Quais são os ingredientes da vacina contra a Covid-19 da Pfizer?
Biotecnologia

Quais são os ingredientes da vacina contra a Covid-19 da Pfizer?

Pedimos a especialistas para nos ajudar a entender a composição.

O Facebook anunciou em 3 de dezembro que removeria postagens com alegações falsas ou teorias de conspiração sobre o que tem nas vacinas contra a Covid-19 com as quais todos estão contando.  

Diante dos rumores sugerindo que Bill Gates colocou microchips de rastreamento nas doses, ou que as inoculações contêm luciferase, uma substância química brilhante de vaga-lumes cujo nome faz algumas pessoas pensarem no diabo, a empresa afirmou que estaria policiando tais alegações ao fazer referência à “lista oficial de ingredientes da vacina”. 

O que está realmente na lista oficial de ingredientes? Esta semana, uma senhora idosa do Reino Unido se tornou a primeira pessoa fora de um teste a obter a vacina recém-aprovada desenvolvida pela Pfizer e BioNTech, e os EUA poderiam dar luz verde à mesma inoculação no dia 10 de dezembro. Junto as ações regulatórias do início do mês vieram as informações mais detalhadas da composição da nova vacina.  

Aqui, por exemplo, está o que a US Food and Drug Administration (FDA) afirma estar na vacina da Pfizer: 

Ingredientes ativos 

  • RNA mensageiro modificado com nucleosídeo (modRNA) que codifica a glicoproteína de pico viral (S) de SARS-CoV-

Lipídios 

  • (4- hidroxibutil) azanediil) bis (hexano-6,1-diil) bis (ALC-3015) 
  • (2- hexyldecanoate), 2 – [(polietileno glicol) -2000] -N, N- ditetradecylacetamide (ALC-0159) 
  • 1,2-distearoil-snglicero-3-fosfocolina (DPSC)  
  • Colesterol

Sais 

  • Cloreto de potássio 
  • Fosfato de potássio monobásico dihidratado 
  • Cloreto de sódio 
  • Fosfato de sódio básico dihidratado  

Outros 

  • Sacarose 

Ler a lista de ingredientes é como olhar para a lateral de uma caixa de cereal, exceto que você precisa de um diploma em química orgânica para entendê-la. Recebemos ajuda de vários cientistas e empresários de biotecnologia para entender o que cada um dos ingredientes faz e também ouvir algumas suposições fundamentadas sobre os outros. 

O mRNA 

A vacina da Pfizer é a primeira no mercado que consiste em informações genéticas reais de um vírus na forma de RNA mensageiro, ou mRNA, um tipo de molécula cuja função usual é transportar cópias de instruções genéticas ao redor de uma célula para orientar a montagem de proteínas. Imagine um mRNA como uma longa fita de teletipo contendo instruções. É um material bastante delicado, e é por isso que a vacina da Pfizer precisa ser mantida a cerca de -100 °F (-73 °C) até ser usada. 

A nova vacina, administrada como uma injeção no músculo do braço, contém uma sequência de RNA retirada do próprio vírus; faz com que as células fabriquem a grande proteína spike do coronavírus, que o patógeno usa para se aglomerar nas células de uma pessoa e entrar nelas. Por conta própria, sem o resto do vírus, a proteína spike é bastante inofensiva. Mas seu corpo ainda reage a isso. Isso é o que o deixa imunizado e pronto para repelir o vírus real se ele aparecer. 

O mRNA da vacina é diferente do resto do material em nosso corpo. Isso é bom, porque uma célula está cheia de defesas prontas para fragmentar o RNA, especialmente qualquer um que não pertença a ela. Para evitar isso, o que é conhecido como “nucleosídeos modificados” foram substituídos por alguns dos componentes básicos do mRNA. 

Mas a Pfizer está se contendo um pouco. A sequência do gene spike pode ser ajustada de pequenas maneiras para um melhor desempenho, por meios que incluem a troca de letras. Não achamos que a Pfizer tenha dito exatamente que sequência está usando, ou quais nucleosídeos foram modificados. Isso significa que a composição da dose pode não ser 100% pública.  

Os lipídios 

A vacina da Pfizer, assim como a da Moderna, usa nanopartículas de lipídios para encobrir o RNA. As nanopartículas são, basicamente, minúsculas esferas gordurosas que protegem o mRNA e o ajudam a deslizar para dentro das células. 

Essas partículas têm provavelmente cerca de 100 nanômetros de diâmetro. Curiosamente, tem quase o mesmo tamanho do coronavírus. 

A Pfizer diz que usa quatro lipídios diferentes em uma “proporção definida”. O lipídio ALC-0315 é o ingrediente principal da formulação.  Isso porque é ionizável pode receber uma carga positiva e, como o RNA tem uma carga negativa, eles ficam juntos. Também é um componente que pode causar efeitos colaterais ou reações alérgicas. Os outros lipídios, um dos quais é a conhecida molécula de colesterol, são “ajudantes” que dão integridade estrutural às nanopartículas ou as impedem de se aglomerar. Durante a fabricação, o RNA e os lipídios se juntam em uma mescla borbulhante para formar o que o FDA descreve como um líquido congelado “branco a esbranquiçado”. 

Sais 

A vacina Pfizer contém quatro sais, um dos quais é o sal de mesa comum. Juntos, esses sais são mais conhecidos como solução salina tamponada com fosfato (na sigla em inglês, PBS), um ingrediente muito comum que mantém o pH, ou acidez, da vacina próximo ao do corpo de uma pessoa. Você entenderá como isso é importante se você já espremeu suco de limão em um corte na pele. Substâncias com acidez errada podem causar danos às células ou degradá-las rapidamente. 

Açúcar 

A vacina inclui açúcar simples, também chamado de sacarose. Ele age aqui como um crioprotetor para proteger as nanopartículas quando elas estão congeladas e impedi-las de grudar umas nas outras. 

Solução salina 

Antes da injeção, a vacina é misturada com água contendo cloreto de sódio, ou sal comum, da mesma forma que muitos medicamentos administrados por via intravenosa. Novamente, a ideia é que a injeção corresponda mais ou menos ao conteúdo de sal do sangue. 

Sem conservantes 

A Pfizer faz questão de dizer que sua mistura de nanopartículas lipídicas e mRNA é “livre de conservantes”. Isso porque um conservante que tem sido usado em outras vacinas, o timerosal (que contém mercúrio e existe para matar qualquer bactéria que possa contaminar um frasco), tem estado no centro das preocupações sobre se as vacinas causam autismo. O Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos afirma que o timerosal é seguro; apesar disso, seu uso está sendo eliminado. Não há timerosal ou qualquer outro conservante na vacina da Pfizer. E muito menos microchips. 

A vacina ainda é conhecida pelo codinome BTN162, mas assim que for autorizada, espera-se que a Pfizer lhe dê um novo nome comercial que transmita algo sobre o que contém e o que promete para o mundo. 

Agradecemos às seguintes pessoas por explicar os ingredientes da vacina: Jacob Becraft e Aalok Shah, Strand Therapeutics; Yizhou Dong, Universidade do Estado de Ohio; Jason Underwood, Pacific Biosciences; Andrey Zarur, Greenlight Biosciences; Charles L. Cooney, MIT; e as equipes de comunicação da Pfizer e Moderna Therapeutics. 

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