Você precisa conhecer as batalhas de robôs
Humanos e tecnologia

Você precisa conhecer as batalhas de robôs

Esporte praticado há três décadas é ainda desconhecido do grande público, mas desperta interesse de grandes players dos e-sports e impulsiona o desenvolvimento tecnológico e a inovação.

O universo da robótica é ainda incompreendido, seu range de atuação está em franco crescimento, mas ainda desconhecemos os seus limites. Dentro deste magnífico universo, estão as batalhas (ou combates) entre robôs. Nos quais criaturas robóticas são desenvolvidas, construídas e controladas por humanos para se digladiarem até a “morte”!

As batalhas de robôs já estão entre nós há quase três décadas e atraem um número expressivo de admiradores e competidores por todo o mundo. Entretanto, a reação inicial de muitas pessoas ao serem questionadas sobre o esporte cibernético ainda pode ser de espanto, ou até mesmo de dúvida sobre a utilidade de tal para a sociedade e a ciência.

As necessidades humanas de competir, lutar e desafiar seus limites estão presentes em toda a história da evolução. Os combates estiveram presentes em todas as civilizações, com grande relevância nas cerimônias, caças, defesas das aldeias, tribos e em festividades. Desde então, inúmeras artes marciais foram criadas e espetáculos para a satisfação dos desejos humanos ganharam relevância. O Império Romano com suas arenas e combates brutais entre gladiadores que deixavam os espectadores em êxtase, dentro, claro, de todo contexto cultural, ético e histórico, foi precursor de eventos e competições modernas de lutas como o Boxe e o MMA.

Gladiadores lutando no Coliseu: Apaixonados por história


Imagens de divulgação filme Gigantes de Aço (2011): DreamWorks Pictures

As origens da batalha

O surgimento do esporte robótico tem origem na cidade de São Francisco, na California (EUA), e está indiretamente atrelado ao grande sucesso de StarWars nos cinemas. Em 1979, Marc Thorpe, um jovem designer, foi contratado pela LucasFilm, para trabalhar nos desenvolvimentos dos animatrônicos da franquia iniciada em 1977, onde se consolidou como criador e foi chefe de modelos até 1994.

Durante suas criações para o cinema, resolveu colocar controle remoto e motores em um aspirador de pó, que não funcionou como esperado para a realização da tarefa original, porém causou uma grande confusão no estúdio de criação, acendendo a faísca da criatividade de “por que não projetar máquinas para lutarem entre si?” Mas como a vida real não é cinema, não foi tão simples assim. Marc Thorpe conta em sua página pessoal, que no final de 1992 começou a gerar imagens de máquinas de combate para que as pessoas pudessem entender o conceito e gerar empolgação. Assim, espalhou anúncios em revistas de design e automodelo, e recebeu 70 formulários de inscrição que se transformaram em 17 inscrições reais.

O primeiro evento ainda demorou mais dois anos para realmente acontecer, devido à falta de apoio e de recursos. Até que, após uma entrevista para a revista WIRED, em fevereiro de 1994, o jogo mudou por causa do estrondoso sucesso do artigo que fez parcerias surgirem. O primeiro evento foi realizado com chave de ouro levando o público ao delírio.


Cartaz de divulgação 1º Robotwars: Site pessoal Marc Thorpe

O sucesso foi tão grande que em 1995, em parceria com uma produtora inglesa, a competição foi levada para o continente europeu, dando origem ao programa de TV ROBOTWARS, um grande sucesso de audiência pela BBC.

Marc Thorpe ao mesmo tempo que os deixou “órfãos” levando o esporte para o Reino Unido, acendeu uma chama que incendiou a criatividade e paixão de engenheiros, designers, construtores e amantes da robótica da cidade de São Francisco e região, fazendo com que outras competições de combate entre robôs acontecessem. Até que em 1999, Greg Munson e Edward P. Roski (Trey), antigos competidores da ROBOTWAR, fundaram a BATTLEBOTS.

Rapidamente a recém criada competição ganhou o público e se transformou em um programa de TV pela Comedy Central, sendo líder de audiência por três temporadas. Em 2002, após a exibição da sua quinta temporada, o programa foi cancelado, retornando a TV apenas em 2015 pela a emissora ABC e migrando para o Discovery Channel em 2018, onde ainda é exibido para mais de 150 países, incluindo o Brasil sendo exibido pelo Discovery Turbo.


Imagens de divulgação Battlebots: Batlebots.com/wiki

Reparem que entre 2003 e 2015 existiu um gap de exibição da BATTLEBOTS, mais uma vez os amantes e competidores ficaram sem uma grande competição para mostrar suas criações e combaterem. Eventos com menor expressão continuavam acontecendo ao redor do mundo, incluindo o Brasil, porém ainda sem grande representatividade global. David Calkins, apaixonado por robótica, professor da San Francisco State University, também ex-juiz do show de TV BATTLEBOTS e Co-fundador da RFL (Robot Fighting League) é o responsável por uma destas iniciativas, a ROBOGAMES, que surgiu com o objetivo de ser a Olimpíada dos esportes robóticos, englobando outras competições como sumo, hockey, futebol, luta entre humanoides e outros.

O combate de robôs sempre teve o destaque principal, reunindo competidores de 39 países. Em 2005 entrou para o  Guinness Book of World Records, como a maior competição de robótica do mundo, sendo superada somente 11 anos depois pela VEX Worlds em 2016.


Imagens de divulgação Robogames: Robogames.net

Como nas lutas entre humanos, seja o BOX ou o MMA, as lutas entre os robôs também são realizadas de acordo com as categorias de peso dos robôs. Atualmente existem competições com categorias de peso desde 150g (Peso Fada) até 113Kg (Peso Pesado). O objetivo do confronto é desabilitar o adversário, seja o destruindo totalmente ou o deixando inoperante em um round que pode durar até 3 minutos. Caso o nocaute não aconteça, a decisão sobre o vencedor do confronto cabe a 3 juízes, que julgam de acordo com critérios previamente definidos, que podem ter pequenas variações nas diversas organizações — princípios como dano causado no adversário e agressividade dos robôs durante o round são os principais.

Apesar de serem os robôs que lutam dentro de uma arena totalmente blindada, independentemente da categoria de peso, eles são controlados por humanos. Os pilotos, possuem um grande destaque sendo responsáveis por todas as ações e manobras realizadas pelos robôs.

As equipes participantes são formadas por engenheiros, designers, makers e estudantes dos mais variados níveis. É muito comum ver nos eventos, por exemplo, um estudante de ensino médio competir de igual para igual com um engenheiro de uma grande companhia de tecnologia como SpaceX, NASA ou Amazon. O esporte permite este tipo de interação e troca de conhecimento, mesmo havendo uma grande disparidade entre o nível acadêmico dos competidores.

A base de fãs do esporte robótico abrange desde crianças a C-Levels, com uma comunidade crescente de entusiastas e construtores. Elon Musk e Jeff Bezos são exemplos de grandes líderes, que são declaradamente fãs das batalhas de robôs. Bezos inclusive realizou uma competição em sua prestigiosa conferência re:MARS Robotics/space/AI.

Plateia Battlebots: Fonte do autor

Elon Musk e Jeff Bezos: Fonte Wiki

Recentemente a Battlebots realizou nos EUA a estreia da sexta temporada transmitida pelo Discovery Channel. O Brasil conta com a participação de duas equipes, a carioca Riobotz com o robô Minotaur (113kg) e a equipe mineira Uairrior (113kg) com o robô Black Dragon. Outra competição que está fazendo bastante sucesso nos EUA é a Norwalk Havoc, que ocorre mensalmente próximo a Nova York e transmite todas as lutas ao vivo em seu canal no Youtube. Nessa competição, novatos têm a chance de disputar com lendas do esporte, porém em categorias de pesos menores (1,4kg, 5,4kg e 13,6kg).


Minotaur e Black Dragon: Fonte Battlebots

No Brasil, o esporte começou a ser praticado em 2003, quando a primeira competição foi realizada no extinto encontro nacional de estudantes de controle e automação (ENECA). Desde então diversas competições foram realizadas, tendo como público alvo principalmente equipes universitárias, que ainda são os principais times do cenário brasileiro como Riobotz (PUC-Rio), Uairrior (Unifei), Troia (UFLA), Thunderatz(USP), Trincabotz (Cefet-MG) entre outras. Entretanto, assim como nos EUA, com a difusão do esporte e da cultura maker, muitas equipes independentes de instituições começaram a participar dos eventos. Outro fator que está inserindo novos competidores nesse esporte é a difusão de escolas de robótica voltadas para crianças e adolescentes.

Por que o interesse de universidades, escolas e empresas pelo esporte?

O aprendizado gerado nas competições é algo ímpar, além de todo o conhecimento técnico utilizado na construção dos robôs, os integrantes das equipes aprendem lições de liderança, trabalho em equipe, trabalho sobre pressão, gerenciamento de projetos e recursos, captação de recursos e marketing. Por mais que o objetivo principal do esporte seja simples, manter uma equipe competitiva e atuante não é trivial, dando uma experiencia diferenciada para os participantes, que no caso de jovens estudantes acaba sendo uma formação complementar, se tornando um profissional altamente qualificado para o mercado de trabalho.

Hoje as principais competições nacionais são organizadas pela Robocore e pela Liga Brasileira de Robótica (LBR), fundada em 2019 com o objetivo de regulamentar e difundir o esporte robótico no Brasil. Atualmente as categorias existentes no Brasil são: 150g, 454g, 1,4kg, 5,4kg, 13,6kg e 27Kg. Devido ao alto nível de segurança exigido para as arenas, a categoria de 113kg não é praticada na América Latina, devido à falta de uma arena que comporte os robôs. Existem algumas ações para viabilizar a construção de uma arena nível Battlebots no Brasil com robôs de 113kg, porém ainda não é uma realidade.


Cards dos robôs da LBR: Fonte do autor

Quanto custa construir um robô para participar das competições?

Os custos dependerão de cada projeto e principalmente da categoria de peso que o robô irá competir. Hoje, com a impressão 3D cada vez mais acessível, é possível construir robôs totalmente impressos para as categorias de 150g e 454g, que são consideradas categorias de entrada no esporte gastando cerca 500 reais. Entretanto, quanto maior a categoria de peso, mais elevados são os custos, que podem chegar facilmente a 300 mil reais no caso dos robôs de 113kg que participam na Battlebots.

A batalha de robôs é um esporte incrível, que está em pleno crescimento no Brasil e no mundo. Empresas ligadas ao mercado de e-sports estão observando este mercado que possui grande potencial comercial, tecnológico e esportivo. Talvez um dia veremos o esporte no nível da ficção mostrada no filme Gigantes de Aço, que recentemente confirmou a produção de uma série com o tema.


Este artigo foi produzido por Daniel Freitas, Consultor de Sistemas Robóticos na Ouro Negro S.A. e colunista da MIT Technology Review Brasil.