A Inteligência Artificial está em praticamente todos os temas de tecnologia divulgados hoje. É assunto que envolve economia e política global. Além disso, ferramentas de IA generativa passaram a fazer parte da rotina de cerca de 32% da população brasileira, de acordo com a pesquisa TIC Domicílios, e empresas estão incorporando a Inteligência Artificial em seus processos. Mas IA é também campo de pesquisa desde a década de 1950 e um conhecimento que envolve matemática, estatística, computação, engenharia de dados, avaliação de modelos e questões éticas. Por isso, a equipe da MIT Technology Review Brasil fez uma reportagem especial, dividida em duas partes, sobre o surgimento e crescimento das graduações em IA. Nesta primeira, vamos falar sobre as características desses cursos e o que os diferencia da tradicional graduação em Ciência da Computação.
No Brasil, a criação delas é recente: os primeiros registros foram iniciativas pontuais no setor privado, como o do Centro Universitário do Instituto de Educação Superior de Brasília (IESB), que anunciou um bacharelado em Ciência de Dados e Inteligência Artificial, em dezembro de 2017.
A partir de 2019, com a criação do primeiro bacharelado em Inteligência Artificial por uma universidade pública, a Universidade Federal de Goiás (UFG), teve início uma expansão, de acordo com o “Mapeamento dos Cursos Superiores em Inteligência Artificial no Brasil”, levantamento realizado pelo Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e divulgado em maio deste ano. O mesmo documento aponta que o país reúne 202 cursos de graduação relacionados à IA e Ciência de Dados.
A primeira turma da UFG, que iniciou o curso em plena pandemia de Covid-19, a partir do ano de 2020, contou com 40 vagas. E a motivação para pensar em uma graduação específica para a Inteligência Artificial, que já vinha sendo abordada com mais ênfase na pós-graduação, veio da própria demanda do mercado por profissionais da área, o que foi percebido pelos professores do Instituto de Informática, como Vinícius Sebba que, na ocasião, também era diretor.
“Era uma época em que se falava menos sobre IA, principalmente para o público leigo, mas entre o pessoal da computação, da TI, da própria IA, estávamos vendo o caldeirão borbulhando. Os entusiastas e empresários também começaram a perceber isso mais cedo e ficou claro que a gente tinha demanda se abrisse a graduação. Não ia ser um curso grande, pelo contrário, porque antigamente tinha que ir para o mestrado e o que a gente fez foi encurtar o caminho”, relembrou Vinícius.
Identificada a necessidade, veio o processo de remanejar vagas, ter mais professores e organizar o currículo, seguindo as premissas do Ministério da Educação para novas graduações. Na mesma época, a UFG criou o Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA), um polo de inovação e, de acordo com o professor Vinícius, o primeiro centro de excelência em IA do país, que ainda reuniu academia, indústria e governo. Para estudantes interessados em pesquisa, virou um grande atrativo.
Állan Silva, que hoje é líder de projetos no CEIA da UFG, é fruto da primeira turma da graduação em IA da universidade e se formou em 2024. Mesmo sabendo que a tecnologia muda o tempo todo e que a Inteligência Artificial virou assunto dos leigos aos profissionais, considera que os quatro anos de bacharelado fizeram muita diferença. Quando ingressou, não tinha muito conhecimento da área do ponto de vista acadêmico, mas pesquisou o mercado e percebeu o potencial da tecnologia.
“Foi uma das decisões mais assertivas que tomei. Pude ter acesso a conteúdos de alto nível ministrados por professores que equilibravam bem teoria e vivência prática. Do ponto de vista profissional, foi uma grande virada, pois pude participar de projetos de pesquisa com empresas parceiras do CEIA-UFG desde o primeiro período do curso. Muitas oportunidades de trabalho que tive foram proporcionadas pelos projetos de P&D (pesquisa e desenvolvimento).”
Não é computação?
É natural pensar que uma graduação em Inteligência Artificial possa ser redundante, considerando a quantidade de cursos menores oferecidos não apenas nas instituições de ensino superior, mas na Internet. Além disso, a IA já não seria uma área de conhecimento que estaria integrada à Ciência da Computação?
A base de formação continua, de fato, sendo a computação, mas os pesos são diferentes. Enquanto na Ciência da Computação a IA é uma disciplina e aparece transversalmente ao que é estudado, na graduação em Inteligência Artificial é o foco principal e ela não se resume a ferramentas que usamos para facilitar tarefas do dia a dia, como aponta Aline Paes, professora do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal Fluminense (UFF).
“Os chatbots são a tecnologia que está em voga, mas a Inteligência Artificial vai muito além dessa área que a gente tem mais contato, que é o processamento de linguagem natural”, afirma.
O país ainda não conta com Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos superiores de IA, mas o tempo e o mercado vêm mostrando às universidades o que é relevante. “A IA deixou de ser apenas uma especialização para se tornar um campo próprio de conhecimento, com desafios técnicos, sociais, econômicos e éticos que exigem uma formação específica”, explica Paula Maçaira, coordenadora do Bacharelado em Inteligência Artificial da PUC-Rio.
Ainda segundo Paula, a universidade, que lançou o curso no segundo semestre de 2025, levou um ano para organizar a graduação e, para isso, reuniu os departamentos de Engenharia, Informática e Matemática, analisou referências internacionais e fez consultas a empresas para entender as competências profissionais necessárias, “mas buscamos construir um projeto alinhado às necessidades e aos desafios brasileiros”, destacou.
IA com olhar para a sociedade
Algumas instituições acrescentam outros conhecimentos que vêm se mostrando relevantes em um momento no qual muito conteúdo falso é produzido com Inteligência Artificial e questões éticas sobre o uso dessa tecnologia começam a ser apontadas.
A PUC-Rio, por exemplo, incluiu no currículo outros três eixos, para além do Conhecimento Técnico-Científico em IA: Humanístico, Habilidades Interpessoais e Liderança, e Inovação e Empreendedorismo. Isso quer dizer que os alunos da graduação vão estudar disciplinas como IA & Sociedade, Filosofia da Tecnologia, Regulação da IA e Ética Socioambiental.
Na Universidade Federal Fluminense, a graduação em Inteligência Artificial também é uma novidade. Iniciado este ano, com 20 vagas para a primeira turma, o curso foi organizado com uma boa base de matemática, estatística e computação, muitos fundamentos de Inteligência Artificial e ciência de dados, mas com disciplinas como Ética e Inteligência Artificial, além de Computação e Sociedade. Segundo a professora Aline Paes, o objetivo não é formar usuários de IA, mas pessoas que estarão por trás dela, participando da construção.
“A gente tem visto, no governo, tecnologias de IA sendo desenvolvidas e a gente também tem visto muitas startups com soluções super originais que a gente não pensava antes. Um profissional do nosso curso vai conseguir manejar as ferramentas necessárias para a construção dessas tecnologias com mais facilidade e uma visão mais ampla”, afirma Aline.
A proposta dessas graduações é formar profissionais com fundamentos suficientes para acompanhar transformações que ainda nem chegaram ao mercado. O chatbot pode ser a face mais visível da tecnologia hoje, mas os cursos nascem com a ambição de formar quem vai projetar os sistemas para além dele.
Na segunda parte desta reportagem especial sobre graduação em Inteligência Artificial, vamos falar de avaliação dos cursos, das diferenças territoriais na oferta de vagas e da formação de nível superior em IA considerando o cenário internacional.

