Útero humano é mantido vivo fora do corpo pela primeira vez
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Útero humano é mantido vivo fora do corpo pela primeira vez

Equipe por trás do feito planeja estudar distúrbios uterinos e estágios iniciais da gravidez. E desenvolver fetos

“Pense nisso como um corpo humano”, diz Javier González.

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À minha frente está uma caixa de metal sobre rodas. Com cerca de um metro de altura, ela me lembra um balcão de aço inoxidável em uma cozinha de restaurante. Está coberta por tubos plásticos flexíveis, que atuam como veias e artérias, conectando uma série de recipientes transparentes; os órgãos dessa máquina.

O que a torna ainda mais especial é o papel do recipiente de cor creme que fica sobre sua superfície. Há dez meses, González, um cientista biomédico que desenvolveu o dispositivo com seus colegas na Fundación Carlos Simón, organização em Valência, na Espanha, colocou cuidadosamente um útero humano recém-doado no recipiente. A equipe o conectou aos tubos do dispositivo e bombeou sangue humano modificado.

O dispositivo manteve o útero vivo por um dia. Um novo feito, que pode representar o primeiro passo para a manutenção deste órgão fora do corpo humano a longo prazo. O trabalho ainda não foi publicado.

Os membros da equipe querem manter úteros humanos vivos por tempo suficiente para observar um ciclo menstrual completo. Eles esperam que isso os ajude a estudar doenças, e a aprender mais sobre como embriões se fixam no revestimento do órgão no início de uma gravidez. Também se espera que futuras versões de seu dispositivo possam um dia sustentar toda a gestação de um feto humano.

A máquina é tecnicamente chamada de PUPER, sigla para “preservation of the uterus in perfusion” (“preservação do útero em perfusão”, em português). Mas o colega de González, Xavier Santamaria, diz que a equipe adotou um apelido para ela: “Nós a chamamos de ‘Mother’ (em português, mãe)”.

O órgão na máquina

González e Santamaria, vice-presidente médico da Fundación Carlos Simón, demonstraram como o dispositivo poderia funcionar quando visitei a fundação, no início deste mês, embora ele não contivesse órgãos naquele dia.

Ambos estão interessados em aprender mais sobre a implantação, o momento em que um embrião se prende ao revestimento de um útero, essencialmente, o primeiro momento da gravidez.

Carlos Simón, fundador e diretor da fundação, acredita que esse é um ponto crítico na fertilização in vitro: os cientistas fizeram muitas melhorias na tecnologia ao longo dos anos, mas a falha dos embriões em se implantar está por trás de muitos ciclos mal-sucedidos de fertilização in vitro, diz. Ser capaz de estudar cuidadosamente como o processo funciona em um órgão real e vivo pode dar à equipe uma ideia melhor de como evitar essas falhas.

A equipe se inspirou em avanços em tecnologias projetadas para manter órgãos doados para transplante. Nos últimos anos, pesquisadores de todo o mundo criaram dispositivos que fornecem nutrientes e filtram resíduos para que os órgãos possam sobreviver por mais tempo depois de serem removidos dos corpos dos doadores.

O principal objetivo aqui é ganhar tempo. Um órgão humano pode durar apenas algumas horas fora do corpo, então um transplante pode exigir uma preparação frenética para o receptor, às vezes no meio da noite. Com um pouco mais de tempo, os médicos poderiam encontrar melhores compatibilidades entre doadores e pacientes e potencialmente testar a qualidade dos órgãos doados.

Essa abordagem é chamada de perfusão normotérmica, ou perfusão por máquina, e já está sendo usada clinicamente para alguns transplantes de fígado, rim e coração.

A equipe da Fundación Carlos Simón construiu uma máquina semelhante para úteros. Uma bolsa de sangue fica pendurada em um dos lados. Dali, o sangue é transportado por tubos plásticos até uma bomba, que funciona como o coração. A bomba conduz o sangue por um oxigenador, que adiciona oxigênio e remove dióxido de carbono, como os pulmões fariam em um corpo humano.

O sangue é aquecido e passa por sensores que monitoram os níveis de glicose e oxigênio, junto com outros fatores. Ele passa por um “rim” para remover resíduos. E, finalmente, o sangue chega ao útero, conectado às suas próprias “artérias” e “veias” plásticas. O próprio órgão fica inclinado, assim como no corpo, e é mantido em um ambiente úmido para permanecer úmido.

O primeiro útero da ‘mãe’

A equipe começou a testar um protótipo inicial do dispositivo com úteros de ovelhas, há cerca de quatro anos. Isso significava transportar a máquina até um centro de pesquisa animal em Zaragoza, a cerca de 320 quilômetros de distância da fundação. Ao longo do estudo preliminar, cirurgiões veterinários removeram os úteros de seis animais e os conectaram à máquina. Eles mantiveram cada útero vivo por um dia, usando sangue das ovelhas.

Depois desses experimentos, os pesquisadores levaram sua máquina de volta para Valência e a modificaram para chegar à sua encarnação atual, “Mother”. Eles começaram a trabalhar com um hospital local que realizava histerectomias. E, em maio do ano passado, receberam a oferta de seu primeiro útero humano.

A equipe precisava agir rapidamente. “Você precisa colocá-lo [o útero na máquina] dentro de, no máximo, algumas horas após a extração”, diz Santamaria. Ele e seus colegas também precisavam conectar delicadamente os vasos sanguíneos do útero aos tubos, tomando cuidado para evitar qualquer obstrução, a coagulação é um grande desafio na perfusão de órgãos. O órgão foi conectado a sangue humano obtido de um banco de sangue.

Pareceu funcionar, pelo menos temporariamente. “Nós o mantivemos vivo por um dia”, conta Santamaria.

“Como prova de conceito, isso é impressionante”, avalia Keren Ladin, uma bioeticista que tem se concentrado em transplante e perfusão de órgãos na Tufts University, universidade nos Estados Unidos. “Ainda estamos nos primeiros dias.”

Pode não parecer muito, mas 24 horas é bastante tempo para um órgão ficar fora do corpo. Manter um útero doado pode ampliar as opções para transplante do órgão. Um procedimento relativamente novo, oferecido a algumas pessoas que querem engravidar, mas não têm um útero funcional, diz Gerald Brandacher, professor de cirurgia de transplante experimental e translacional na Medizinische Universität Innsbruck, universidade médica na Áustria.

“É melhor do que o que temos atualmente, porque temos apenas algumas horas”, comenta. Até agora, a maioria dos transplantes de útero tem sido operações planejadas envolvendo órgãos de doadores vivos. Uma tecnologia como essa poderia permitir a doação por pessoas falecidas, afirma.

Esse trabalho “não está no pipeline imediato” da equipe na Espanha, diz Santamaria. “Estamos trabalhando em outros problemas.”

Gravidez em laboratório?

Santamaria, González e seus colegas estão mais interessados em usar úteros humanos mantidos por longos períodos para pesquisa.

Eles instalaram uma câmera em uma parede no canto da sala, apontada para a máquina. Isso permite que a equipe monitore “Mother” remotamente e verifique se alguma válvula se desconecta. Isso já aconteceu antes. Um aumento de pressão fez com que a bolsa de sangue se soltasse, derramando um litro de sangue no chão, diz Santamaria.

Eles gostariam de conseguir manter seus úteros vivos por cerca de 28 dias para estudar o ciclo menstrual e distúrbios que afetam o útero, como endometriose e miomas.

Não será fácil, alerta Brandacher. Até onde ele sabe, ninguém conseguiu manter um fígado por mais de sete dias. “Não há estudos por aí que tenham mostrado a sobrevivência de 30 dias em um circuito de perfusão por máquina”, diz.

Mas vale o esforço. O principal interesse da equipe é aprender mais sobre como os embriões se implantam no revestimento uterino no início de uma gravidez. Eles esperam conseguir testar o processo em seus úteros mantidos fora do corpo.

Mas não poderão usar embriões humanos para isso, diz González, pois ultrapassaria um limite ético. Em vez disso, planejam usar estruturas semelhantes a embriões feitas a partir de células-tronco. Essas estruturas se assemelham de perto a embriões humanos, mas são criadas em laboratório sem espermatozoides ou óvulos.

O próprio Simón tem ambições maiores.

Ele vê um futuro em que uma máquina como “Mother” será capaz de gestar completamente um ser humano, desde o embrião até o nascimento. Isso poderia oferecer um novo caminho para a parentalidade para pessoas que não têm útero, por exemplo, ou que não conseguem engravidar por outros motivos.

Ele reconhece que isso soa futurista, para dizer o mínimo. “Não sei se chegaremos a ter gestações dentro do útero fora do corpo, mas pelo menos estamos prontos para entender todas as etapas para fazer isso”, diz. “É preciso começar de algum lugar.”

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