Na semana passada, um grupo de 42 atletas se reuniu em Las Vegas, nos Estados Unidos, para disputar uma competição esportiva um tanto incomum. Os participantes dos primeiros “Enhanced Games”, apelidado de “Olímpiadas dos asteroides”, são incentivados a tomar drogas para melhorar o desempenho. O objetivo é “expandir os limites do desempenho humano”.
Os organizadores dos jogos disseram que os competidores só podem tomar substâncias aprovadas pela Food and Drug Administration (FDA), agência de saúde dos Estados Unidos, e que todos estão sendo monitorados e supervisionados por médicos. Mas eles também afirmaram esperar ver recordes mundiais serem quebrados, e ofereceram prêmios substanciais aos atletas que conseguirem isso.
Como era de se esperar, o evento gerou uma mistura de curiosidade, empolgação e condenação em diferentes círculos. Para mim, ele parece muito um reflexo de onde estamos hoje, uma era obcecada por peptídeos, em que os consumidores são incentivados a ficar mais magros do que nunca, a otimizar a longevidade e a ter seu “melhor bebê”. É 2026 e, se você não está se aprimorando, o que você está fazendo?
Então, esses jogos contam com competições em quatro categorias: natação, atletismo, levantamento de peso e strongman, que também envolve levantar pesos. Muitos dos competidores já detêm recordes nacionais e mundiais, e alguns são medalhistas olímpicos. Eles receberam um salário e vão disputar prêmios de um montante de 25 milhões de dólares. O dinheiro tem sido um grande atrativo para pelo menos alguns dos atletas.
Outro atrativo é a oportunidade de experimentar abertamente drogas que podem melhorar o desempenho. No mundo do esporte de elite, cada microssegundo e cada milímetro contam. Atletas, a maioria dos quais, sem dúvida, já tem a genética a seu favor, seguem protocolos meticulosos de dieta, treino e recuperação e usam equipamentos especialmente projetados, que lhes permitem buscar esses picos de performance.
Mas, dentro da maioria das comunidades esportivas, há limites. A Agência Mundial Antidoping, uma entidade internacional que combate o uso de drogas no esporte, mantém uma longa lista de “substâncias não aprovadas” que são proibidas em eventos internacionais. Ela inclui muitos esteroides anabolizantes, que podem aumentar a massa muscular, hormônios, como os que estimulam a produção de testosterona ou aumentam a capacidade do sangue de transportar oxigênio, fatores de crescimento, que podem estimular o crescimento e a recuperação muscular, entre outras substâncias.
Algumas dessas substâncias foram aprovadas pela agência norte-americana para tratar problemas de saúde. E isso significa que elas podem ser usadas por participantes dos Enhanced Games, de acordo com as regras da organização.
Vou apontar rapidamente o óbvio aqui: só porque um medicamento foi aprovado pela FDA não significa que ele seja totalmente seguro para qualquer pessoa. Os riscos associados ao uso de esteroides anabolizantes, por exemplo, incluem pressão alta, acne, depressão e tumores no fígado. O uso de hormônio do crescimento pode causar fraqueza muscular, afetar a visão e até levar ao diabetes.
“Doping tecnológico”, ou o uso de equipamentos aprimorados para obter vantagem, também tem sido apoiado pelos organizadores dos jogos. No ano passado, foi noticiado que o nadador participante Kristian Gkolomeev quebrou um recorde em uma prova de 50 metros livre, em uma tomada de tempo, usando um “super” maiô de poliuretano. Esse tipo de traje está banido das Olimpíadas desde uma leva de performances que quebraram recordes em 2008 e 2009. Na época, a entidade que rege a natação decidiu que eles davam aos atletas uma vantagem injusta. Mas, bem, estes são os Enhanced Games, onde a palavra “injusto” parece ter um significado completamente diferente.
Além do prêmio em dinheiro por vencer uma prova, qualquer atleta que conseguisse superar um recorde poderia ganhar até 1 milhão de dólares. Mas essas performances não serão reconhecidas por entidades esportivas oficiais.
O nadador grego Kristian Gkolomeev fez 20s81 nos 50 m livre, um tempo 0s07 abaixo dos 20s88 do australiano Cameron McEvoy, registrado em março, e que derrubou a marca do brasileiro Cesar Cielo após 16 anos. Gkolomeev foi o único a superar um recorde mundial no evento. A marca, porém, não será computada oficialmente. Além disso, o nadador olímpico Hunter Armstrong ganhou os 50 metros costas alegando estar limpo, sem dopping.
Muitas preocupações foram levantadas sobre esses jogos. Alguns argumentam que eles são inseguros e promovem o uso arriscado de drogas. Outros os veem como um “circo”, e como um tapa na cara de atletas “limpos” que treinam duro sem usar drogas proibidas. O presidente da World Athletics, Sebastian Coe, disse que qualquer pessoa que participe é “idiota”, e a World Aquatics, que supervisiona competições internacionais de esportes aquáticos, baniu participantes dos Enhanced Games de seus eventos e atividades.
Os jogos, e os atletas participantes, receberam uma enorme atenção. Como resultado, também ganharam as drogas para melhorar o desempenho. A Enhanced, empresa por trás dos jogos, também mantém uma loja on-line. Lá, você pode comprar uma camiseta de 52 dólares estampada com a mensagem “I am Enhanced”.
Também há uma variedade de medicamentos sob prescrição à venda, incluindo peptídeos “para dar suporte à recuperação, vitalidade e longevidade”. Um deles é um hormônio do crescimento que a FDA aprovou em 1997 para o tratamento de crianças com “falha de crescimento”. A versão manipulada oferecida no site da Enhanced, que não é aprovada pela agência, é comercializada para longevidade, como suporte ao sono profundo e ao “bem-estar e à vitalidade geral”. (“Comercializada” é a palavra-chave aqui. O medicamento, novamente, não foi aprovado para esse propósito.)
Tudo isso se encaixa muito bem no zeitgeist. Claro, ainda não temos nenhum medicamento projetado para estender a vida humana. Mas a busca por fármacos antienvelhecimento está recebendo mais atenção, e mais financiamento, do que nunca. As pessoas, especialmente as mulheres, aparentemente já não têm mais permissão para envelhecer visivelmente, agora temos filtros e liftings para isso. A ideia de que “a morte é errada” está ganhando aceitação.
E a autoexperimentação está por toda parte. “Biohacking” entrou na lista de finalistas da Palavra do Ano do Collins Dictionary, em 2025. Peptídeos estão em toda parte, apesar de todas as incógnitas em torno de sua segurança e eficácia. O mesmo vale para as clínicas de longevidade, apesar de o fato de que a maioria está vendendo tratamentos não comprovados. Estados norte-americanos, como Montana, estão facilitando o acesso das pessoas a “terapias” não aprovadas.
As empresas estão até oferecendo a futuros pais a opção de escolher os possíveis filhos do futuro que, espera-se, vivam mais. Isso mesmo, supostamente agora dá para otimizar seus embriões também.
Nesse cenário, os Enhanced Games não parecem tão radicais. Eles são totalmente condizentes com a nossa era de otimização questionável, apesar dos riscos, uma era em que, ao que tudo indica, ser humano já não é o bastante.



