para uma velocidade menor.”
Novos sulcos
De acordo com a análise de Goff e seus colegas, os designs subsequentes conseguiram empurrar a crise de arrasto para velocidades mais baixas. A Brazuca, usada em 2014 na Copa do Brasil, por exemplo, tem apenas seis gomos, mas o comprimento total das emendas é muito maior, o que aumenta a rugosidade da superfície. E a Trionda deste ano tem apenas quatro gomos, mas cada um também tem três sulcos profundos para adicionar textura.
Há, porém, uma compensação nessa rugosidade. Embora Goff e seus colegas tenham constatado que a Trionda sofre a crise de arrasto na menor velocidade desde 2010, seu coeficiente de arrasto também é maior do que o de outras bolas em altas velocidades. Isso significa que, embora a mudança mais dramática não aconteça até que a bola esteja se movendo bem devagar, ela ainda vai desacelerar mais rápido do que suas antecessoras recentes durante a parte mais veloz do voo. Assim, as trajetórias de chutes longos podem ser alguns metros mais curtas, diz Goff. A Adidas não respondeu a um pedido de comentário.
Felizmente, os jogadores na próxima Copa do Mundo já devem estar familiarizados com essas nuances adicionais, pois tiveram acesso à nova bola por pelo menos alguns meses. A bola, observa Goff, é bastante semelhante em design à Flight, da Nike, então jogadores que passaram mais tempo com essa bola podem ter uma vantagem extra.
Enquanto isso, Goff continua enviando os artigos do grupo a seus colegas na FIFA e na Adidas, na esperança de oferecer novos insights, e ele já recebeu bolas enviadas pela Adidas no passado. A Adidas realiza seus próprios testes, não publicados, de cada bola nova. O New York Times informou, no ano passado, que o processo de testes da Trionda, ao longo de três anos e meio, incluiu robôs projetados para chutar a bola em velocidades específicas, além de testes em sete dos 16 locais-sede.
Mas, na visão de Goff, o futebol é “o esporte mais popular do mundo e este é o torneio mais importante, e a peça mais importante nele é esta bola aqui”, diz ele apontando a bola Trionda que estava na câmera durante nossa chamada pelo Zoom. “Acho que eles têm interesse em como um teste externo é feito.”



