O enfrentamento das mudanças climáticas tem um foco hoje: o metano. A justificativa é que o CH4 dura, em média, 12 anos na atmosfera, mas é um gás superpoluente. Ele retém 86 vezes mais calor que o dióxido de carbono (CO2), representando um terço do aumento de 0,5 ºC na temperatura média do planeta, segundo a Organização das Nações Unidas. A quantidade atual na atmosfera é duas vezes e meia maior que os níveis pré-industriais, então reduzi-lo representaria um grande e imediato impacto na crise climática.
A estratégia foi defendida por diversos especialistas no “Fórum Metano: Freio de Emergência Climática”, nessa quarta-feira (03/06) durante a primeira edição da Rio Nature & Climate Week. A MIT Technology Review Brasil esteve no evento carioca que é inspirado em outras semanas do clima, como as de Nova Iorque e Londres, e acontece ancorado no Dia Mundial do Meio Ambiente. A promessa é que a semana nacional se repita nos próximos quatro anos.
‘Parar com as emissões de metano significa ganhar tempo’
Ana Toni, CEO da COP 30, que aconteceu em 2025, em Belém, no Pará, acredita que atacar o metano pode dar fôlego na tentativa de cumprir o Acordo de Paris e se restringir ao aumento da temperatura média global de 1,5 ºC. “Parar com as emissões de metano significa ganhar tempo”, defendeu. Segundo a especialista, as medidas devem fazer parte de um mix para a transição energética, não sendo contraditório com as políticas de descarbonização da economia. Toni ainda acrescentou que existem soluções e tecnologia economicamente viáveis, por isso o tema precisa ser abraçado pela sociedade, por seus resultados imediatos.
O Brasil está em quinto lugar no ranking dos maiores emissores do gás, ficando atrás de China, Índia, Estados Unidos e Rússia. Reverter essa realidade é uma das estratégias mais ágeis e economicamente viáveis, principalmente para o Brasil, que teve um crescimento de 6% entre 2020 e 2023, segundo relatório de 2025 do Observatório do Clima. O agro é o setor que mais emite, responsável por 75,6% da emissão de metano, o que correspondia a 15,7 milhões de toneladas, em 2023. O setor de resíduos é o segundo mais poluente, com 3,1 milhões de toneladas, no mesmo ano.
Nesse contexto, os dados podem colaborar para o diagnóstico e o monitoramento. Segundo Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas, o Brasil tem o “estado da arte” da informação, com uma riqueza de dados produzida pelo setor público e a sociedade civil. O MapBiomas, por exemplo, é uma rede global formada há dez anos por universidades, ONGs e empresas de tecnologia, que monitora as transformações na cobertura e no uso da terra. Criada no Brasil, já está em 14 países. Outro exemplo é o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa, o SEEG. A ferramenta monitora as emissões brasileiras, com dados desde 1970. Iniciativa do Observatório do Clima (rede com 160 organizações da sociedade civil), ela é uma das maiores bases de dados de emissões de gases de efeito estufa do mundo.
No entanto, ainda é preciso avançar na transparência do setor privado. Recentemente, a Comissão de Valores Mobiliários revogou a obrigatoriedade do reporte de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, o que torna a medida voluntária. “Isso cria opacidade no que se precisa conhecer especificamente de algumas indústrias”, explica o especialista Tasso Azevedo.
Focar no metano tem sido uma estratégia chamada de “freio” para a crise climática, ou “low-hanging fruit” (algo como uma fruta ao alcance das mãos), por ser um objetivo mais fácil do que aqueles ligados às emissões de gás carbônico. Maior eficiência na criação de gado, coleta seletiva, com compostagem dos resíduos orgânicos, e uso de biodigestores, para produção de energia e fertilizantes, foram algumas das soluções defendidas durante o fórum.
Atingir esses objetivos, no entanto, depende de esforços estruturais, em conjunto com os setores privado e público. E não adianta apenas conscientizar as pessoas se não houver, por exemplo, coleta seletiva nos municípios. “Eu não tenho escolha. A cidade não está desenhada para ser uma pessoa melhor para o meio ambiente”, avaliou Kamila Camilo, do Instituto Oyá.


