Startups: ainda há um campo vasto no Brasil à espera de inovações
Negócios e economia

Startups: ainda há um campo vasto no Brasil à espera de inovações

País vive boom de startups, por outro lado, há setores inexplorados com um imenso potencial para receber avanços tecnológicos.

Ao longo da última década, o número de startups cresceu vertiginosamente no Brasil, fato evidenciado por pesquisa do Statista — organização especializada em pesquisas de mercado — que revela um aumento de 427% no número total de startups no país. Nesse contexto, tivemos uma expansão de soluções de tecnologia em diferentes setores, a exemplo das fintechs (seus serviços são direcionados ao mercado financeiro), edtechs (novos players do setor educacional), lawtechs e legaltechs (inovações focadas no campo do Direito), agrotech (seus produtos contribuem para gerar benefícios aos agronegócios), entre tantas outras.

Apesar da possível impressão do cenário de inovação brasileiro ter conquistado uma maturidade avançada, ainda há muito para se progredir.

Eu já disse algumas vezes que na expansão global da Easy Taxi, onde a operação chegou a atingir 35 países, o Brasil foi sem dúvida, na minha opinião, o cenário mais hostil para se empreender. Isso acaba impactando na evolução do mercado tech, especialmente em alguns segmentos.

Um deles é o de veículos autônomos, que praticamente não existe no país enquanto lá fora grandes players internacionais disputam para definir quem será o líder de mercado. Apesar de, claro, tal aspecto estar relacionado à liquidez do mercado, há outros pontos em questão.

Uma pesquisa da KPMG, intitulada “Índice de Prontidão para Veículos Autônomos 2020”, revelou os obstáculos capazes de inibir as iniciativas em torno de planos para fazer com que os carros autônomos ganhem tração no Brasil. A criação de uma legislação específica — além de infraestrutura — é um exemplo desses entraves, sobretudo para o desenvolvimento da produção já presente em outras nações do mundo, como mostram os dados da multinacional, que diagnosticou o Brasil como o país menos preparado para a produção de carros sem motorista. O levantamento considerou o nível de preparo de 30 países, numa lista onde constam também nações como Rússia, Índia, Chile e México.

A pesquisa estabeleceu quatro pilares para definir as condições prioritárias para a adoção dos veículos sem motorista: Política e Legislação, Tecnologia e Inovação, Infraestrutura e Aceitação do Consumidor. O resultado foi péssimo: o Brasil ficou com a última posição nesses quesitos, só alcançando desempenho melhor no item “Aceitação do Consumidor”, onde ocupou o penúltimo lugar, enquanto a Índia ficou em último.

A ausência de regras é tida como uma das principais barreiras para se dar o pontapé inicial nesse setor no nosso país. Ao mesmo tempo, em diversas partes do mundo, há startups se desdobrando para equipar esses veículos com tecnologia de ponta.

Há desde invenções que simulam a visão humana, como a da norte-americana Blue Space, a até mesmo tecnologias à base de uma variedade de sensores que permitem perceber situações nos arredores do veículo, desenvolvida pela alemã Scantinel.

Só para se ter uma ideia do potencial deste mercado, estima-se que os veículos autônomos devem movimentar US$ 60 bilhões em 2030, segundo dados do Statista.

Outro campo fértil e vasto para a atuação de startups no país, é o setor de gerenciamento de automação de iluminação pública, que exige infraestrutura tecnológica, tal como sistemas em IoT (Internet of things), a redes de sensores que possibilitam monitorar e gerenciar dispositivos conectados.

Esses recursos fazem parte da tendência das cidades se tornarem smart cities, chegando a representar investimentos anuais de até US$ 124 bilhões, segundo o especialista Noam Bizman, da Service Nows Latino Americana, multinacional de software para gestão de workflows. 70% desse tipo de projeto situam-se nos Estados Unidos, na Europa e na China, mas o Japão e a América Latina ficaram em evidência em 2020 como os locais com avanço mais rápido nessa direção.

Todo esse contexto é um gancho para reforçar a importância não só de fazer uma avaliação macro sobre o segmento antes de se empreender, indo além de uma análise de tamanho de mercado (como a TAM SAM SOM), mas também aprofundar-se em aspectos governamentais e novos acontecimentos para manter-se atualizado.

Embora tenham sido levantados alguns pontos negativos em relação ao cenário macro, um fato recente positivo ocorreu a favor do empreendedorismo: o marco legal das startups.

Um possível nó que se desfaz

O Projeto de Lei Complementar nº 146/2019 — que recebeu sanção governamental — traz a expectativa que sejam beneficiados negócios em diversos segmentos da economia. Também espera-se que se inicie uma nova era de aportes por parte de pequenos e grandes investidores.

Entre as evoluções apresentadas pela nova lei, chama a atenção a possibilidade dos órgãos de regulação concederem autorização especial para que as empresas possam testar novas tecnologias e modelos de negócio por tempo determinado e com um número restrito de consumidores, contando, inclusive, com o suporte das agências reguladoras, no caso de situações que entram em conflito com as regras vigentes. Sendo uma clara opção de desburocratização para se testar novas iniciativas — um dos principais entraves para a operacionalização de projetos inovadores.

Esse expediente já é utilizado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) com startups do mercado financeiro, as fintechs, não à toa, o segmento que vem demonstrando maior desenvolvimento. É nessa brecha que podem e devem ser criadas novas startups em setores com regras muito rígidas, assim como as do setor de transporte (veículos autônomos), energia e saúde.

Logo, esta novidade junto ao aumento da liquidez no mercado nacional são pontos novos que devem fortalecer a aceleração da maturidade do mercado de inovação brasileiro, fomentando a criação de novas operações em segmentos, que, até então, não haviam se mostrado relevantes no país. Um passo à frente para o ecossistema e para os consumidores. Um nó a menos para quem está à frente da operação.


Este artigo foi produzido por Tallis Gomes, co-fundador e mentor do Gestão 4.0, fundador da Singu e da Easy Taxi e colunista da MIT Technology Review Brasil.

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