A expansão dos data centers no mundo, impulsionada pelo aumento da digitalização e pelo crescimento exponencial do volume de dados, tem modificado paisagens urbanas e rurais.
Nos Estados Unidos, um dos principais polos onde ocorre esta reconfiguração, infraestruturas físicas gigantescas de concreto se estendem horizontalmente e abrigam servidores, sistemas de armazenamento, equipamentos de rede e de alto consumo energético que, camuflados pelo conceito etéreo de “nuvem”, vêm tomando cada vez mais espaços entre as cidades.
Quanto maior a proliferação de modelos de IA ou serviços de nuvem e soluções que requeiram um poder computacional superior, maior será a demanda por armazenamento e processamento de dados que, por sua vez, consomem mais água, energia elétrica e território. Um processo de expansão nada virtual, mas físico. Portanto, usar os termos “nuvem” ou “cloud” é apenas dizer, com garbo, que nossos dados estão no computador de outra pessoa, ou melhor, nos data centers das grandes corporações.
Território x Dados
Historicamente, o desenvolvimento econômico humano se apoiou na exploração e extração de recursos naturais do meio ambiente. Hoje, a prática extrativista também é digital e, apesar de, na Nova Economia, a base de poder serem os dados, ainda é preciso energia e infraestrutura.
A disputa pelo espaço físico onde o progresso deseja se instalar tende a cristalizar a ideia de desigualdade. As questões socioambientais geradas impactam as comunidades locais e o controle sobre os recursos naturais disponíveis se mantém nas mãos das grandes corporações, que nem sempre estão operacionalizando sob práticas sustentáveis, de fato.
Equilibrar as questões ambientais no contexto dos data centers é um desafio, e fazer valer a agenda ESG (Ambiental, Social e Governança) nas companhias é indispensável para se alcançar resultados a partir de metas mensuráveis, evitando o chamado greenwashing tecnológico ou digital.
A pesquisa Global Data Center Survey 2022, realizada pelo Uptime Institute, e divulgada no mesmo ano, mostra que apenas 39% dos data centers rastreavam seu consumo de água. Da mesma forma, também naquele ano, a Sustainalytics, organização de pesquisa e dados de ESG, em suas Classificações de Risco para a sigla (Morningstar Sustainalytics), analisou 122 empresas que operam data centers e, destas, apenas 16% divulgaram informações sobre a gestão de riscos envolvendo água.
Os trade-offs da nuvem
Estas infraestruturas colossais não mudam apenas a paisagem do lugar onde se instalam. O consumo de energia pode sobrecarregar as redes elétricas e provocar racionamento, que afetaria diretamente as comunidades em seu entorno.
Segundo Ren et al., 2025, estima-se que, em 2027, a demanda global por IA deverá representar uma retirada de água (de suas fontes) entre 4,2 e 6,6 bilhões de metros cúbicos, o que é de 4 a 6 vezes o total anual que a Dinamarca, ou metade do Reino Unido, retira em 1 ano.
Na Irlanda, segundo registrou o jornal The New York Times, os data centers consomem mais de 20% da eletricidade do país. No Chile, aquíferos correm risco de esgotamento e, no México, após a construção de um data center na região central do país, moradores relataram cortes de energia mais frequentes, bem como falta de água.
Seguindo a mesma rota de acontecimentos, a Ken Research menciona que na África do Sul, país que há anos enfrenta apagões constantes, os data centers de hiperescala estão sobrecarregando ainda mais a rede elétrica e que a perspectiva deste mercado segue crescente.
No Brasil, país gigante em consumo de dados, os estados do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná e Minas Gerais hospedarão, segundo o portal G1, os quatro primeiros complexos de data centers de IA no país, os quais poderão ter juntos um consumo de energia equivalente ao de 16,4 milhões de casas. O Brasil, por suas características geopolíticas e de potencial energético, tem grandes possibilidades de hospedar um número ainda crescente destas estruturas.
De forma geral, os data centers de hiperescala são construídos, geralmente, em locais mais distantes dos grandes centros, mas tendem a atrair investimentos que impulsionam a geração de empregos de mão de obra qualificada e incentivos fiscais, que podem, inclusive, influenciar na criação de polos tecnológicos de médio e longo prazos.
No Brasil, cada região tem seus próprios desafios. Trata-se de uma discussão que precisa passar pelo âmbito social, incluindo na discussão aqueles que poderão ser afetados pelas possíveis consequências negativas causadas por estas instalações, como as comunidades indígenas e povoamentos locais, além de produtores rurais, para evitar deslocamentos populacionais e prejuízos a outros setores da economia.
Data center? Aqui não!
Em 2020, um grupo de moradores da capital chilena, Santiago, conseguiu barrar a construção de um data center de uma big tech, que consumiria 228 litros de água por segundo, em um país onde a água não é um recurso abundante.
A partir de um trabalho que uniu o compartilhamento de informações entre a população local, de recursos financeiros próprios e da pressão sobre os governos locais e federal, a população conseguiu através de um referendo que o data center não fosse construído.
Em 2019, na cidade de Haarlemmermeer, nos Países Baixos, as autoridades municipais decretaram pausa na construção de novos data centers sob a justificativa de que
ocupassem o mínimo de espaço possível e se integrassem arquitetonicamente bem ao ambiente. Na ocasião, Amsterdã possuía um mercado de data centers que crescia a uma taxa de 10 a 15% ao ano.
E, ainda nos Países Baixos, em 2022, o governo da cidade de Zeewolde declinou da venda de um terreno que pertencia à municipalidade, para uma Big Tech, por pressão da opinião pública, devido à previsão de consumo excessivo de energia.
O contexto geopolítico: mesmo assunto, diferentes estratégias
Enquanto gigantes da tecnologia demandam espaço físico e recursos para funcionarem, os países lhes oferecem, à sua maneira, benefícios para não ficarem para trás, como terrenos, incentivos e isenções fiscais.
De modo geral, espera-se em retorno a geração de empregos e estímulo ao desenvolvimento de novas indústrias e infraestruturas de tecnologia; o fortalecimento do ecossistema de inovação e empreendedorismo no país receptor; a melhoria nos serviços digitais locais, além de atenderem, é claro, às estratégias e interesses geopolíticos nacionais de cada Estado.
Não se trata de possibilidades irreais de retorno, entretanto, sabemos, por exemplo, que infraestruturas como as destes gigantes operam com reduzida mão de obra, embora altamente qualificada, em função do seu alto grau de automatização.
No Brasil, o estímulo para a construção de data centers vem se desenrolando principalmente via isenção e incentivos fiscais. O governo federal assinou, em 17 de setembro de 2025, uma medida provisória (nº 1.318/2025) que deu origem ao Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata), cujo objetivo é impulsionar o crescimento de empresas relacionadas à computação em nuvem, Inteligência Artificial (IA), smart factories e Internet das Coisas (IoT).
O governo federal reservou para o Redata, em 2026, o orçamento de R$5,2 bilhões e realizou uma consulta pública sobre os critérios e indicadores de sustentabilidade para a regulamentação dos data centers. A consulta teve seu término em 26 de outubro de 2025 e ouviu a sociedade civil; representantes que atuam na cadeia produtiva de data centers; fabricantes de componentes e de bens finais de tecnologia da informação e comunicação; e investidores do segmento. A discussão envolveu também os Ministérios do Meio Ambiente e Mudança do Clima; da Fazenda; do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e da Ciência, Tecnologia e Inovação.
Do ponto de vista geopolítico, a estratégia do Brasil é se destacar como liderança no processo de descarbonização digital, enquanto os principais players globais ainda atuam em um contexto de alta intensidade de carbono na geração elétrica.
Segundo o relatório anual “Balanço Energético Nacional” (BEN) da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), publicado em maio de 2025, mais de 70% da matriz elétrica do Brasil é composta por fontes renováveis, o que coloca o país em posição de referência em energia limpa. De acordo com a instituição, este seria um diferencial que coloca o país em posição de se tornar o que a empresa chamou de “hub competitivo para hospedar data centers com geração de tokens de baixo carbono”, alinhando inovação digital com a agenda climática e resguardando questões ambientais e sociais.
Nos Estados Unidos, a abertura legal e política em prol da expansão dos data centers tem sido facilitada para as corporações e foi reforçada pelo America’s AI Action Plan, de julho de 2025. No plano, o governo federal menciona que quer criar um “sistema simplificado” de licenciamento para data centers, instalações de fabricação de semicondutores e infraestruturas de geração de energia.
O documento diz que o sistema de licenciamento ambiental do país, entre outras regulamentações, seria um impeditivo à construção de toda essa infraestrutura com a velocidade necessária para garantir a liderança global dos Estados Unidos em tecnologia. O documento reitera que, por esta razão, a atual administração já havia reformulado as regulamentações da Lei Nacional de Política Ambiental (NEPA), entre outras leis de natureza ambiental, para criar os caminhos necessários à execução do Plano, incluindo a disponibilização de terras federais para a construção de data centers e suas respectivas infraestruturas para geração de energia.
Segundo noticiado pela Bloomberg Línea, em estados como o Texas, a rede de fornecimento de energia precisará suportar até 2030 quase o dobro do que tem condições de suportar no momento, para dar vazão à crescente demanda de energia, de acordo com o Conselho de Confiabilidade Elétrica do Texas (Ercot).
Segundo o Relatório Sobre o Consumo de Energia em Data Centers nos EUA, publicado em 20 de dezembro de 2024 pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos, data centers consumiram cerca de 4,4% da eletricidade total dos EUA em 2023 e prevê-se que consumam aproximadamente entre 6,7% e 12% da eletricidade total dos EUA até 2028.
O atual cenário global nos leva a um aspecto importante nessa discussão, que é a integração entre os setores público e privado para a superação dos desafios técnicos e de investimento em estruturas que combinem diferentes fontes de energias renováveis.
Investimentos em data centers com resfriamento de alta eficiência, que reduzem o consumo de água e energia, mantendo o desempenho e a segurança operacional, vêm sendo feitos em diversas partes do globo. Instalações que utilizam IA na sua operação, para otimizar o consumo energético, evitando, assim, picos de energia e desperdícios, também são uma aposta neste mercado. Da mesma forma, a energia solar já é utilizada em data centers ao redor do mundo.
Qual é o preço de um futuro leve?
A “nuvem” nunca foi tão sólida, concreta e palpável. Dependemos de infraestruturas físicas de armazenamento e processamento de dados cada vez maiores para fazer funcionar a Nova Economia, que ainda carrega resquícios da velha economia de exploração.
Nossa necessidade de análise de volumes massivos de dados, das pesquisas genéticas e simulações científicas aos serviços digitais, hoje indispensáveis no nosso dia a dia, são avanços que se tornaram inviáveis de abdicarmos como sociedade.
Neste sentido, persiste a necessidade de equilíbrio ou de mudança de paradigma quanto ao uso dos nossos recursos naturais, o que, convenhamos, não é uma pauta nova. De outra forma, estaríamos dispostos a pagar essa conta na forma de energia, água e território? Será sustentável o futuro digital que estamos construindo?
À medida que a transformação digital avança globalmente, a necessidade de expansão dos data centers aumenta proporcionalmente. Se, por um lado, este processo reflete o avanço da Inteligência Artificial, da computação em nuvem e dos serviços digitais, tão necessários para sustentar a estrutura da economia global, por outro, evidencia um impacto ambiental e social em expansão.
O alto consumo de energia e água, a emissão de carbono e a ocupação acelerada de territórios, fazem da era digital um período de transformações que também revela contradições, onde o virtual, para avançar, pode vir a sobrepujar o real.
Repetir este paradigma de exploração, da velha economia, é reproduzir um modo de crescimento que já sabemos não ser sustentável. E, da perspectiva de expansão dos data centers, esta corrida pelo domínio de tecnologias digitais e de dados é mais uma peça no tabuleiro da geopolítica onde estão em jogo liderança em tecnologia e a sustentabilidade global.



