Apesar da falta de linguagem sobre transição de combustíveis fósseis nos textos finais aprovados na COP30, a transição energética global é um compromisso concreto para muitos países. Vários deles endossando metas ambiciosas para triplicar energias renováveis e nuclear até 2030 e 2050, respectivamente.
Traduzindo para o mercado de trabalho, isso significa construir, operar e manter uma infraestrutura de energia limpa em escala inédita, que depende de profissionais qualificados em todas as etapas do ciclo de vida. A aceleração da transição é evidenciada por dados globais. Segundo a International Energy Agency (IEA), o emprego no setor de energia cresceu 3,8%, em 2023, alcançando cerca de 67 milhões de trabalhadores, impulsionado, principalmente, por tecnologias limpas. Em 2024, esse número chegou a 76 milhões de empregos pelo mundo nessa área, conforme relatório atualizado da própria IEA.
Além disso, o cenário atual é muito diferente do que se via no início da minha formação em engenharia nuclear, quando a imagem dominante era de grandes usinas para abastecer o país, com ciclos longos e pouca interação com outros segmentos. Hoje, o setor está profundamente conectado a empresas de tecnologia ou a data centers, contribuindo para renováveis em massa, novos reatores, redes digitais, armazenamento e integração com indústrias e serviços. Esse novo contexto exige uma formação profissional mais ampla, multidisciplinar e contínua.
A tecnologia energética muda mais rapidamente que a formação
Esse cenário de integração e transformação não se reflete apenas nas demandas por formação profissional, mas também na própria estrutura do setor energético. A evolução tecnológica e a necessidade de respostas mais ágeis impulsionaram mudanças profundas na arquitetura do setor. Reatores nucleares modulares e menores prometem energia firme com padronização industrial e caminhos de licenciamento mais previsíveis. Renováveis escalam, exigem redes digitalizadas e armazenamento. A regulação tornou-se mais densa e transversal. A intersecção entre tecnologias acontece naturalmente, mas o que determina velocidade e qualidade de entrega é gente preparada para integrar saberes, operar sistemas e resolver problemas com segurança. Sem essa base humana, as metas de triplicar renováveis e nuclear ficam expostas a atrasos e custos maiores.
Na prática, a construção de usinas, integração de redes e operação de plantas digitais pedem uma base de talentos maior e mais diversa. Apesar dos dados de crescimento na contratação pelo setor energético limpo, o relatório mais recente da IEA mostra que mais da metade dos 700 sindicatos, empresas e instituições de ensino consultados pela organização reportou gargalos críticos de contratação que ameaçam retardar obras, adiar cronogramas e elevar custos sistêmicos. Além disso, o fator demográfico se torna um desafio. Em vários mercados, há mais profissionais próximos da aposentadoria do que novos ingressantes, o que amplia a urgência de formação e retenção de talentos qualificados. Esse quadro tem um componente demográfico e outro competitivo. O envelhecimento da força de trabalho em muitos países e setores e a nova disputa por capital humano com setores intensivos em eletricidade, como IA, aumentam a urgência por formação e retenção de talentos.
Um novo profissional. Multifacetado, tecnológico e adaptável
Quem é o profissional que vai entregar metas tão ambiciosas com segurança e eficiência? Em geral, alguém com base sólida, confortável em ambientes regulatórios e capaz de aprender continuamente. Porém, algumas novas competências se destacam por sua necessidade de integração em carreiras tradicionais como: digitalização aplicada, integração de sistemas, automação, análise de dados, uso de Inteligência Artificial, além da capacidade de comunicação clara e análise socioambiental para construir confiança pública. Esse perfil nasce de trajetórias que combinam base técnica com prática, projetos integradores e interdisciplinaridade.
Um exemplo da utilização integrada desses tópicos no setor é o uso de Inteligência Artificial para prever falhas em equipamentos, otimizar o consumo em tempo real e integrar fontes renováveis à rede elétrica. Empresas como Google e Microsoft usam IA para reduzir o consumo energético de data centers, enquanto cidades como Barcelona aplicam algoritmos para otimizar a iluminação pública e reduzir o consumo em até 30%.
Há bons exemplos de políticas que alinham desenvolvimento tecnológico e formação de pessoas. No Canadá, programas federais fomentam pesquisa, cadeia de suprimentos e preparação de mão de obra para reatores modulares, inclusive com foco em comunidades e em fornecedores locais. Iniciativas como o Enabling SMR Program financiam pesquisa, cadeia de suprimentos e preparação de mão de obra. Outro exemplo é o Ready4SMR, que cria trilhas de qualificação para fornecedores e trabalhadores. Esses programas aproximam o treinamento de demandas reais da indústria e encurtam o tempo de qualificação profissional para a execução de projetos.
Por que a falta de profissionais ameaça a transição energética?
Apesar do contínuo desenvolvimento tecnológico, o principal obstáculo para o cumprimento dos cronogramas é a escassez de profissionais qualificados. Essa lacuna não decorre apenas da falta de formação, mas também da lentidão das políticas públicas de educação e da baixa integração entre empresas e instituições de ensino. Sem equipes
treinadas, SMRs não saem do papel no prazo. A ausência de técnicos e engenheiros compromete a confiabilidade das fontes renováveis. Além disso, a dependência de sistemas digitais e automação traz riscos adicionais, como vulnerabilidades cibernéticas, que exigem profissionais preparados para garantir a segurança operacional. Relatórios globais apontam que, sem uma abordagem mais ágil e integrada, gargalos e custos tendem a se perpetuar.
Há também uma outra dimensão econômica e social da transição energética. A necessidade de requalificar e realocar trabalhadores para evitar o desemprego estrutural e aproveitar experiência acumulada, podendo até mesmo reduzir o tempo até a plena operação de ativos. Cada megawatt instalado exige múltiplas funções técnicas e regulatórias. Formar e certificar esses perfis com rapidez é tão estratégico quanto financiar turbinas, painéis ou reatores.
No Brasil, o movimento pós-COP30 adiciona urgência. O governo determinou que ministérios elaborem as diretrizes de um mapa do caminho nacional para reduzir gradualmente a dependência de combustíveis fósseis, com a criação de um Fundo para a Transição Energética financiado por receitas de petróleo e gás, a ser encaminhado com prioridade ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). Isso sinaliza a necessidade óbvia de realocação de profissionais hoje vinculados ao setor fóssil e exige planos de formação e certificação para diversas áreas que podem se beneficiar desses profissionais.
Caminhos para suprir a falta de profissionais
Com o cenário apresentado e olhando para o que já está sendo feito por outros países e setores, há várias ações que devem ser implementadas ou expandidas no Brasil:
- Reformular currículos de engenharia e cursos técnicos
Não basta ensinar conceitos tradicionais. É necessário incluir conteúdos atuais e fatores de novas tecnologias nucleares, renováveis, digitalização, segurança e regulação, além de projetos práticos com dados reais. No dia a dia do setor, sistemas automatizados de monitoramento e controle, integrados a sensores inteligentes e IoT (Internet das Coisas), já permitem a gestão eficiente de parques eólicos e solares, otimizando a produção e reduzindo desperdícios.
Com isso, a formação dos profissionais precisa ser adaptada. Um exemplo é a Nuclear Skills Taskforce, do Reino Unido, que tem como um de seus objetivos revisar currículos e criar módulos práticos para preparar profissionais para SMRs e tecnologias digitais aplicadas à energia. Um exemplo no setor aeroespacial é a Airbus. Com a meta de alcançar a aviação de zero emissões líquidas de carbono (Net-Zero) até 2050, e tendo eletrificação como um pilar central dessa estratégia, a empresa desenvolveu programas universitários com foco em eletrificação e sistemas híbridos para aeronaves.
- Criar programas de certificação rápida e credenciais profissionais
Esses programas permitem requalificar profissionais em um curto espaço de tempo, abrindo portas para transições setoriais. Além do exemplo já mencionado do Canadá (Ready4SMR), outros casos na indústria automotiva são o da Volkswagen e da Stellantis, que já oferecem cursos rápidos para preparar trabalhadores para produção de veículos elétricos e baterias.
- Desenvolver programas dedicados a tecnologias emergentes
SMRs, hidrogênio, Inteligência Artificial aplicada à operação e planejamento de matriz energética e sua cadeia de suprimentos devem ser prioridade.
- Promover formação cruzada entre energia e tecnologia da informação
Profissionais de TI podem migrar para confiabilidade de sistemas e automação industrial, enquanto especialistas em energia precisam fortalecer competências digitais. A Siemens e a Schneider Electric, por exemplo, já oferecem programas internos para integrar engenheiros elétricos com especialistas em software industrial.
- Tratar a diversidade como estratégia
Atrair profissionais diverso amplia o reservatório de talento e melhora desempenho em ambientes complexos. A IEA implantou iniciativas para promover a inclusão de mulheres no setor energético. As mulheres representam cerca de 20% da força de trabalho, apesar de comporem 39% da força de trabalho global, mostrando um desequilíbrio significativo. Para enfrentar isso, a IEA priorizou a coleta de dados por gênero, o desenvolvimento de políticas dedicadas e a criação da plataforma Gender and Energy Data Explorer, que acompanha emprego, liderança e inovação com foco em gênero.
- Estimular mobilidade setorial
Profissionais vindos de áreas como construção civil, indústria automotiva e manutenção de equipamentos complexos são fontes valiosas para atender à crescente demanda do setor energético. No setor aeroespacial, por exemplo, técnicos especializados em manutenção de motores convencionais estão sendo treinados para trabalhar com sistemas híbridos e elétricos, como nos projetos de eletrificação da Airbus (Airbus EcoPulse).
Essas práticas demonstram que estratégias bem desenhadas aliadas a parcerias entre governo, universidades e setor privado e ao alinhamento do investimento educacional com indicadores concretos, podem acelerar a formação e reduzir gargalos em áreas críticas.
A energia que acelera a transição é humana
Triplicar renováveis e triplicar nuclear com a implementação de novas tecnologias e a inovação contínua não é apenas uma meta técnica. É uma meta humana. Depende de currículos atualizados, certificações ágeis, parcerias sólidas e, principalmente, de uma visão que trate formação e realocação de profissionais como infraestrutura essencial. Sem gente, nada avança. Com gente preparada, a inovação tecnológica ganha escala, a segurança melhora e os projetos cumprem seus prazos.
É vital que universidades, empresas e governos antecipem demandas e não apenas reajam a elas. O mapa do caminho pós-COP30 e a política de transição no Brasil são oportunidades para colocar a agenda de talentos no centro e acelerar a realocação de profissionais atualmente vinculados ao setor de combustíveis fósseis para os novos trilhos da economia de energia limpa. Afinal, a transição energética será viabilizada por comunidades profissionais que aprendem continuamente, integram saberes e colocam segurança e interesse público no coração das decisões. É só assim que metas ambiciosas saem do papel e viram realidade.
Alice Cunha da Silva é engenheira nuclear com mais de 10 anos de experiência no setor. Atualmente é Vice-Presidente do International Youth Nuclear Congress (IYNC) e participa ativamente de discussões globais sobre energia, com um foco especial no desenvolvimento sustentável e na ação climática.
Formada em Engenharia Nuclear e MBA pela UFRJ, Alice também possui Mestrado pela Universidade de Bordeaux e trabalha como Gerente de Governança de Programas de Capital Estratégicos na multinacional Westinghouse. Dedicada a promover DEI, ela é coautora de dois livros sobre energia e diversidade: Mulheres na Energia e Mulheres Nucleares.
Referências
IEA, COP28 Tripling Renewable Capacity Pledge COP28, Global Renewables and Energy Efficiency Pledge
US Department of Energy, Declaration to Triple Nuclear Energy World Nuclear News, adesões adicionais à declaração
IEA News, 2023, crescimento de 3,8 por cento e 67 milhões Natural Resources Canada,
Enabling SMR Program Ready4SMR [nationalgrid.com][euskills.co.uk] G1,
diretrizes e Fundo para a Transição Energética UOL, grupo interministerial e encaminhamento ao CNPE IEA 2025,
escassez de habilidades e riscos para a implementação
UK Government, taskforce de habilidades nucleares e coordenação intersetorial NRCan,
objetivos e elegibilidade do Enabling SMR Program
Microsoft, PPAs e efeito sobre o mercado de renováveis na Europa e além Microsoft,
parceria para escalar data centers e infraestrutura de energia



