Reuniões são uma droga. Podemos torná-las mais divertidas?
Humanos e tecnologia

Reuniões são uma droga. Podemos torná-las mais divertidas?

À medida que o trabalho híbrido e remoto se torna a norma, as reuniões passam a incluir elementos de videogame e realidade virtual para aumentar o engajamento.

Em agosto, Mark Zuckerberg estava conversando com a apresentadora Gayle King no programa de televisão CBS This Morning. No entanto, ao invés de sentar em um estúdio ou usar um aplicativo de videoconferência, os dois estavam conversando em um ambiente de realidade virtual.

Zuckerberg apareceu no horário nobre da televisão americana para apresentar o Horizons Workroom, um aplicativo do Facebook que conecta os usuários a um espaço de realidade virtual por meio do Oculus, o headset da empresa. Para a ocasião, Zuckerberg e King criaram avatares de desenho animado deles mesmos, graças a sensores que reproduziam os movimentos de suas cabeças e mãos.

Tudo parecia muito estranho. King ficou maravilhada com as sardas de Zuckerberg, enquanto ele falava monotonamente sobre “o metaverso”, um espaço virtual compartilhado, criado a partir da convergência entre realidade virtual e aumentada e a internet. A certa altura, King fez a pergunta de um milhão de dólares: “Você começou a se cansar do Zoom? Porque eu sim”.

Quando o nome do programa Zoom se tornou uma constante no dia a dia dos trabalhadores, a empresa arrecadou quase um bilhão de dólares. Mas sua onipresença tem um custo. Um ano e meio depois que a pandemia empurrou os funcionários de escritório para reuniões virtuais pela primeira vez, “diminuir o uso do Zoom” ou lidar com a “fadiga do Zoom” é uma reclamação comum entre as pessoas que usam o aplicativo de videoconferência diariamente.

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Não é de admirar que outras empresas de tecnologia se perguntem como poderiam reinventar reuniões também, especialmente porque não parece que o trabalho remoto irá acabar tão cedo. Mas, para roubar a posição de destaque do Zoom, elas precisarão ser criativas e descobrir maneiras de evitar que os funcionários se sintam exaustos com chamadas de vídeo intermináveis.

Entre essas empresas está, é claro, o Facebook. O Horizons Workroom é o primeiro passo da empresa em direção a sua ambição um tanto vaga de criar um “metaverso” digital, um espaço virtual onde as pessoas trabalham, jogam e presumivelmente veem muitos anúncios lucrativos. Mas o Horizons Workroom foi amplamente ridicularizado após sua demonstração na TV. Um jornalista disse que o recurso capturou “o pior da vida presencial no escritório”, por exemplo, enquanto outro o julgou “não convincente”. O consenso era que nem a tecnologia nem os funcionários estavam prontos para um local de trabalho virtual totalmente imersivo.

No entanto, as empresas estão desesperadas para encontrar maneiras de fomentar a colaboração e a colegialidade em um ambiente remoto. Embora um ambiente de realidade virtual totalmente imersivo possa ser um passo muito grande por enquanto, muitas estão procurando tornar as reuniões mais divertidas, seja criando mundos virtuais que se assemelham a ambientes de videogame ou usando os próprios videogames como locais para reuniões.

A expectativa é que, dessa forma, os funcionários se tornem mais produtivos e felizes. Isso é o que se espera, pelo menos.

Um objetivo crucial é trazer um pouco de diversão na experiência, sugere Jaime Teevan, cientista-chefe da Microsoft para experiências e dispositivos, que estudou produtividade. Teevan diz que as reuniões remotas desafiaram a forma como usamos o espaço para nos comunicar, restringindo nossos mundos a quadrados digitais claustrofóbicos. Ela acha que uma comunicação melhor requer a abertura de espaço por meio de brincadeiras. “Somos especialistas no uso de espaço e perdemos isso em reuniões online”, diz ela. “Compreender o jogo e a conexão social é fundamental”.

É por isso que uma manhã no início do mês de agosto entrei na Kumospace, uma startup que conta com o Google entre seus clientes e promete em sua página inicial “criar conexões significativas em espaços virtuais inesquecíveis”. Minha imagem se tornou um pequeno quadrado que vagava por um espaço virtual do saguão com sofás, um piano, vasos de plantas e um jukebox tocando um mix do Spotify chamado “Horas silenciosas”. Depois que o fundador Brett Martin entrou no espaço virtual, ele me levou para um tour pela sala. Sua voz ficava fraca quando eu ficava muito para trás, um recurso acústico feito para imitar a vida real.

“Espere, deixe-me mostrar uma coisa. Você está pronta?” Martin perguntou de repente. Antes que eu pudesse responder, me peguei caminhando em uma praia. Toda a experiência foi atordoante. Eu estava desorientada por todas as coisas que tinha que fazer simultaneamente: conversar com Martin, ter certeza de que estava perto para que pudesse ouvi-lo bem e não correr o risco de perdê-lo enquanto ele se movia, e passar pelos vários obstáculos que surgiram: as ondas na praia, o rádio que abafava a nossa conversa quando chegava perto demais, meu copo de “vinho” se esvaziando sozinho. Tive dificuldade em me concentrar na reunião. Na verdade, tinham muitos estímulos e fiquei nervosa.

Martin, no entanto, diz que a Kumospace encontrou um nicho de público de empresas que organizam encontros informais onde os funcionários querem se conhecer: happy hours, eventos de networking, passeios “fora do trabalho”. Desde que foi lançado em junho, diz Martin, “mais de um milhão de pessoas” já usaram o produto.

O objetivo dessas reuniões, ou seja, conhecer outras pessoas e não fazer brainstorming de soluções, denota o contexto em que reuniões mais envolventes podem ter uma vantagem. “O Zoom é ótimo em passar informações para pessoas que você já conhece, mas o mesmo não é verdade quando se trata de construir relacionamentos com pessoas que você não conhece”, diz Martin.

Na verdade, muitas das inovações em tecnologia de reuniões durante o ano passado se concentraram em recriar os momentos “pausa para o café” que ajudam os funcionários a se relacionar. Essas conversas sobre amenidades (o clima, esportes ou TV, talvez) são cruciais para criar um senso de confiança e perspectiva para a resolução de problemas no futuro. Mas essas interações exigem um senso de conexão e os quadrados do Zoom não são propícios a isso.

[Foto: O Zoom é uma droga, em vez disso, começamos a ter reuniões editoriais no jogo Red Dead Redemption. É bom sentar perto da fogueira e discutir projetos, com os lobos uivando à noite]

Algumas empresas estão reaproveitando as plataformas digitais existentes para o trabalho. Alguns meses após o início da pandemia, a designer freelancer de livros e jogos, Viviane Schwartz, escreveu um conjunto de mensagens virais no Twitter, descrevendo como seu grupo de trabalho estava realizando reuniões no jogo de sobrevivência do Velho Oeste, Red Dead Redemption 2.

“É possível sentar ou caminhar juntos e até mesmo fazer café no RDR2, e há um sistema de bate-papo por voz bem integrado, então parecia uma boa ideia”, diz Schwartz.

Não é a primeira vez que um videogame é usado para reuniões. Um mês antes do tweet de Schwartz, uma empresa japonesa aparentemente usou Animal Crossing: New Horizons para conduzir reuniões. E os executivos têm oferecido convites para jogos como Grand Theft Auto para se aproximarem de clientes em um ambiente pessoal, mas respeitando as medidas da pandemia.

[Foto: Não edite o Google Doc compartilhado ou mude para o modo câmera cinematográfica enquanto cavalga em alta velocidade.
Já que as pessoas estão perguntando: você não pode ter reuniões no Red Dead Redemption 2 até que tenha feito as missões de introdução no modo online, o que leva até uma hora dependendo se as pessoas com as quais você se junta para o treinamento da equipe decidem sabotar sua disputa de cavalos]

Quando os tweets de Schwartz se tornaram virais, Red Dead Redemption 2 foi anunciado como “uma plataforma perfeita para reuniões de trabalho”. Apesar da experiência positiva de Schwartz, no entanto, ela não é realmente a favor de usar videogames para reuniões. Em primeiro lugar, ela diz, existem maneiras mais simples de se conectar com colegas de trabalho. Agora que as ordens de confinamento foram suspensas em todo o mundo, reunir-se pessoalmente é possível e eficaz, e as chamadas telefônicas ainda são muito mais acessíveis e rápidas do que um videogame.

Essa é a linha que os grupos estão seguindo: por um lado, os elementos divertidos podem tornar as reuniões mais interessantes e inspirar ideias, mas, por outro, essas reuniões são mais difíceis de organizar e podem parecer complicadas. “Estamos percebendo desafios específicos nas conexões sociais”, diz Teevan. A Microsoft, como o Facebook, está tentando inventar novas ferramentas para reuniões. Uma é a Together Mode que ela criou para o software Teams, usando inteligência artificial para recortar os avatares dos usuários e colocá-los em um ambiente virtual.

Teevan diz que os trabalhadores se sentem cada vez mais isolados no trabalho remoto e estão desesperados por conexões. Sua pesquisa interna da Microsoft mostra que os funcionários estão se tornando mais seletivos no ambiente de videoconferência, o que pode levar a decisões erradas. “Estamos compilando nossas redes sociais existentes”, diz ela. Os videogames podem expandir essas redes, aumentar a confiança e até mesmo levar a melhores decisões.

Sílvia Fornós , uma doutoranda bolsista do Center for Computer Games Research da IT University of Copenhagen, recentemente ajudou a organizar um encontro de uma semana no Gather, um espaço virtual onde os usuários podem realizar reuniões em um ambiente pixelizado de 8 bits, depois que ela descobriu que o Slack e o Zoom são insatisfatórios para se conectar com outros participantes da conferência. Em vez de ser uma distração, diz Fornós, o estilo dos anos 80 acrescentou uma sensação de informalidade e aconchego às reuniões.

Apesar disso, a conexão real estava faltando, ela descobriu. “A união da equipe é parte fundamental da pesquisa multidisciplinar e tem impacto direto no nosso trabalho”, afirma. “Temos que encontrar um meio-termo, como espaços híbridos que oferecem a flexibilidade dos espaços virtuais com a possibilidade de socializar e comparecer pessoalmente, se necessário”.

Esse meio-termo em tecnologia de reunião é onde o lucro e a necessidade se cruzam, e o Facebook espera que seu Horizons Workroom atenda a essa necessidade, por mais ridículo que possa parecer conversar com o avatar animado de seu chefe em uma realidade virtual. Até King admitiu que o Horizons Workroom “foi uma experiência um tanto quanto estranha”.

A solução pode estar em algum lugar entre videoconferência convencional e tecnologias semelhantes a videogame, sugere Jeremy Bailenson, professor de comunicação da Universidade de Stanford e fundador do Virtual Human Interaction Lab. Neste verão, ele conduziu um experimento sobre o que funcionava melhor, com 102 alunos registrando mais de 60.000 minutos no Zoom e na plataforma de realidade virtual, a Engage.

“Devemos permanecer no Zoom ou devemos usar a realidade virtual? Minha resposta é sim, devemos fazer as duas coisas”, diz Bailenson. Seu trabalho, apresentado em meados de setembro, mostrou que o tipo de encontro é fundamental. “Se há uma pessoa falando e todo mundo está apenas ouvindo, o Zoom é ótimo para isso”, diz ele. “Mas se você tiver que fazer uma ação ou ter conversas em pequenos grupos, a realidade virtual imersiva é melhor para isso”. Ele descobriu que a realidade virtual era a melhor maneira de as pessoas captarem sinais não-verbais, como se inclinar ou fazer contato visual, que são cruciais para estabelecer confiança e compreensão.

Mas Bailenson admite que a realidade virtual ainda não está no ponto em que podemos usá-la por mais de alguns minutos antes que nossa percepção fique confusa.

E se você não tiver acesso à realidade virtual? Uma maneira de melhorar as reuniões atuais é introduzir um elemento lúdico em formas de tecnologia mais simples. Teevan compartilhou uma pesquisa interna da Microsoft sugerindo que, em vez de distrair os funcionários, os jogos durante uma reunião “focam a atenção no contexto da reunião e estimulam conversas”. Outro estudo interno da Microsoft descobriu que, em vez de colocar os funcionários uns contra os outros, os jogos ofereciam suporte e conexão “para construir capital social”.

Os benefícios da diversão podem se estender a um futuro onde possamos até mesmo nos encontrar fisicamente. Pré-pandemia, Teevan liderou pesquisas sobre o uso de jogos variados, como concursos de perguntas e respostas, para apoiar a interação social em reuniões. “Descobrimos que jogos como esse incentivavam mais interação social, mais conversa, ou seja, que as pessoas se envolviam ativamente na reunião”, diz ela. Em julho, a Zoom adicionou jogos no aplicativo que as pessoas em uma chamada de vídeo poderiam jogar durante as reuniões, mas Noah Weiss, vice-presidente de produto da Slack, me disse que a empresa não está interessada em gamificação.

Mas Schwartz concorda que tornar as reuniões mais leves pode melhorá-las para os trabalhadores cansados ​​da pandemia, desde que os gerentes excessivamente zelosos não os pressionem. “A diversão pode incluir muitas outras coisas, como ser atacado por um urso ao verificar uma planilha do Google porque todos vocês decidiram entrar no Red Dead Redemption 2”, diz Schwartz. “Mas isso só pode ser uma decisão sincera de um grupo de iguais que sentem que lá é onde eles querem estar, e nunca algo que um chefe possa nos forçar a fazer regularmente”.

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