Como a evolução dos contratos inteligentes em blockchain tornou possível o surgimento das Finanças Descentralizadas?
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Como a evolução dos contratos inteligentes em blockchain tornou possível o surgimento das Finanças Descentralizadas?

DeFi é o setor de crescimento mais rápido dentro do ecossistema blockchain global, apesar estar no seu início e com potencial ainda não muito explorado. Os smart contracts impulsionam as finanças descentralizadas do futuro, que oferecem aos usuários acesso aberto a um mercado global de mercadorias de uma forma mais barata, eficiente e segura

O surgimento do Bitcoin e dos demais criptoativos trouxe a idéia da descentralização do dinheiro. Nessa linha, surgiram as Decentralized Finance (DeFi), ou simplesmente “Finanças Descentralizadas”, cujo alcance e possibilidades vão muito além da desintermediação proporcionada pelos primeiros blockchains.

Conquanto Bitcoin, Litecoin e outras altcoins possuam muitos usos, suas possibilidades eram insuficientes quando do seu surgimento. Transacionadas nos chamados “blockchains de primeira geração”, as primeiras criptomoedas possibilitaram trocas monetárias e negociações financeiras ponto a ponto, sem a necessidade de terceiros ou intermediários, descentralizando a custódia e a emissão de ativos digitais. Contudo, não descentralizaram completamente o sistema financeiro. E é isto o que DeFi pretende.

O que é DeFi, afinal?

Decentralized Finance é qualquer serviço financeiro ou aplicação construída em um blockchain ou na Web 3.0. É um sistema paralelo que compreende contratos inteligentes, ativos digitais, protocolos e dApps construídos utilizando a tecnologia blockchain.

Também pode-se definir DeFi como um protocolo financeiro baseado na tecnologia blockchain que tem o potencial de tornar aplicativos financeiros mais acessíveis.

Como o sistema DeFi cria aplicativos valendo-se das possibilidades propiciadas pelos contratos inteligentes, eles são fáceis de modificar, combinar e integrar funções de acordo com as necessidades do usuário.

Mas, antes de nos aprofundarmos nas finanças descentralizadas, precisamos compreender algumas coisas.

Blockchains de 1ª, 2ª e 3ª geração

Os blockchains existem há apenas doze anos e nos primeiros seis anos, os aplicativos de blockchain único prevaleceram. Bitcoin, o primeiro blockchain, possibilitava transações monetárias simples e, ao contrário do que muitos pensam, também possuía contratos inteligentes. Todavia, não havia como adicionar condições mais elaboradas a essas transações.

Era preciso um “algo a mais” para que as trocas de valor realizadas em um blockchain fossem mais complexas, o que só foi possível em 2015, com o lançamento do blockchain  Ethereum.

Com Ethereum, passamos à Era Blockchain de segunda geração, na qual desenvolvedores aprimoraram os contratos inteligentes para inserir lógica de negócios e regras de governança em blockchains e possibilitar a digitalização da sociedade.

Agora, estamos ingressando numa nova etapa, a Era Blockchain 3.0, onde uma miríade de projetos visa melhorar a escalabilidade, sustentabilidade, privacidade, interoperabilidade e trazer “contratos inteligentes de última geração”.

A evolução dos contratos inteligentes

Foi o aperfeiçoamento dos contratos inteligentes que possibilitou o surgimento das Finanças Descentralizadas, é o setor de crescimento mais rápido dentro do ecossistema blockchain global, apesar de ainda estar no seu início e com potencial ainda não muito explorado.

Com Ethereum, um computador global descentralizado que processa contratos inteligentes mais complexos, tornou-se possível que pessoas desconhecidas, ou que não confiavam entre si, realizassem qualquer tipo de transação de valor — não apenas monetária —, mas qualquer tipo de transação de valor.

Ao contrário do Bitcoin que, quando surgiu, era um blockchain de propósito único com um único contrato inteligente, o protocolo Ethereum é projetado como uma rede de computadores descentralizada onde qualquer tipo de contrato inteligente pode ser programado, incrementando as possibilidades de troca de valor.

Contratos inteligentes fornecem mecanismos para gerenciar com eficiência ativos, tokens e direitos de acesso entre duas ou mais partes. Imagine uma caixa criptografada que desbloqueia valor ou direito de acesso se, e quando determinadas condições pré-estabelecidas são cumpridas.

Tais valores e direitos de acesso são armazenados em um blockchain que os protegem contra exclusão, adulteração e fraude.

Vale ressaltar, contudo, que o termo ‘contratos inteligentes” em si é um pouco infeliz.

Nem todo contrato inteligente é um smart “legal” contract

Créditos: Tatiana Revoredo

Contratos inteligentes são códigos de software com regras autoexecutáveis. Eles  podem ou não traduzir um smart “legal” contract, isto é, eles podem ou não ser usados para representar um contrato legal tradicional.

Ainda que um contrato inteligente seja usado para representar um contrato “legal”, não é possível adotar contratos inteligentes como uma substituição de todos os contratos tradicionais, porque nem todas as disposições de lei podem ser expressas com lógica computacional, e porque é impossível a substituição dos contratos tradicionais em que o componente subjetivo é um componente-chave.

Os bloqueios de telefone por provedores de telecomunicações, automóveis que incorporam limitações de velocidade são contratos inteligentes que, inclusive, já existiam antes do surgimento do primeiro blockchain em 2009.

Contratos inteligentes e o surgimento de DeFi

Foi a tecnologia blockchain, principalmente com o Ethereum, que ampliou significativamente a qualidade e as possibilidades de uso dos contratos inteligentes, proporcionando transparência nas transações, desintermediação de terceiros, automação e na execução de obrigações, imposição de penalidade a quem violar regras de contratação, gerenciamento de ativos com maior eficiência, tokens e direitos de acesso entre duas ou mais partes.

A partir daí, um número crescente de desenvolvedores passou a produzir dApps (aplicativos descentralizados) sofisticados para vários casos de uso financeiro, buscando criar uma alternativa aos serviços financeiros existentes.
Tais casos de uso variam de transações simples (ou seja, pagamentos ponto a ponto) a aplicativos muito mais complexos e com várias partes, como empréstimos, negociação de ativos, seguro, trocas, tokenização de ativos e muito mais.
Paralelamente, o setor financeiro baseia a maioria de suas atividades em acordos contratuais tradicionais, de maneira centralizada que exige uma estrutura de gerenciamento de risco para resolver problemas de confiança e assimetria nas transações.

Ora, os custos são substanciais para manter uma infraestrutura de gerenciamento de risco, projetada para verificação de identidade, autenticação de transações confiáveis ​​e precisas, suporte de registros e armazenamento seguro de registros.

Todas essas atividades só existem para garantir a confiança das negociações, e evitar fraude e erro, e demandam capital e garantias substanciais que ficam bloqueados para conferir certeza e previsibilidade de resultados no mundo dos negócios.

Neste contexto, contratos inteligentes em blockchain vieram para trazer possibilidades e soluções como DeFi.

Os contratos inteligentes são linhas básicas de código armazenadas em um blockchain e executadas automaticamente quando certas condições são atendidas, permitindo que os desenvolvedores criem dApps financeiros altamente escaláveis, seguros e de baixo custo de execução.

Foi assim que a evolução dos contratos inteligentes a partir dos blockchains de 2ª geração, uma ferramenta essencial para todos os desenvolvedores de blockchain, acelerou a adoção da tecnologia de blockchain e contribuiu para o surgimento e o ímpeto crescente da indústria DeFi como um todo.

Isto quer dizer que não existe DeFi nos blockchains de 1ª geração como Bitcoin? Sempre é bom lembrar que a tecnologia não é estática, e está sempre em desenvolvimento.

BitFi: contratos inteligentes complexos permitem DeFi em Bitcoin

Apesar do Bitcoin, quando surgiu, ser um blockchain de propósito único com um único contrato inteligente, hoje já é possível DeFi em Bitcoin.

BitFi, Bitcoin DeFi, DeFi para Bitcoin, ou como você prefira chamá-lo, saltou para o centro das atenções quando o  Protocolo Injective anunciou  que será integrado ao “Stacks 2.0” para dar aos usuários acesso a novos “derivativos” baseados em Bitcoin.

O Stacks 2.0 é um blockchain da camada 1 que usa o blockchain BTC como uma camada base. O Proof-of-Transfer permite o consenso entre dois blockchains, Bitcoin e Stacks, criando uma conexão nativa que permite inovar no Bitcoin sem nunca o modificar.

Junto com Stacks 2.0 também vem uma nova linguagem de programação chamada Clarity, que oferece aos desenvolvedores uma maneira segura de construir contratos inteligentes complexos, onde o próprio código mostra claramente o que o programa fará quando executado (daí o nome).

Ao integrar o Stacks, o Protocolo Injective permite aos usuários criar “perpetual contracts” and “expiry futures” e mercados futuros de vencimento para derivativos exclusivos do Bitcoin que, na verdade, estão vinculados à própria rede Bitcoin.

Por meio do ecossistema Injective, os traders poderão participar livremente em novas formas de criação de mercado, como contratos futuros e perpétuos em redes distintas.

Além da Stacks, a equipe começou a trabalhar em integrações com outros blockchains importantes, como  BSC, Polkado t,  Avalanche e NEAR.

Com Stacks, eles serão capazes de lançar derivativos com base no token Stacks (STX) ao lado de ativos nativos construídos no blockchain Stacks, efetivamente criando uma “bridge” (ponte) que permite a criação de mercado e negociação para STX, bem como outros tokens baseados na Rede Bitcoin.

Esta iniciativa mostra como o futuro do DeFi é aberto, colaborativo e não poderia deixar de incluir o Bitcoin, atualmente o mais antigo, descentralizado e seguro blockchain existente.

Desafios para a adoção em DeFi

As opções de contratos inteligentes existentes ainda trazem desafios a serem superados para que os dApps financeiros ganhem o mainstream, como por exemplo:

  • Custos de alta execução: as taxas necessárias para interagir e executar contratos inteligentes em redes legadas são muito altas, muitas vezes colocando a viabilidade econômica em questão e criando uma barreira à entrada que mina a segurança do blockchain, incentivando ataques cibernéticos.
  • Escalabilidade e velocidade: os tempos de consenso dos blockchains de primeira geração permanecem bastante lentos, tornando impossível escalar para milhões de usuários, uma vez que a velocidade lenta das transações causa congestionamento e alimenta a falta de confiança na rede.
  • Problemas de segurança: contratos inteligentes legados têm uma série de bugs que podem colocar ativos em um contrato inteligente em risco.
  • Regulação: as plataformas DeFi não estão sujeitas às mesmas regulamentações que as empresas de serviços financeiros convencionais? Não estariam sujeitas a leis de valores mobiliários e outros requisitos de compliance?

Os benefícios dos aplicativos DeFi são grandes e promissores. O DeFi dá ao mundo acesso a um número essencialmente ilimitado de produtos e serviços financeiros, ajudando 1,7 bilhão de pessoas que não têm conta bancária em todo o mundo, inclusive nos países ricos (25% dos EUA não têm conta bancária ou não têm conta bancária).

Como contratos inteligentes podem ajudar em DeFi

Vejamos abaixo alguns exemplos de como contratos inteligentes são usados nas finanças descentralizadas.

1. Garantia

Nas finanças tradicionais, uma conta de custódia é aquela em que os fundos são mantidos bloqueados pelo smart contract até que algum evento predeterminado ocorra ou algum conjunto de condições tenha sido cumprido.

Um exemplo de um aplicativo DeFi com base em garantia: Alice precisa de um empréstimo e seu credor Bob o fornece com a condição de que ela coloque outro ativo em uma conta de garantia que Bob possa reivindicar caso Alice não possa pagar (uma espécie de empréstimo garantido). Neste caso, os fundos podem ser liberados pelo contrato inteligente em uma de duas condições: 1) se Alice não pagar o empréstimo após um determinado período, Bob pode reivindicar o ativo de Alice; 2) se Alice paga o empréstimo antes de expirado o período, Alice pode resgatar seu ativo da conta de garantia.

O evento ou condição que “desbloqueia” os fundos, nas finanças tradicionais, é geralmente governado por um intermediário centralizado e confiável, como um banco e, portanto, está sujeito a altas taxas e atrito de transferência.

No blockchain Algorand, esse mesmo conceito é implementado usando Stateless Smart Contracts como contas de garantia. Com essa tecnologia, as mesmas duas condições necessárias para a liberação dos recursos são codificadas e, assim, garantidas, pela lógica da própria conta do contrato inteligente, eliminando a necessidade de uma autoridade centralizada para determinar se uma condição foi cumprida e, em seguida, liberar transação. Reivindicar fundos quando as condições são atendidas por meio de uma conta de contrato inteligente no Algorand é, então, uma transferência atômica simples, levando menos de 5 segundos com taxas de menos de um centavo.

2. Sintéticos

Os ativos de criptomoeda sintética permitem que os investidores usem suas participações em criptomoedas para comprar participações em vários ativos, como moeda fiduciária ou commodities como ouro, sem deixar o ecossistema blockchain. Mais interessante, eles fornecem uma maneira para os investidores mitigarem a volatilidade de seus ativos criptográficos enquanto preservam a velocidade e as vantagens de segurança de investir em uma DeX (corretora descentralizada).

Tudo isso é possível por meio da implementação de contratos inteligentes que atrelam as participações de um token nativo ao valor de um ativo sintético e ajustam essa participação em um valor equivalente quando o valor do ativo aumenta ou diminui. Os sintéticos estão ajudando a impulsionar o movimento DeFi, pois oferecem aos investidores de todo o mundo acesso aberto aos sistemas financeiros tradicionais, sem a necessidade de jamais possuir uma participação real no ativo.

3. Stablecoins

Assim como os ativos de criptomoeda sintética, o principal apelo das stablecoins é que elas minimizam o risco de altos níveis de volatilidade das moedas digitais assumidas pelas partes interessadas. Essa maior volatilidade é um dos maiores obstáculos que retardam a adoção generalizada de moedas digitais, pois as pessoas hesitam em investir em tokens onde o valor não é comumente aceito como padrão.

Créditos da Imagem: Tatiana Revoredo

As Stablecoins reduzem drasticamente o risco assumido pelos investidores, já que os Stablecoins são atrelados a ativos estáveis, como o USD ou o EURO, usando contratos inteligentes. Dessa forma, as partes interessadas poderão experimentar todos os mesmos recursos de velocidade, segurança e interoperabilidade de um token nativo, sem correr mais riscos.

Tether e USDC, dois dos stablecoins líderes da indústria, já foram lançados nos blockchains Ethereum, EOS, Liquid Network, Omni, Tron, Bitcoin Cash, Solada, e no protocolo Standard Ledger do Algorand, permitindo que organizações e instituições financeiras criem aplicativos rápidos e escaláveis ​​em blockchains com risco de contraparte reduzido.

4. Crédito e empréstimo

Os aplicativos DeFi apresentam uma vasta gama de soluções para os problemas modernos, mas um dos aplicativos mais valiosos está no espaço de crédito e empréstimo. A natureza descentralizada, e segura dos blockchains abre novas oportunidades de empréstimo para indivíduos que não têm acesso a serviços financeiros tradicionais.

Os empréstimos em um ambiente financeiro descentralizado permitem que os mutuários contornem as limitações normais de empréstimos de uma empresa centralizada, como uma pontuação de crédito ruim. No entanto, os credores não podem confiar cegamente nos tomadores sem algum tipo de intermediário.

Tradicionalmente, esse processo de validação exigiria um terceiro que cobra uma taxa adicional, mas os contratos inteligentes oferecem a proposta de valor de substituir esse intermediário por linhas de código autoexecutáveis ​​que aceitam ou rejeitam se as condições do contrato forem atendidas.

Devido à falta de custos de conformidade associados à integração de contrato inteligente, as organizações serão capazes de oferecer mais crédito a um custo menor. Como resultado, mais pessoas terão acesso a empréstimos mais baratos e mais adequados às suas necessidades.

5. DEXs e Liquidez

As exchanges descentralizadas (DEXs) são construídas em blockchain e permitem transações contínuas entre pares que consistem no token nativo do blockchain.

São o tipo mais popular de dApp, como podemos ver no gráfico abaixo detalhando o crescimento do DeFi por plataforma. DEXs permitem que os usuários comprem, vendam e troquem diferentes tokens construídos em um blockchain específico (principalmente Ethereum) diretamente entre as carteiras uns dos outros para maior privacidade e segurança.

Créditos da imagem: Chainalysis

O contrato inteligente embutido nas DEXs então combina, verifica e finaliza automaticamente essas transações sem um intermediário. Essas bolsas oferecem maiores níveis de liquidez aos investidores, pois os investidores podem trocar ativos digitais em questão de segundos para qualquer uso para o qual possam ser necessários.

Por exemplo, digamos que Alice precisa pagar a Bob. Bob só aceitará Algos (ALGO) como meio de pagamento, mas Alice só tem Bitcoin (BTC) em sua carteira digital. Entretanto, por meio de uma corretora descentralizada, Alice consegue fazer essa troca em segundos e ter acesso aos seus Algos recém-adquiridos, que pode então enviar para Bob. As DEXs levam a uma maior interoperabilidade entre as cadeias blockchains e serão parte integrante da adoção predominante de moedas digitais.

6. Poupança Alternativa

Uma conta de poupança alternativa tem o mesmo propósito que uma conta de poupança tradicional fornecida por um banco, na medida em que os fundos colocados nessas contas são transferidos para pools de moeda a serem emprestados a tomadores dispostos a emprestar.

A partir desse pool, os mutuários obtêm acesso aos fundos e os credores colhem os frutos. Essas contas de poupança alternativas são criadas usando contratos inteligentes, oferecendo uma ampla gama de vantagens em relação às contas de poupança tradicionais.

Uma vez que os contratos inteligentes são autoexecutados, não há necessidade de um intermediário que, de outra forma, receberia uma parte dos juros ganhos com os fundos emprestados. Com a poupança DeFi, as recompensas serão distribuídas aos titulares de contas de poupança com base no valor dos juros acumulados dos empréstimos. Onde normalmente uma conta de poupança tradicional resultará em um APY de cerca de 1%, algumas contas de poupança alternativas podem ganhar um APY de mais de 5%.

Por fim, esses aplicativos fornecem acesso a novos veículos de investimento para os que não têm conta bancária e permitem que seus fundos entrem no ecossistema financeiro global. Também permite que indivíduos que não estão totalmente familiarizados com moedas digitais tirem proveito de seus benefícios, acumulando taxas de juros mais altas sobre os fundos depositados, em vez de investi-los com conhecimento limitado.

7. Soluções de Pagamento

Os aplicativos baseados em pagamento têm o objetivo principal de transferir fundos de uma parte para outra.

A negociação de ativos entre duas ou mais partes requer confiança de que a outra parte cumprirá sua parte. Para mitigar esse risco, geralmente usamos um intermediário confiável, como um banco, para promover e garantir a troca. Esse banco centralizado geralmente vem com taxas altas e tempos de transferência lentos, especialmente para transferências internacionais.

Em um blockchain, a transação garantida de dois ou mais ativos é simplificada em uma simples inovação tecnológica que não requer a confiança na outra parte e nem em um intermediário centralizado. É chamado de atomic swaps, ou transferência atômica em português.

Essas transferências atômicas podem ser usadas com qualquer tipo de transação, incluindo pagamentos, transferências de ativos, via contrato inteligente.

8. Mercados de previsão

Os Prediction Markets permitem que os usuários comprem e vendam ações no resultado de um evento, como a próxima eleição presidencial dos Estados Unidos ou quando uma vacina para COVID-19 for 100% segura.
Os mercados de previsão de hoje são centralizados, o que significa que geralmente uma entidade centralizada está confirmando ou negando a ocorrência de um resultado de evento, abrindo a porta para atividades fraudulentas em potencial.

Com mercados de previsão descentralizados, milhares de usuários relatam o resultado de um evento, garantindo que o resultado seja preciso. Esta implementação de “Sabedoria da Multidão” cria as probabilidades associadas a um determinado resultado, tornando esses mercados mais justos, pois há menos risco de manipulação de linha por um mau participante.

A única coisa sobre os mercados de previsão descentralizados é que não há limitações no que você pode “apostar” e nenhum limite no valor que você pode apostar.

Frequentemente, os mercados de previsão centralizados podem manipular a capacidade do usuário de ganhar, colocando limitações no tamanho de uma aposta. Isso garante que a empresa centralizada não sofrerá perdas excessivas, mas também reduz drasticamente as chances de obter lucro para o usuário que faz a aposta.

Os contratos inteligentes removem intermediários centralizados da indústria do mercado de previsão, resultando em taxas de transação mais baixas e fundos mais seguros, já que seus fundos não são mantidos por terceiros e podem ser retirados a qualquer momento.

Assim que o resultado de um evento for relatado, o contrato inteligente automatizado será executado e, se os usuários estiverem corretos com sua previsão, distribuirá a quantia apropriada de fundos.

Portanto, aplicar a lógica de contrato inteligente aos mercados de previsão cria uma experiência de usuário sem atrito, onde qualquer previsão pode ser transformada em um mercado personalizado pela comunidade.

9. Marketplaces

Os mercados online de hoje são dominados por entidades centralizadas, como Amazon ou eBay, que ditam os termos de troca no site e recebem uma comissão por todas as transações feitas em sua plataforma.

Os mercados descentralizados (decentralized marketplaces), movidos por contratos inteligentes, são redes ponto a ponto em que os vendedores podem vender seus produtos diretamente aos compradores, sem a presença de intermediários.
Além disso, quando o controle sobre o mercado é centralizado, ele deixa o mercado exposto, pois os hackers podem implantar grandes quantidades de poder de computação para potencialmente manipular o servidor.

Possibilidades

Os contratos inteligentes dão aos usuários o poder de ditar os termos da transação entre si e de proteger esses termos de troca de atividades fraudulentas em todo o processo de uma transação comercial.

Logo, contratos inteligentes podem ser usados ​​para criar aplicativos financeiros descentralizados independentes ou melhorar os processos atuais das finanças tradicionais que conhecemos e usamos amplamente hoje.

Por exemplo, digamos que haja uma disputa em um mercado existente entre um comprador e um vendedor, o contrato inteligente seria facilmente capaz de resolver a disputa, pois os ativos em negociação não são liberados até que todas as condições do acordo criado anteriormente sejam atendidas.

Outra questão que as finanças descentralizadas resolvem é a da privacidade dos dados, já que não há necessidade de compartilhamento de informações sigilosas entre os usuários da rede e um intermediário para verificação. Essas informações não precisam ser trocadas porque os contratos inteligentes, executados corretamente, não permitem a ocorrência de comportamento fraudulento, pois as condições codificadas no smart contract devem ser atendidas para que uma transação seja finalizada.

Em suma, os contratos inteligentes impulsionam as finanças descentralizadas do futuro, que oferecem aos usuários acesso aberto a um mercado global de mercadorias de uma forma mais barata, eficiente e segura.


Este artigo foi produzido por Tatiana Revoredo, membro fundadora da Oxford Blockchain Foundation, representante no European Law Observatory on New Technologies e colunista da MIT Technology Review Brasil.

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