O futuro do metaverso e por que ele será bem diferente de como você imagina
Inovação

O futuro do metaverso e por que ele será bem diferente de como você imagina

Blockchain, NFTs, games, avatares, realidade aumentada e virtual devem ser as bases para o metaverso, ou a evolução da web. Mas nossas previsões normalmente são erradas por usarmos nossa experiência analógica passada para prever um futuro digital e exponencial.

As previsões usualmente são grandiosas. “O metaverso será a maior revolução em plataformas de computação que o mundo já viu, maior do que a revolução mobile, maior do que a revolução da web”, diz Marc Whitten, vice-presidente sênior e gerente geral de criação da Unity.

A Unity é uma das líderes globais no desenvolvimento de engines, o software por trás dos videogames e aplicações gráficas. Ela não é a única empresa a construir ferramentas e serviços para que as pessoas criem conteúdo no metaverso. Outras grandes empresas de tecnologia estão desenvolvendo produtos de hardware e software para o metaverso, ou seus próprios mundos virtuais dentro dele, incluindo Nvidia, Roblox Corp, Epic Games (com Fortnite), Microsoft e Facebook. Whitten também não é o único a prever uma nova revolução motivada pelo metaverso.

“Além de ser a próxima geração da Internet, o metaverso também será o próximo capítulo para nós como empresa”, afirmou Mark Zuckerberg, CEO do Facebook. “Nos próximos anos, espero que as pessoas façam a transição de nos ver principalmente como uma empresa de mídia social para nos ver como uma empresa do metaverso”, acrescentou.

Quando relembro o que imaginávamos como futuro do telefone celular e da internet, me divirto. O problema é que pensamos novas tecnologias como extensões do que já conhecemos. Mas o fato é que quando as revoluções tecnológicas começam, é impossível prever como vão se desenvolver, e principalmente, onde vão desaguar. Por isso são revoluções e não evoluções.

Metaverso, o que é e qual o seu futuro?

O metaverso é a grande aposta como nova revolução tecnológica. Mas o que será o metaverso? Sim, deve ser a próxima Internet, ou a Internet 3.0. O difícil mesmo é prever como isso se materializará em nosso cotidiano.

O poder de uma tecnologia ganha relevância à medida que novas conexões se formam entre o que já existe e novas invenções acontecem. Por exemplo, o telefone celular era incrível para realizar ligações. Mas graças à BlackBerry ganhou um novo status ao permitir mandar e-mails (uniu elementos do mobile e da web). Mas foi com a chegada do iPhone e sua tela grande, o aumento da velocidade das conexões de rede e o acesso ao GPS, que levaram os mapas para dentro dos telefones, que permitiu a revolução dos apps, do Uber, passando por todos os apps de entrega, até fazer com que coisas tradicionais como os bancos também migrassem para o mobile à medida que era o lugar onde seus usuários estavam.

Para muitos, o ciclo de inovação dos celulares, após quase duas décadas de sucessivas interações e evoluções, chegou à maturidade. Mais de 4,5 bilhões de pessoas já usam a tecnologia e a tendência é que tenhamos evoluções, não revoluções nesse setor.

O movimento cripto tem potencial enorme, mas provavelmente será mais um elemento dessa onda do que a onda em si. O mesmo se pode dizer dos NFTs (Tokens Não Fungíveis). Dessa forma, o metaverso cada vez mais passa a ser visto como “a onda”, já que pode reunir todas essas tecnologias e funcionar como o eixo de um novo ciclo que sucederá à web e ao mobile.

Uma ideia na cabeça, mas faltam os recursos básicos

Como apontou um painel de especialistas em metaverso ao WSJ, “para que o metaverso decole, vamos precisar de atualizações para os sistemas de computador e tecnologia existentes, incluindo mais poder de computação e gráficos de alta qualidade, bem como uma estrutura universal que permita aos usuários moverem-se sem problemas de uma parte do metaverso para outro. Também essenciais serão as ferramentas de programação simples o suficiente para permitir que qualquer pessoa crie seus próprios domínios e experiências virtuais, não apenas desenvolvedores qualificados”.

Mas olhar à volta e para a tecnologia que já temos disponível e imaginar que com isso se pode desenhar um cenário é precipitado. Como afirma Benedict Evans, “o Facebook apostou muito em AR (Realidade Aumentada) e VR (Realidade Virtual) como o próximo smartphone (e como uma possível liberação do controle da Apple), então Mark Zuckerberg começou naturalmente a dizer muito metaverso. Mas a VR hoje parece correr o risco de se tornar nada mais do que um subconjunto de jogos hardcore. Temos um ótimo dispositivo para o consumidor, mas não temos nenhum outro caso de uso e, na verdade, algumas pessoas podem argumentar que a VR nem funciona em jogos. A Lei de Moore pode resolver isso, mas isso não é evidente”.

“AR, por outro lado, ainda é ciência em vez de tecnologia — um par de óculos que pode colocar coisas no mundo que parecem estar realmente lá parece ser uma ideia muito boa, mas há sérias questões ópticas a serem resolvidas e não sabemos quando e se a Apple ou qualquer outro podem resolvê-la. Mas de qualquer forma, no metaverso, você usa a tela e ela mostra coisas, e muito disso podem ser jogos, e tipos muito novos de jogos””, acrescenta Evans. Ou seja, sendo realista, com o que existe hoje, o metaverso não fica de pé.

Obviamente, um novo ciclo tecnológico das proporções da Internet e do mobile não irá se limitar a jogos mais complexos, ou somente ao Roblox e Fortnite cruzando a fronteira dos games para o cotidiano das pessoas em outros contextos como reuniões de trabalho. O e-commerce e como nos entretemos nos games e redes sociais já são mudanças que nos aproximam do metaverso. Não por acaso o Roblox anunciou recentemente que trará diversas novidades para sua plataforma, incluindo avatares mais realistas, bate-papo por voz aprimorado, NFTs e mais opções de monetização. O g-Commerce, migração do e-commerce para dentro dos games, já é uma realidade.

O update dos avatares no Roblox serão essenciais para permitir maior personalização e realismo nos visuais dos jogadores. Hoje, as formas que parecem blocos de Lego no game vão ganhar formas mais realistas e devem melhorar a experiência social dos usuários. “A autoidentidade é um pilar crucial do metaverso, e a capacidade de personalizar precisamente suas roupas para seu avatar único é fundamental na expressão pessoal”, afirmou David Baszucki, CEO da plataforma, ao anunciar a novidade.

O Fortnite, concorrente do Roblox rumo ao metaverso, está na dianteira nesse sentido. As parcerias e visuais altamente personalizados se tornaram um dos grandes atrativos do Fortnite. As parcerias de marca dentro da plataforma podem render US$ 50 milhões em uma única iniciativa. A Roblox também tem sua própria marca e acordos de propriedade intelectual, mas quanto mais objetos virtuais atrativos você oferecer e maior o nível de customização para os usuários, melhor se torna a experiência.

Provavelmente, a Roblox é a empresa que está mais próxima de operar um metaverso, no sentido de que eles executam um sistema operacional comum no qual diferentes mundos virtuais são construídos e monetizados por um ecossistema de desenvolvedores independentes. O Fortnite é mais centralizado, até por usar seus próprios desenvolvedores, o que permite um maior refinamento estético de modo geral e uma experiência mais coesa. E, ao contrário de outras empresas com ambições ao metaverso, a Roblox e o Fortnite são levadas a sério por um crescente número de usuários.

Uma das maiores provas disso, como aponta Byrne Hobart, é que “a moeda dentro do Roblox circula, em vez de ser transferida apenas entre a empresa e o usuário (uma vantagem em relação ao Fortnite). Dada a idade de seus usuários, eles realmente têm um bom tempo para construir um metaverso mais formal; se futuras reuniões de escritório, shows e datas ocorrerem em mundos virtuais, a tarefa de Roblox é continuar melhorando as coisas para que seus usuários de 12 anos, que tocam em seu mundo virtual, sejam os de vinte e trinta e poucos anos que vivem nele”.

Nasce uma nova economia

Há poucos meses, escrevi sobre a oportunidade do Brasil liderar a corrida pelo metaverso, eu dificilmente encontrava a expressão associada ao termo NFT, por exemplo. Mas de uma hora para outra, isso mudou.

A Coinbase, uma das maiores exchanges de criptomoedas do mundo, está lançando um mercado para NFTs. A plataforma recebeu mais de 1 milhão de inscrições na lista de espera para o novo produto chamado Coinbase NFT. No anúncio da empresa, a Coinbase diz que implementar recursos sociais para aprimorar a conversa e a descoberta, ao mesmo tempo em que destaca seu compromisso com a comunidade e capacita o criador.

Em 2017, os primeiros projetos de NFT como CryptoKitties ganharam destaque, mas não na escala que NFTs foram elevados em 2021. Em agosto, OpenSea — o maior mercado de NFT — teve volumes mensais de US$ 3,4 bilhões em Ethereum, gerados por 281.000 traders ativos. O tamanho da lista de espera da Coinbase NFT é quatro vezes maior do que a base de usuários da OpenSea. Ou seja, em um anúncio o mercado de NFTs potencialmente aumentou diversas vezes e a entrada de elementos sociais podem aproximar as NFTs do metaverso em uma escala até pouco imaginada por poucos.

Avançando entre os extremos

A blockchain e os NFTs talvez sejam uma espécie de manifestação dos usuários buscarem uma Internet mais livre que a atual e menos centralizada e controlada por um punhado de empresas. Acreditar que o Fortnite será o próximo metaverso seria apostar no modelo de uma plataforma fechada.

Redes baseadas em informações, como a Internet, oscilam entre ecossistemas abertos e fechados — quando as coisas ficam muito abertas, os muros são úteis e, quando os muros ficam muito altos, você derruba alguns deles. Mas a Internet nos EUA se popularizou, em boa parte, graças ao AOL antes de migrar para o modelo de Internet aberta, habilitada por diretórios como o Yahoo e, em última análise, mecanismos de pesquisa.

Depois, as redes sociais voltaram a reconstruir os muros, mas permaneceram interconectadas com a web em vários graus. Mais recentemente, no entanto, o iOS e Android têm isolado cada vez mais esse território, particularmente quando se trata dos nossos dados. E, enquanto nossos telefones nos conectam a incontáveis ​​aplicativos e sites, o próprio telefone faz cada vez mais essas interações — cobrando um pedágio, que é ter acesso a todos os dados.

Segundo análise da NZS Capital, “o telefone está se tornando uma fortaleza tão poderosa, que é difícil imaginar como poderíamos ter mais uma vez um campo de jogo amplo e nivelado. Muitas pessoas estão pensando em economias baseadas em tokens, blockchain e versões abertas dos produtos de hoje, mas que esperança eles têm quando nossos dispositivos primários são controlados centralmente? O que mais me surpreende é que não temos várias empresas tentando entrar no mercado de telefonia aproveitando uma versão de código aberto do Android que se conecta ao seu próprio mundo de serviços e produtos. Por exemplo, onde está o telefone Epic (dona do Fortnite)? O fabricante do jogo está desafiando a Apple e o Google no tribunal, mas por que não se limitar a atingir suas centenas de milhões de usuários com um dispositivo Android integrado de última geração focado em jogos com uma loja de aplicativos Epic?”

A NZS lembra ainda das dificuldades de desafiar a Internet. “É tarde demais para reunir usuários suficientes para superar o problema do ovo e da galinha? Certamente, há um cemitério de tentativas fracassadas, e até mesmo o smartphone Fire da Amazon falhou, apesar de sua enorme base de usuários e distribuição. No entanto, talvez a mudança de sentimento pudesse agora apoiar tal esforço. A Microsoft está executando uma versão do Android em seu telefone Surface Duo — por que não criar um telefone Xbox também?”, conclui. Ou seja, nesse momento, até nossa dependência dos smartphones da Apple e Android podem ser barreiras para o metaverso.

Previsões dizem mais sobre quem as faz do que sobre o futuro. Assim como o Napster e o Orkut foram pioneiros que deram espaço a concorrentes mais eficientes, a Roblox ou Fortnite podem ser apenas a pedra fundamental de algo bastante diferente do que imaginamos.

Pensando fora da caixa

Um dos maiores desafios para nós, humanos, ao navegar pela atual transição econômica e tecnológica, indo do nosso passado analógico para nosso futuro digital, é uma nítida falta de experiência anterior. O cérebro é uma máquina de previsão e depende muito do conhecimento de eventos passados ​​para prever os futuros.

O progresso digital baseado em informações é muitas vezes não linear e, portanto, ainda mais imprevisível do que o ritmo analógico a que estamos acostumados ao longo de milhões de anos de evolução humana. Um dos maiores erros que podemos cometer como investidores é usar uma analogia analógica para prever um resultado digital.

No final da década de 1990, muitos varejistas observavam a Amazon como uma versão online de um catálogo de livros por correspondência. Até mesmo Bezos usou uma analogia de influência analógica para descrever a AWS, dizendo que a computação seria como a eletricidade: as empresas que costumavam operar suas próprias usinas de energia acabariam mudando para fornecedores centralizados e mais eficientes. Claro, sempre há alguma verdade nessas analogias (a computação em nuvem da AWS não deixa de ser uma grande usina), mas todos falharam em capturar o quão grande seria a oportunidade da computação em nuvem e seu impacto em todo ecossistema digital.

Por que bancos tradicionais, historicamente brilhantes em execução, parecem ficar para trás na corrida com nativos digitais? Porque quando uma indústria vai de analógica para digital (assumindo que o excesso de regulamentação não atrapalhe), você tem que reinventar a forma como os produtos são criados e como os consumidores são atendidos. Apenas jogar mais dinheiro no problema, sem nenhuma mudança fundamental na abordagem, costuma ser a estratégia errada. Por essa razão, ter a cantora Anitta no conselho do Nubank se torna tão disruptivo.

O cliente estará cada vez mais no centro, os pontos fracos precisam ser resolvidos de maneiras novas e você precisa pensar: plataforma, integração vertical, dados, efeitos de rede. O metaverso girará em torno do cliente e sua experiência digital. Mas muitas das empresas que hoje correm atrás de conquistar o metaverso há tempos deixaram de ter o cliente no centro.

Em outras palavras, você tem que ir muito além dos limites do ‘seu espaço’. A forma digital de fazer algo é criando mais valor para os clientes do que para as empresas que resolvem o problema. Isso geralmente significa que a velha maneira de fazer as coisas era extrair muito valor ou depender de informações que não são mais proprietárias. Por isso mesmo, muito do que temos e vemos à nossa volta hoje não servirá para o metaverso.

Então, o que você, eu ou qualquer um pense do metaverso, provavelmente estará errado. A ficção costuma ter chances maiores de acertar o futuro justamente por ser intrinsicamente livre de amarras com a realidade.

A única certeza é que qualquer coisa que imaginamos sobre o metaverso, provavelmente será bastante diferente do que visualizamos agora. E mais, seja qual for o futuro do metaverso, deverá trazer mais benefícios aos consumidores do que às empresas que o desenvolverem.


Este artigo foi produzido por Guilherme Ravache, jornalista, consultor digital e colunista da MIT Technology Review Brasil. O autor teve liberdade editorial na escrita e não teve relação comercial com o patrocinador do artigo.

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