Transformação Digital e preparação militar
Inteligência artificial

Transformação Digital e preparação militar

No século XXI, a IA tem o potencial de ser tão transformadora quanto as armas nucleares foram na segunda metade do século XX para os Estudos Estratégicos. 

Já é notório que as forças armadas do mundo inteiro não só acompanham, como fomentam algumas das inovações mais transformadoras do meio digital. Não por acaso, o sucessivo progresso tecnológico experimentado nas últimas décadas é acompanhado de uma tendência de alta nas despesas militares em escala global, que desde 2018 atingiram um novo recorde no período pós-Guerra Fria.

Como se sabe, foram os investimentos em ciência e tecnologia em Defesa nos Estados Unidos, por exemplo, especialmente no âmbito da Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (Defense Advanced Research Projects Agency – DARPA), que possibilitaram invenções como o GPS, o touch screen e a própria internet.

No século XXI, vislumbramos agora uma corrida armamentista pela Inteligência Artificial (IA), assim como ocorreu no século passado pelas armas nucleares. A IA tem o potencial de ser tão transformadora quanto as armas nucleares o foram na segunda metade do século XX para os Estudos Estratégicos (Strategic Studies), campo multidisciplinar que estuda como atores do sistema internacional usam meios militares para alcançar objetivos políticos. Mas e as forças armadas brasileiras, como estão se preparando diante desse contexto?

Transição tecnológica

Argumenta-se que o mundo passa hoje por quatro processos transitórios diferentes e concomitantes, que impactam uns aos outros: a transição tecnológica, a transição demográfica, a transição climática e a transição energética. A transição tecnológica, por si só, altera de modo significativo os padrões produtivos e organizacionais, trazendo consigo transformações para o campo militar com a horizontalização relativa das capacidades bélicas.

Deste modo, a Transformação Digital (que vai além do conceito de digitalização), como parte essencial desse processo, impacta diretamente as três esferas do planejamento de guerra: a estratégica, a operacional e a tática.

Além disso, os novos padrões de transporte de dados em rede, como o 5G e o 6G (que já está em desenvolvimento), acelerarão ainda mais a transição tecnológica, a Transformação Digital e a expansão da IA, considerando que o processo de machine learning prospera justamente com grandes quantidades de dados – e as novas gerações de internet móvel e banda larga possibilitarão justamente isso.

Imagens de robôs humanóides da Boston Dynamics praticando parkour viralizaram este ano, movendo-se com agilidade e destreza impressionantes. Também financiados pela DARPA, são programados com finalidades militares. Será esse o futuro da guerra de infantaria – a verdadeira guerra de quinta geração?

A nova tríade estratégica

Para o campo dos Estudos Estratégicos, importa atentar também para a emergência de uma “nova tríade estratégica” em termos de capacidades militares e armas estratégicas como consequência do processo de aceleração das transformações tecnológicas.

O conceito de tríade estratégica surgiu no contexto da Guerra Fria, quando Estados Unidos e União Soviética buscaram elevar as suas capacidades de segundo ataque por meio da diversificação dos meios de entrega nuclear em três níveis: bombardeiros estratégicos (aeronaves de grande porte, como o temido B-52 norte-americano); mísseis balísticos intercontinentais (intercontinental ballistic missile – ICBM); e mísseis balísticos lançados por submarinos nucleares (submarine-launched ballistic missile – SLBM).

No século XXI, da mesma forma que a IA se apresenta como sucessora da corrida nuclear, podemos também vislumbrar uma nova tríade estratégica, esta centrada nas armas de energia dirigida, nos sistemas eletromagnéticos (railguns) e, principalmente, nas armas hipersônicas. Porém, agora, há uma terceira potência na equação: a China.

Em pouco mais de um ano, Pequim testou mais armas hipersônicas que os Estados Unidos em uma década, conforme reconheceu Michael Griffin, engenheiro aeroespecial que serviu como sub-secretário de Defesa dos Estados Unidos durante o governo de Donald Trump. Por esse motivo, Washington está desenvolvendo inovadores sistemas de defesa hipersônica, sob a supervisão e testagem, é claro, da DARPA.

No dia 6 de outubro, uma reportagem exclusiva do Financial Times, que foi posteriormente confirmada por fontes da inteligência norte-americana, revelou que a China testou de forma bem-sucedida um míssil hipersônico com capacidades espaciais no mês de agosto de 2021. O míssil teria circulado o planeta em órbita baixa antes de acelerar em direção ao seu alvo, de acordo com as fontes, “demonstrando uma capacidade espacial avançada que pegou a inteligência dos Estados Unidos de surpresa”. O general Mark Milley, chefe do Estado-Maior dos Estados Unidos,
declarou, em entrevista à Bloomberg, que o teste coloca a China mais próxima de um “momento Sputnik” no século XXI.

Já a Rússia anunciou, também em 2021, o sistema de mísseis hipersônicos Avangard – uma das seis novas armas estratégicas reveladas pelo presidente Vladimir Putin três anos atrás, em 2018. No início de outubro, dois mísseis hipersônicos 3M22 Tsirkon foram lançados pela primeira vez de um submarino nuclear russo, o Severodvinsk. O teste foi feito no mar de Barents, no Ártico. A escolha do local não é por acaso: a Rússia vem intensificando sua presença militar na região, cuja importância estratégica adquire novos contornos à medida que novos pontos de acesso se tornam possíveis com o derretimento das calotas polares.

A simulação como forma de preparo das Forças Armadas

A Transformação Digital acarretou altos investimentos às organizações militares, como visto nos processos de aquisição de novas armas estratégicas, mas também trouxe benefícios econômicos. Desde 2016, estima-se que o Exército Brasileiro tenha economizado aproximadamente R$ 800 milhões em munição por meio de simuladores como ferramenta de preparo da força terrestre.

Existem três tipos distintos de simulação para esse fim: a simulação viva (baseada em sistemas reais operados por pessoas reais); a simulação virtual (baseada em sistemas virtuais operados por pessoas reais); e a simulação construtiva (baseada em sistemas virtuais operados por agentes simulados).

Empresas do ramo tecnológico antes voltadas somente para o entretenimento, como é o caso da companhia checa Bohemia Interactive, já desenvolvem pacotes abrangentes de treinamento militar baseados em jogos comerciais, como o Virtual Battlespace 3 (VBS3), amplamente utilizado por organizações de defesa e segurança no mundo inteiro – inclusive no Brasil, que é referência em simulação militar no Hemisfério Sul, e possui alguns centros de excelência neste sentido, como o Centro de Adestramento Sul (CA-Sul) e o Centro de Instrução de Blindados (C I Bld), baseados em Santa Maria, no Rio Grande do Sul.

A parceria estratégica entre Brasil e Alemanha tornou possível que empresas como a tradicional Krauss-Maffei Wegmann (KMW) se estabelecessem no país para oferecer suporte logístico, manutenção e, também, simuladores dedicados ao carro de combate Leopard – o principal veículo blindado do Exército Brasileiro –, que replicam o ambiente do interior do veículo.

A simulação permite configuração e preparação de cenários e missões de treinamento, parâmetros atmosféricos e climáticos, inserção e edição de objetos, além da configuração avançada da IA. Auxilia na criação de um ambiente mais realístico, enriquecendo o cenário de combate, e permite a mensuração subjetiva de eventos propostos pelos exercícios de adestramento.

O cérebro da IA embutida nas unidades de simulação fornece capacidade de decisão para prever os resultados de suas ações e gerar um plano de ação, executar múltiplas tarefas simultaneamente, adaptar-se a situações inesperadas, adotar um comportamento realístico de acordo com a doutrina e determinar a qualquer momento a melhor ação a ser tomada.

O ambicioso programa Prosub de renovação da frota de submarinos da Marinha do Brasil, por exemplo, contou com a aquisição de simuladores para os novos Submarinos da Classe Riachuelo, de origem francesa. O acordo de transferência tecnológica entre Brasil e França, neste sentido, tem como objetivo equipar a indústria brasileira de defesa com recursos de ponta.

O mesmo ocorreu com o Projeto FX-2 da Força Aérea Brasileira (FAB), que culminou na aquisição do caça de quarta geração Gripen, da empresa sueca Saab AB. Aproximadamente 350 brasileiros, entre engenheiros e técnicos, participaram do programa de transferência de tecnologia, incluindo temporadas na Suécia para receber treinamento com simuladores. Os quatro primeiros caças F-39 Gripen (designação escolhida pela FAB) devem ser entregues até o final deste ano. A previsão atual é de que 36 unidades sejam entregues até 2024.

Tríplice Hélice

É no campo da TD que melhor vislumbramos, hoje, a implementação da chamada “Tríplice Hélice”: consórcios e parcerias que envolvem as Forças Armadas, a universidade e o setor empresarial – que abarca, também, a Base Industrial de Defesa (BID).

No dia 13 de setembro deste ano, ocorreu a Cerimônia de Assinatura do Protocolo de Intenções entre o Ministério da Defesa, a Associação do Parque Tecnológico de São José dos Campos e a Universidade de Brasília. O protocolo busca estimular empresas voltadas à inovação e tecnologia ligadas ao setor de defesa, com aplicação direta na sociedade civil por meio de consórcios e redes colaborativas. Em última análise, ele não só institucionaliza o avanço da Tríplice Hélice nesse setor estratégico, mas também representa um passo importante em busca da autonomia tecnológica.

Nas inovações em simulação perseguidas pela Marinha, vale ressaltar a parceria estabelecida com o Instituto TecGraf, da PUC-Rio. Quanto ao Exército Brasileiro, o Comando Militar do Sul (CMS) possui parcerias consolidadas com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e com a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), entre outras instituições acadêmicas e empresariais.

No âmbito da UFSM, uma das ações que compõem a parceria é o SISASTROS, convênio firmado em abril de 2020 para o desenvolvimento do projeto “Sistema Integrado de Simulação ASTROS – Grupo de Mísseis e Foguetes (SIS-ASTROS GMF)” durante 4 anos.

Já a UFRGS realiza, desde 2015, diversas atividades em parceria com o CMS por meio de seu Núcleo de Estudos Estratégicos (NEE), como o Curso de Simulação de Combate e Blindados. Em 2020 e 2021, o curso contou com o apoio e organização do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (ISAPE) e alcançou aproximadamente 2 mil participantes na modalidade remota. O conhecimento produzido no âmbito dessa atividade de pesquisa e extensão proporcionou algumas das principais inferências apresentadas neste artigo.


Este artigo foi produzido por Guilherme Thudium, Diretor-Presidente no Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia.

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