Oferecido por
A expansão das fontes renováveis variáveis tem ampliado os desafios da operação do sistema elétrico brasileiro. Dados do Plano da Operação Energética (PEN 2026), do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), mostram que a amplitude diária máxima da geração hidrelétrica chegou a 46,2 GW nos quatro primeiros meses de 2026. Até 30 de abril, oito dias já haviam tido amplitudes superiores ao máximo de 44,1 GW observado em 2025. Segundo o ONS, a tendência está associada às mudanças no perfil diário de geração e demanda e à crescente participação de fontes como solar e eólica no Sistema Interligado Nacional (SIN).
Mais do que indicar uma limitação da operação atual, esses dados mostram que o requisito de flexibilidade cresce à medida que aumenta a participação de fontes renováveis variáveis, como solar e eólica, e se altera o perfil da geração ao longo do dia. Preparar o sistema para essa nova dinâmica exige avanços regulatórios, tecnológicos e operacionais.
Para Rodrigo Miguel de Oliveira, diretor de Inteligência, Mercado e Portfólio da AXIA Energia, o desafio já não está apenas em reconhecer a importância desse atributo, mas em criar mecanismos capazes de atribuir valor a esse serviço. “A flexibilidade que o sistema necessita, na nossa visão, não tem hoje ainda um sinal econômico, refletido no preço de energia, adequado”, afirma.
A nova função dos reservatórios
Durante décadas, as hidrelétricas tiveram papel central na operação do sistema elétrico brasileiro, tanto pela capacidade de armazenar água e regular a geração entre períodos úmidos e secos quanto pela possibilidade de ajustar a produção às variações da demanda. Com a expansão das fontes renováveis variáveis, essa capacidade de resposta em intervalos mais curtos ganhou importância.
Na avaliação de Rodrigo, a regularização sazonal dos reservatórios continua relevante, mas a necessidade de flexibilidade ao longo do dia aumentou. “O papel da hidrelétrica como fonte de flexibilidade mudou. Hoje a gente fala em regularização mensal e em flexibilidade de atendimento diário”, explica.
Essa mudança também alterou a importância de diferentes empreendimentos hidrelétricos. A consolidação de usinas como Belo Monte, Santo Antônio e Jirau ampliou a capacidade instalada do Sistema Interligado Nacional (SIN) em aproximadamente 18,55 GW. Por terem sido projetadas predominantemente no modelo a fio d’água, porém, essas usinas possuem menor capacidade de regularização por grandes reservatórios, tornando ainda mais estratégico o papel de hidrelétricas com capacidade de armazenamento.
Nesse novo cenário, um dos principais ativos de flexibilidade do sistema continua sendo a Usina Hidrelétrica Tucuruí, no Pará. “Tucuruí talvez seja hoje um dos maiores ativos de flexibilidade que o sistema brasileiro possui”, afirma Rodrigo. Segundo ele, esse papel está diretamente relacionado à capacidade de armazenamento do reservatório, que permite preservar água para os momentos de maior demanda do sistema. “Você aproveita a água de Belo Monte, que não pode ser armazenada, e preserva a de Tucuruí. No período seco, esse reservatório permite fazer as rampas e atender à flexibilidade necessária do sistema”, explica.
Quanto vale responder ao sistema
À medida que a necessidade de resposta do sistema aumenta, cresce também a discussão sobre como aperfeiçoar os incentivos econômicos para recursos capazes de oferecer flexibilidade. O setor já conta com mecanismos para a prestação de serviços ancilares, mas a expansão das fontes renováveis variáveis e de novas tecnologias, como baterias, amplia o debate sobre como valorar diferentes atributos de flexibilidade.
Em 2026, essa agenda ganhou um novo componente com a abertura de consultas públicas pela ANEEL para os primeiros leilões brasileiros de reserva de capacidade voltados a sistemas de armazenamento em baterias. A proposta prevê a contratação da disponibilidade de potência desses sistemas, com remuneração por receita fixa.
Na avaliação de Rodrigo, o desafio já não está apenas em desenvolver novas tecnologias, mas em estabelecer mecanismos capazes de remunerar adequadamente quem oferece flexibilidade ao sistema. “O mercado deveria se autorregular via sinal do preço de energia”, defende Rodrigo. Na avaliação do executivo, a ausência de sinais econômicos reduz os incentivos para investimentos em soluções que ampliem a capacidade de resposta do sistema, como baterias e outras formas de armazenamento.
Para ele, aperfeiçoar os mecanismos de formação de preços é essencial para que esses atributos passem a ser efetivamente reconhecidos pelo mercado. Na prática, isso significa criar condições para que diferentes tecnologias concorram entre si e ofereçam flexibilidade de forma eficiente.
O consumidor também pode equilibrar a rede
Embora a discussão sobre flexibilidade pareça restrita à operação do sistema elétrico, seus efeitos também podem chegar ao consumidor final. Na avaliação de Rodrigo, sinais de preço mais aderentes às condições de oferta e demanda ao longo do dia permitiriam que consumidores ajustassem seus hábitos de consumo, reduzindo custos e contribuindo para o equilíbrio do sistema.
“O consumidor hoje não tem sinal de preço. Se tivesse um sinal de preço, poderia mudar hábitos e economizar no custo total de energia elétrica”, afirma. Como exemplo, o executivo cita a tarifa branca, modalidade que busca diferenciar os preços conforme o horário de consumo. O mecanismo, porém, trabalha com postos tarifários previamente definidos e não reflete diretamente as variações de oferta e demanda do sistema ao longo de cada dia. Para Rodrigo, ampliar os sinais econômicos associados a essas condições poderia orientar consumidores, investidores e operadores sobre os períodos em que há maior ou menor disponibilidade de energia.
Ativos antigos diante de novas exigências
A evolução do sistema elétrico também exige que empresas do setor adaptem seus ativos e desenvolvam novas soluções para atender às novas demandas da operação. Esse movimento passa por investimentos em tecnologia, modernização de equipamentos e maior confiabilidade dos empreendimentos.
“Investimos muito em tecnologia nos ativos e em confiabilidade. Tucuruí, por exemplo, não foi construída pensando em operar do jeito que opera hoje. O ativo foi ressignificado para atender às necessidades atuais do sistema”, afirma Rodrigo. Segundo o executivo, esse processo também envolve o desenvolvimento de soluções para clientes, mas sua expansão depende de sinais econômicos mais claros e da evolução do ambiente regulatório.
Como outros mercados remuneram a flexibilidade
A busca por mecanismos capazes de valorizar a flexibilidade não é exclusiva do setor elétrico brasileiro. Mercados como Austrália, Texas e Califórnia adotaram soluções distintas para aproximar preços, despacho e necessidades operacionais. Entre elas estão liquidação em intervalos mais curtos, contratação de capacidade de rampa e cootimização de energia e serviços ancilares.
Na avaliação de Oliveira, a evolução do mercado brasileiro dependeria de uma combinação de medidas, entre elas o aperfeiçoamento dos modelos de precificação, a redução gradual de subsídios e a criação de sinais econômicos para recursos capazes de oferecer flexibilidade. “Olhar para fora é importante. São evoluções extremamente necessárias, mas que não podem vir sozinhas, elas têm que vir de um plano”, afirma.
Para o executivo, a adaptação dessas práticas deve considerar as características do sistema brasileiro, mas sem perder de vista o objetivo de aproximar a operação dos sinais econômicos. “A operação traduz o preço. Se existe escassez ou sobra, o preço de energia precisa refletir de maneira dinâmica e adequada “, explica, ao citar experiências internacionais em que os preços respondem às condições de oferta e demanda em intervalos mais curtos que os horários.
A evolução do sistema elétrico brasileiro mostra que gerar mais energia é apenas parte do desafio. À medida que fontes renováveis variáveis ganham participação, a capacidade de responder às mudanças na oferta e na demanda passa a ter importância crescente. Reconhecer o valor da flexibilidade, aprimorar os sinais econômicos e criar condições para novos investimentos serão passos importantes para que o sistema acompanhe essa transformação com mais eficiência e segurança.

