Um livro é publicado. É lido, elogiado por toda a imprensa especializada e chega à seleção do Goncourt, o mais importante prêmio literário da França. Então, surge uma denúncia num perfil de rede social. A suspeita de que o autor, Thélyson Orélien, teria recorrido à Inteligência Artificial para escrever o texto. Ele nega. A controvérsia cresce e o romance acaba eliminado da disputa.
O livro continua exatamente igual. Nenhuma palavra foi mudada após a denúncia. O que mudou foi o que passamos a saber que o autor poderia ter dividido sua história com uma máquina. Se o texto era bom antes, por que deixou de ser depois?
Em 1967, o crítico francês Roland Barthes publicou “A morte do autor”, ensaio que se tornou referência para uma ideia provocadora: uma obra não deveria permanecer aprisionada ao autor. Ela passa a ser do leitor depois de lida. Funda-se o conceito de obra compartilhada.
Quase sessenta anos depois, a Inteligência Artificial entra nessa equação e leva a provocação a outro nível. O que acontece se retirarmos o autor da criação da obra? E se a obra fosse dividida entre homem e máquina? São questões novas em que nunca pensamos antes.
Livrarias estão cheias de autobiografias de políticos, empresários, artistas e esportistas escritas com a participação de ghostwriters. São aqueles profissionais contratados para escrever um texto que será publicado em nome de outra pessoa, sem assumir sua autoria. A vida pertence a um. As palavras, a outro.
Aceitamos sem resistência que presidentes e líderes mundiais façam alguns dos discursos mais importantes da História usando palavras escritas por terceiros. John Kennedy trabalhou com seu assessor Ted Sorensen em seus discursos. A frase “não pergunte o que seu país pode fazer por você”, que atravessou gerações, ficou para sempre na vida dos americanos. As palavras foram de Ted. O momento histórico pertencerá para sempre a Kennedy.
Nada disso parece diminuir automaticamente a autoria de quem assina ou pronuncia essas palavras. Talvez porque autoria nunca tenha significado apenas escrever. Um diretor não opera todas as câmeras de seu filme. Um arquiteto não levanta as paredes de um prédio. Há muito tempo aceitamos diferentes graus de participação na construção de algo que depois atribuímos a um nome.
Então por que a Inteligência Artificial nos incomoda tanto? Talvez porque ela tenha tornado visível uma pergunta que preferíamos deixar escondida: afinal, quem é o dono da história que está sendo contada?
Uma ferramenta de Inteligência Artificial pode pesquisar, organizar documentos, sugerir narrativas e produzir frases melhores do que muitas das que escrevemos sozinhos. O que ela não pode fazer é colocar sua reputação em risco.
O problema não está necessariamente em saber quem apertou as teclas. Ghostwriters e redatores de discursos já nos ensinaram isso. A questão talvez esteja em saber quem tomou as decisões e quem aceita responder por elas.
O episódio do Goncourt continuará cercado pela discussão sobre quanto de Inteligência Artificial entrou naquele livro. Mas a pergunta que ele deixa é maior que o próprio prêmio. Se uma obra era boa antes de conhecermos a identidade de quem a escreveu, por que deixaria de ser depois de saber que foi escrita por uma IA?
Talvez Barthes estivesse certo e a obra possa sobreviver à morte do autor. O que a Inteligência Artificial está nos mostrando, porém, é que nós talvez não estejamos preparados para enterrá-lo. Porque no fim de cada livro, reportagem, discurso ou ideia ainda procuramos alguma coisa profundamente humana. Um nome.
Como nasceu esta coluna
Este mês, o canal de jornalismo que ajudei a fundar completa 30 anos. Nos 28 anos em que trabalhei lá, aprendi a escrever profissionalmente. Foi uma baita escola. Trabalhei com meus ídolos. Verdadeiros heróis do Jornalismo (com “J” maiúsculo, por favor!).
Durante décadas, escrevi muitos textos que foram lidos por terceiros. Minhas palavras foram parar na boca de apresentadores, locutores, repórteres ou entrevistadores. Aprendi que podemos mudar de empresa, de programa e de função. Mas carregamos conosco um patrimônio extremamente frágil: nosso nome.
Quando um jornalista assina uma reportagem, aquela assinatura não quer dizer apenas “eu escrevi este texto”. Ela diz: “Eu apurei. Eu ouvi essas pessoas. Eu conferi esses dados. Eu acredito que esse texto pode ser publicado”. No meu caso, a Inteligência Artificial ajuda muito na pesquisa, na estruturação das ideias e na fluidez do pensamento. A máquina já faz quase tudo. Mas quem assina sou eu. Pelo menos, por enquanto.



