A expansão dos cursos de nível superior em Inteligência Artificial ou Ciência de Dados, como vimos na primeira parte da nossa reportagem especial sobre graduação em IA, não garante que o país esteja abastecido de boas formações. As graduações, sejam elas para bacharelado ou tecnólogo, são bem recentes e mais da metade ainda não tinha Conceito de Curso disponível no e-MEC no momento do levantamento.
É o que aponta o “Mapeamento dos Cursos Superiores em Inteligência Artificial no Brasil”, organizado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e divulgado há apenas cinco meses. Das 202 graduações em IA e Ciência de Dados registradas pelo estudo (entre bacharelados e tecnólogos), 80 apresentavam o Conceito de Curso no e-MEC, a plataforma do Ministério da Educação que acompanha a regulação do ensino superior no país. A boa notícia é que todas as graduações que já apresentavam avaliação receberam notas 4 e 5, as duas mais altas na escala do MEC.
Para quem está buscando um diploma em uma área tão nova, caracterizada por atualizações constantes e com avaliações ainda por serem feitas, a decisão de ingressar na graduação em IA pode ser uma aposta que deve levar em consideração não apenas o “canudo”, mas a grade curricular e a reputação da instituição de ensino que está ofertando o curso. É o que pondera Vinícius Sebba, professor do Instituto de Informática da Universidade Federal de Goiás (UFG) e que esteve à frente da criação do Bacharelado em Inteligência Artificial da instituição em 2019, com os primeiros alunos ingressando em 2020. Apesar de já ter formado estudantes, o curso ainda não foi avaliado.
“Nas universidades federais, eu acho que as pessoas têm menos preocupação com relação a isso, principalmente quando é uma faculdade que tem boa reputação”, afirma Vinícius.
O próprio “Mapeamento dos Cursos Superiores em Inteligência Artificial no Brasil” informa que parte dos cursos identificados, especialmente os que foram autorizados mais recentemente, ainda não completaram o ciclo avaliativo do Ministério da Educação e, por isso, ainda não possuem indicadores de qualidade.
O Conceito de Curso (CC), no entanto, não deve ser confundido com a autorização ou regularidade de funcionamento de uma graduação. Para iniciar a oferta de um curso superior, uma instituição precisa cumprir as exigências regulatórias do Ministério da Educação, que, em geral, envolvem projeto pedagógico, corpo docente adequado, infraestrutura e condições acadêmicas compatíveis com a formação proposta, como explica a professora Aline Paes, do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal Fluminense (UFF).
“O cuidado que a universidade tem nesse processo de criação vai seguir todas as recomendações e regras do Ministério da Educação. Então, é quase como se fizéssemos uma simulação do que o MEC faria, mas, antes de o aluno estar formado, o diploma dele vai ser certificado pelo MEC. O ministério precisa dizer que está tudo bem”, afirma a professora.
Com o intuito de saber mais sobre o processo de avaliação dos cursos de ensino superior do país, nós tentamos contato com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), vinculado ao MEC e responsável por executar a avaliação no âmbito do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES). Para isso, realiza avaliações externas, inclusive visitas in loco, analisando aspectos como projeto pedagógico, corpo docente e infraestrutura. No entanto, até o fechamento dessa reportagem, não obtivemos retorno do Inep.
Onde a graduação em IA cresce
A oferta de cursos superiores em Inteligência Artificial não está distribuída de maneira uniforme no território brasileiro. O “Mapeamento dos Cursos Superiores em Inteligência Artificial no Brasil” aponta que as regiões Sudeste e Sul concentram a maior oferta de graduação em IA ou Ciência de Dados, sendo que São Paulo lidera esse ranking com 44 instituições, entre públicas e privadas. Em seguida, estão os estados do Paraná, com 21 e Minas Gerais e Rio Grande do Sul, com 14 cada.
Por outro lado, os estados do Acre, Amapá, Rondônia e Roraima não apresentam instituições com graduações especificamente dedicadas à Inteligência Artificial ou à Ciência de Dados. Eles têm menor densidade de instituições de ensino superior e maior distância dos principais centros acadêmicos do país, reforçando as desigualdades na distribuição territorial da oferta de universidades brasileiras. Nem mesmo a expansão da Educação a Distância (EaD) foi capaz de eliminar essa diferença. De acordo com o mapeamento, 85,5% dos bacharelados são presenciais e 72% dos tecnólogos são à distância.
A concentração desigual pode ter efeitos que vão além do acesso ao diploma, já que universidades também abrigam grupos de pesquisa, laboratórios e projetos capazes de movimentar profissionalmente as regiões onde estão localizadas.
Inteligência Artificial e internacional
O AI Index Report do ano de 2026, pesquisa produzida pelo Stanford HAI, um instituto interdisciplinar da Universidade de Stanford e dedicado à pesquisa sobre a ciência de dados e a IA, mostrou que a Inteligência Artificial chegou a 88% das organizações consultadas nos cinco continentes, no ano de 2025. Já as ferramentas de IA generativa alcançaram um nível de adoção equivalente a 53% da população em apenas três anos, ritmo superior ao observado na disseminação inicial do computador pessoal e da Internet.
Diante do caráter estratégico dessa tecnologia, diferentes países têm ampliado a formação na área. O mapeamento brasileiro organizado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação faz um breve apanhado do cenário mundial e aponta a China como principal polo de formação ao registrar cerca de 600 universidades oferecendo graduações relacionadas à IA no ano de 2025. Nos Estados Unidos, eram 151 instituições com cursos similares. Já a Arábia Saudita adotou uma política nacional voltada à expansão dessas graduações e, no ano passado, 86% das universidades já ofereciam cursos de IA.
Formação e soberania tecnológica
O Brasil é um país consumidor de tecnologia estrangeira e temos uma forte dependência das big techs para ferramentas e armazenamento de dados. No mês de abril, na matéria “Entre a nuvem e a soberania digital”, publicada na MIT Technology Review Brasil, falamos dos riscos disso para a produção científica e a proteção das informações acadêmicas do país. Só que, para produzir soluções com selo nacional, é preciso ter profissionais que pensem dessa forma.
“Estamos vivendo uma disputa global por capacidade tecnológica. Se formarmos apenas usuários das ferramentas produzidas por outros países, aumentaremos nossa dependência tecnológica, mas se formarmos profissionais capazes de desenvolver modelos, criar empresas, produzir pesquisa e adaptar soluções às necessidades brasileiras, fortalecemos nossa soberania digital e nossa capacidade de inovar”, destaca a professora Paula Maçaira.
O “Mapeamento dos Cursos Superiores em Inteligência Artificial no Brasil” foi motivado pela rápida expansão da Inteligência Artificial e pela necessidade de compreender como está a formação para essa área no nosso país. Ele é parte do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que tem o objetivo de “transformar o país em referência mundial em inovação e eficiência no uso da Inteligência Artificial, especialmente no setor público”, conforme está na página do governo federal onde o plano é apresentado. E, entre as ações do PBIA, está justamente a “IA na Graduação”, que prevê criação de cursos, ampliação de disciplinas relacionadas à área e pelo menos 5 mil novas vagas em três anos.
E quem opta por estudar a IA sabe que o conhecimento adquirido não se encerra após os anos de graduação, porque, especialmente nessa área, tudo muda de maneira acelerada. O estudante Igor Aguiar faz parte da quinta turma do bacharelado em IA da Universidade Federal de Goiás e participa de projetos no Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA), o polo de inovação criado pela própria UFG. Entrou no curso em 2024, ainda entendendo o que queria para a própria formação, mas não se arrepende.
“É uma área muito viva e estamos o tempo todo expandindo a fronteira do conhecimento. Os professores comentam com a gente que, para estar na área da tecnologia, tem que gostar de aprender. Não é algo engessado e você consegue aplicar em várias áreas diferentes. Como a gente precisa de dados e eles estão em tudo, não ficamos restritos a uma coisa só”, reflete Igor.
Enquanto novas turmas avançam nos cursos já existentes, a formação em Inteligência Artificial também está no planejamento do PBIA, com previsão de criação de pelo menos 5 mil vagas em graduações da área. O próprio mapeamento, no entanto, mostra que ampliar a oferta é apenas uma parte do processo: ainda há cursos sem indicadores consolidados de qualidade, forte concentração regional e lacunas de oferta em diferentes estados. O desafio agora é acompanhar se essa expansão conseguirá ser transformada em capacidade efetiva de pesquisa, inovação e desenvolvimento tecnológico no país.



