O risco da proletarização cognitiva na era da IA
Inteligência artificial

O risco da proletarização cognitiva na era da IA

O que você encontrará neste artigo:

O que é proletarização cognitiva
A mente estendida e o risco de captura
Como preservar a autonomia híbrida

A Inteligência Artificial não está apenas transformando setores da economia. Ela está alterando a forma como pensamos. A automação cognitiva atravessa nossas atividades cotidianas, modifica nosso trabalho e começa a moldar o próprio ato de decidir. A IA se mistura à mente humana e passa a executar partes do raciocínio, organizar memórias e sugerir caminhos antes mesmo que iniciemos a reflexão. Documentários como The Thinking Game, sobre a trajetória de Demis Hassabis, ajudam a perceber a escala dessa mudança e a complexidade desse debate; recomendo que você assista.

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Foi observando esse cenário que desenvolvi o conceito de proletarização cognitiva, presente em “Híbridos: o futuro do trabalho entre humanos e máquinas” (Alta Books, 2025). A proletarização cognitiva ocorre quando o ato de pensar passa a ser delegado, progressivamente, a sistemas automatizados. O resultado é uma forma de alienação intelectual, pois continuamos pensando, mas deixamos de iniciar nosso próprio pensar.

Em muitos ambientes profissionais, o pensamento nasce do entorno informacional, através de sugestões automáticas, filtros invisíveis, estruturas predefinidas e recomendações personalizadas, que se tornam o ponto de partida da decisão. Em vez de formular hipóteses, confirmamos aquilo que o sistema já calculou e antecipou. O sujeito deixa de lidar com a incerteza e passa a conviver com respostas prontas. A hesitação, que é território da filosofia, da criatividade e do pensamento crítico, vai desaparecendo silenciosamente do cotidiano.

A mente estendida e o limiar da captura

No artigo “Extending Minds with Generative AI” (Nature Communications, 2025), o filósofo Andy Clark argumenta que a relação entre humanos e IA deve ser compreendida a partir de uma visão ampliada da mente. Somos, segundo Clark, sistemas híbridos por natureza, o que ele e David Chalmers chamaram, em texto clássico de 1998, de extended minds (mentes estendidas, em tradução livre). A mente humana se constituiu, historicamente, por meio de ferramentas externas, da escrita aos computadores, que ampliam nossa capacidade de imaginar, calcular, criar e decidir.

Clark também lembra que receios sobre “mentes preguiçosas” acompanham toda inovação; como Platão, que criticou a escrita por supostamente enfraquecer a memória, e, hoje, temermos que o GPS, os mecanismos de busca e a IA corroam nossas competências cognitivas. Mas, para o filósofo, esses medos partem de uma visão limitada do que somos. Nossa inteligência sempre foi um mosaico entre cérebro, corpo e artefatos técnicos.

Porém, Clark alerta que nem toda extensão é benigna. Ele reconhece que certas tecnologias podem “reduzir a diversidade cultural”, reforçar padrões, gerar complacência e induzir erros. Mas sua posição, otimista, é de que a IA pode ampliar horizontes criativos e cognitivos, como demonstram pesquisas que mostram aumento de criatividade em jogadores de Go após o surgimento de estratégias imprevistas por sistemas, como ele apresenta em seu artigo.

Mas quero fazer uma observação sobre a posição de Clark, pois acredito que a expansão cognitiva só é emancipada quando é acompanhada de consciência. Quando deixamos de perceber como os sistemas moldam percepções, julgamentos e alternativas possíveis, a mente não se estende; na verdade, ela é capturada.

No horizonte atual, surgem sistemas que não apenas ampliam capacidades, mas também predizem, filtram e antecipam ações humanas. E quando a IA antecipa, baseada em cálculos preditivos, mesmo antes que o sujeito formule suas próprias ideias, então deixa de haver uma extensão e começa a haver a delegação estrutural do pensar.

Quando a autonomia se converte em rotina

A captura cognitiva já é perceptível em diversas profissões. Analistas interpretam relatórios cuja lógica desconhecem. Motoristas seguem trajetos definidos por algoritmos invisíveis. Criativos aceitam a primeira proposta de um modelo generativo como se fosse inspiração. Até a escrita é moldada por corretores que corrigem antes de pensarmos.

Nesses casos, o humano atua, mas não inicia o gesto cognitivo. A ação permanece, a autoria desaparece. O pensamento se converte em operação técnica, e a profundidade é substituída pela eficiência. O erro, que é parte essencial do aprender, passa a ser tratado como uma falha de sistema.

Quanto mais sofisticadas as ferramentas, mais raro se torna o espaço da reflexão. A produtividade cresce, mas o sentido diminui.

É nesse cenário que quero provocar o desafio da autonomia híbrida. Ser híbrido não significa depender da máquina. É saber usá-la sem ser absorvido por ela. A cognição contemporânea é compartilhada entre humanos, dados e máquina, mas a consciência ainda é a única instância capaz de sustentar o juízo. Quando ela se ausenta, o sujeito é subordinado às rotinas automáticas. A automação deveria liberar tempo para o pensamento. Quando ela automatiza o pensar, o humano se torna redundante.

Evidências empíricas para a era híbrida

Para além da reflexão filosófica, evidências recentes reforçam o risco que descrevo.

Em um experimento com decisões médicas orientadas por Inteligência Artificial, foi verificado que a IA melhorou o desempenho geral, mas 7% das avaliações inicialmente corretas feitas por humanos foram revertidas após sugestões erradas geradas por algoritmos, demonstrando um caso real de viés de automação.

Um outro estudo global, com 48.340 pessoas de 47 países, conduzido pela KPMG e pela University of Melbourne, revelou que 66% dos trabalhadores usam ferramentas de IA sem avaliar a precisão das respostas. A aceitação automática já é realidade, não hipótese.

Esses exemplos mostram que a delegação cognitiva está se tornando padrão estrutural. O desafio é impedir que se transforme em alienação.

Uma ética da cognição híbrida

A questão não é quanto a IA pode pensar, mas o que resta do nosso pensar quando ela o faz. A proposta da Autonomia Híbrida significa observar não apenas os sistemas que nos cercam, mas as nossas próprias formas de delegar pensamento. Cada vez que escolhemos uma resposta pronta, em vez de um processo reflexivo, abrimos espaço para o esvaziamento intelectual.

Clark fala em extended cognitive hygiene, ou seja, a necessidade de saber quando confiar e quando questionar sistemas que participam da nossa cognição. Concordo com ele. Mas acredito que precisamos ir além, construindo uma ética da cognição híbrida, um conjunto de práticas e atitudes que preservem a autoria intelectual dentro do ecossistema informacional no qual estamos inseridos.

Ser híbrido é inevitável. Ser híbrido e consciente é uma escolha. A convivência com a IA não é uma disputa de inteligência, mas de intenção. O risco não está no que as máquinas sabem, mas no que deixamos de querer compreender. A mente humana sempre se definiu pela inquietação. Quando ela se apaga, não somos superados pela IA, mas deixamos de fazer as perguntas que nos tornam humanos.

Como não cair na armadilha da proletarização cognitiva

Algumas recomendações práticas para manter uma autonomia híbrida:

. Inicie o pensamento por conta própria: formule hipóteses antes de consultar a IA;

. Desconfie da primeira resposta: trate sugestões como ponto de partida, não como destino;

. Retarde a automação: preserve momentos de hesitação e reflexão;

. Reescreva com a sua voz: recoloque a autoria no texto;

. Questione-se com relação à autonomia: estou decidindo ou apenas confirmando?

. Cultive a dúvida: ela é o motor da criatividade e do pensamento crítico;

. Mantenha rastros conscientes: registre as razões das decisões tomadas com apoio da IA;

. Proteja sua capacidade de perguntar: a perda da pergunta é o início da mente automatizada.

Ser híbrido é inevitável. Ser híbrido e consciente é uma prática diária.

Referências

Cappra, Ricardo. Híbridos: o futuro do trabalho entre humanos e máquinas. Alta Books, 2025.

Clark, Andy. Extending Minds with Generative AI. Nature Communications, 16, 4627 (2025). DOI: 10.1038/s41467-025-59906-9.

Rosbach, E., Ganz, J., Ammeling, J., Riener, A., Aubreville, M. Automation Bias in AI-Assisted Medical Decision-Making under Time Pressure in Computational Pathology. arXiv, 2024.

KPMG & University of Melbourne. Trust, Attitudes and Use of Artificial Intelligence: A Global Study 2025.

Ricardo Cappra é pesquisador de cultura analítica, autor e empreendedor. Fundou o Cappra Institute onde pesquisa o impacto dos dados na sociedade e nos negócios, a partir disso, cria métodos, projetos e negócios que aceleram o desenvolvimento analítico de pessoas e empresas ao redor do mundo. Cappra já ajudou organizações como Governo dos EUA, Abbott Laboratories, Unilever, B3, Banco do Brasil, Gol Linhas Aéreas, Banco Santander, UOL, Whirlpool, Banco Mundial, Rede Globo, Banco Itaú, Ambev, entre outros.

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