E se o metaverso não for um lugar?
Inovação

E se o metaverso não for um lugar?

Muitos imaginam o metaverso como uma versão 2.0 do Second Life ou uma evolução do Roblox e Fortnite, mas talvez ele seja algo mais abstrato, pervasivo e muito mais extremo

Há meses escrevo sobre o metaverso e mesmo assim não deixo de me surpreender com as rápidas transformações nesse setor e a velocidade com que as grandes empresas têm abraçado a novidade.

Em menos de um mês, o Facebook virou Meta, a Nike já tem sete patentes para vender produtos nesse universo virtual e a Microsoft anunciou um ambicioso plano para suas ferramentas funcionarem no metaverso.

As empresas de mídia não ficaram atrás. Tanto a Disney quanto a chinesa Tencent fizeram referência ao metaverso em suas conferências trimestrais com investidores, descrevendo como o metaverso terá um papel em seus respectivos futuros.

É nítido o crescente desejo das corporações de surfar essa onda do metaverso que para muitos pode ser a próxima internet. Os registros de 2021 na SEC são um reflexo disso, com 160 menções à palavra “metaverso” neste ano, em comparação com praticamente nenhuma citação nos anos anteriores.

O futuro do metaverso

Em meu último texto falei sobre a dificuldade em prever como será o metaverso e por que as atuais empresas na liderança do mercado dificilmente serão as líderes do futuro metaverso. Nós, assim como as grandes empresas, usamos nossa experiência analógica passada para prever um futuro digital e exponencial.

Prova disso é que cada vez mais pessoas descrevem o metaverso como um tipo de game mais complexo. Uma espécie de versão 2.0 do finado Second Life ou um Fortnite maior e mais realista. Bob Chapek, CEO da Disney, até virou piada nas redes sociais ao dizer que o Disney+ seria o metaverso da Disney, uma extensão de seus parques e propriedades intelectuais.

Não é difícil entender a correria dos executivos para levarem suas empresas para o metaverso. É o instinto de sobrevivência. Talvez o metaverso não dê em nada, mas se realizar 20% da expectativa em torno dele, muita empresa grande vai ver seus negócios desaparecerem ou diminuírem da noite para o dia. Afinal, boa parte das companhias, a exemplo da Disney, vive de reter nossa atenção ou de permitir que chamemos a atenção de outros (como a indústria da moda e da beleza).

O metaverso é muito mais

No Twitter, o executivo Shaan Puri, que recentemente lançou um startup (ainda secreta), deu uma definição provocadora e bastante interessante. Para ele, o metaverso é um tempo, não um lugar. É quando nossa vida digital é mais importante do que nossa vida física.

Pode parecer um exagero, mas se observarmos como a rotina dos trabalhadores intelectuais mudou durante a pandemia, com cada vez mais tempo diante de telas e imersos nos mais variados aplicativos e ferramentas digitais, não é difícil imaginar um futuro no qual o digital se torne cada vez mais presente.

O mesmo se pode dizer da crescente influência dos games no nosso cotidiano. De Fortnite a Roblox, passando por jogos de celular e de console, crianças e adultos passam cada vez mais tempo online.

O Second Life não decolou, mas talvez tenha sido a ideia certa no momento errado, quando a tecnologia ainda não estava madura o suficiente. Assim como Tesla não criou o primeiro carro elétrico, o Google não inventou a primeira ferramenta de busca e o Facebook foi a primeira rede social, o Second Life talvez não se torne a maior memória do metaverso.

O metaverso como tempo, não lugar

Mas quais as consequência práticas do metaverso ser um tempo e não um lugar. Bom, isso muda tudo. Como o investidor Romeen Sheth afirmou no Twitter, “o metaverso tornará tudo mais extremo”.

O espaço físico que habitamos não ficará maior com o metaverso, mas pense nas possibilidades de um mundo onde todo o planeta pode se encontrar instantaneamente e onde não há fronteiras. Estudos mostram, por exemplo, que o Zoom mudou a dinâmica das reuniões.

Mulheres em reuniões no Zoom se sentem menos intimidadas pela presença física masculina nas salas virtuais e falam mais. Pessoas de cargos mais baixos na hierarquia se veem com o mesmo espaço de tela de diretores e do CEO nas reuniões e se sentem empoderadas. Esses são pequenos exemplos, a realidade é que ainda estamos começando a entender os impactos.

Mas pense no efeito da digitalização em escala ainda maior e mais interativa. Obviamente, os riscos crescem na mesma proporção. O mundo virtual pode potencializar campanhas de desinformação, fraudes e toda sorte de crimes. O crescimento das disparidades sociais é outro risco (mas isso é tema para outra coluna).

Futuro digital e sem fronteiras

Imagine poder viver no Brasil e trabalhar em qualquer lugar no mundo virtual. Até as fronteiras passam a fazer menos sentido. Não seria uma surpresa se o movimento de pessoas buscando países com melhor qualidade de vida, mais benefícios fiscais e internet de qualidade aumentasse ainda mais rapidamente.

Possivelmente, caminhamos para uma “nova Era de Extremos”. Mas se Eric Hobsbawm apontou em seu ensaio a Primeira Grande Guerra como marco do início do século XX e seus excessos, talvez o metaverso seja o marco de uma nova “era de extremos” no século 21.

Como lembra Puri, o metaverso irá acelerar o movimento de sairmos das fábricas para os laptops. Das salas de reunião para o Zoom. Nossas relações de amizade mudam de vizinhos para seguidores. Onde você encontra pessoas que pensam como você? Redes sociais, games…

O risco para as empresas

O impacto na indústria será tremendo. Isso explica porque tantas marcas estão em tão pouco tempo preocupadas com o tema. Se vivermos mais tempo online, para quem a indústria de cosméticos venderá maquiagem? As pessoas possivelmente vão investir em seus avatares, não em batom e afins.

Por que comprar o último lançamento da Nike se o legal é estar na moda no metaverso. A bolsa da Gucci no Roblox foi vendida por valor superior a sua versão física no mundo real. Por que ir até Roma, comprar passagem, pagar hospedagem, se você tiver a opção de visitar a cidade não em ruínas, mas em sua forma original e com dezenas de amigos e até simular ser um imperador ou qualquer cidadão romano.

Se sua empresa ainda não é digital, será. Não consigo imaginar qualquer indústria que de uma forma ou outra não possa ser impactada.

O mundo real não desaparece, mas muda

Isso não quer dizer que o mundo real deixará de existir. Significa apenas que nossa relação de tempo e investimento de capital e atenção vão mudar. Talvez o consumo de petróleo caia e menos carros sejam vendidos, afinal passamos mais tempo em casa. Por outro lado, pode haver uma disparada do consumo de eletricidade, de servidores em nuvem, de cabos de fibra ótica e novos devices para facilitar o acesso ao metaverso.

Uma nova economia baseada em criptomoedas e NFTs pode ganhar vida. Obviamente, tudo isso nos colocará diante de gigantescos desafios legais. Se eu ganhar dinheiro no metaverso, onde esse valor será tributado? E se ele nem mesmo sair do metaverso?

E quem será o dono do seu avatar, você ou o desenvolvedor do avatar? Se o metaverso fosse um lugar, seria fácil de regulá-lo porque lugares podem ser limitados por fronteira, mas se o metaverso for de fato um tempo, seus desafios serão abstratos por natureza.

Já vivemos em um novo mundo

Nossa relação com o mundo físico já se transformou. Mais crianças jogam Fortnite do que basquete e futebol nos Estados Unidos. Imagino que no Brasil o fenômeno seja semelhante.

Como disse o escritor William Gibson, “o futuro já está aqui — só não está distribuído de maneira muito uniforme”. Por enquanto, vale dizer. Afinal, é apenas uma questão de tempo.


Este artigo foi produzido por Guilherme Ravache, jornalista, consultor digital e colunista da MIT Technology Review Brasil. O autor teve liberdade editorial na escrita e não teve relação comercial com o patrocinador do artigo.

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