Por que estudar filosofia é fundamental no mundo Digital?
Humanos e tecnologia

Por que estudar filosofia é fundamental no mundo Digital?

Inteligência Artificial evidenciou inúmeras questões éticas e morais. Somos nós, os seres humanos, que precisamos ter cada vez mais capacidade de abordar estes dilemas para poder desenhar um futuro onde a tecnologia é complementar aos humanos e não os substitui.

Vamos imaginar que exista uma tecnologia de teletransporte que nos leve para a Grécia Antiga, há mais de 2000 anos, e que possamos presenciar um discurso de Sócrates, assistindo da plateia lado a lado do seu discípulo Platão. Ficaríamos fascinados ao vê-lo usar o seu método chamado de maiêutica, que é baseado em fazer perguntas, para achar falhas no discurso do adversário intelectual. Sócrates fundamentalmente usava a dialética para desacreditar as reivindicações de conhecimento dos outros, e ao revelar a ignorância de seus interlocutores também mostrava como fazer progressos em direção a uma compreensão mais adequada de temas como a moral e a ética.

Mas convenhamos: a maioria de nós, e a sociedade moderna como um todo, enxerga esses debates como uma grande perda de tempo, não é? A filosofia, de forma geral, sempre foi vista como uma disciplina abstrata, intangível e que pouco traz no ato prático.

Ok, então voltemos para os dias de hoje. Em vez de sentar em uma arena grega, você está sentado na sala de reuniões da Tesla, lado a lado com o Elon Musk e com um monte de engenheiros. Eles estão abordando um dilema ético que é o seguinte: se um carro autônomo for forçado a escolher diante de uma situação onde já não há mais tempo para frear com algumas pessoas atravessando na rua, o que deveria escolher? Os passageiros do veículo devem ser sacrificados para salvar os pedestres? Ou um pedestre deveria ser morto, para salvar uma família de quatro pessoas no veículo?

Esse dilema é duríssimo, mas é o tipo de decisão que cada vez mais engenheiros, desenvolvedores, e de alguma forma, todo profissional tem que tomar hoje em dia. Ou seja, decisões sobre como melhor usar a tecnologia considerando os dilemas que ela traz. Só que tem um problema: no mundo digital, que acelera de forma tão rápida, os engenheiros não têm o tempo necessário para discussões filosóficas longas e demoradas: eles precisam tomar decisões rapidamente, naquela janela de uma hora de reunião.

Três razões pelas quais filosofia é tão importante hoje

No caso do dilema acima, para chegar mais perto de uma resposta, pesquisadores do MIT Media Lab analisaram mais de 40 milhões de respostas em um experimento realizado em 2014 publicado 4 anos depois na revista Nature.

Aos respondentes foram apresentados vários cenários, onde tinham que escolher se um carro self-driving sacrificaria seus passageiros ou desviara para acertar uma das seguintes opções:

  • um empresário de sucesso
  • um criminoso conhecido
  • um grupo de idosos
  • um rebanho de vacas
  • pedestres que estavam atravessando a rua, que, porém, foram avisados ​​para esperar

Os resultados sugeriram que as pessoas preferiam salvar humanos em vez de animais, poupar o máximo de vidas possível, e tendem a salvar jovens em vez de idosos. Havia também tendências menores de salvar mulheres em vez de homens, salvar aqueles de status mais elevado em vez de pessoas mais pobres, e salvar pedestres em vez de passageiros. Os pesquisadores encontraram até diferenças culturais nas decisões das pessoas. Os pesquisados da França eram mais propensos a pesar o número de pessoas que seriam mortas, enquanto no Japão colocaram menos ênfase nisso.

Nesse contexto, há um dilema enfrentado pelas fabricantes de automóveis. Como programar o seu software? E inclusive, o que governos deveriam fazer baseados nisso?

A Alemanha, por exemplo, já introduziu uma lei que estabelece que os carros sem motorista devem evitar ferimentos ou mortes a todo custo. A lei diz que os algoritmos nunca devem decidir o que fazer com base na idade, sexo ou saúde dos passageiros ou pedestres. Certo, mas e se acontecer: quem é responsável? A fabricante do carro? E como ela é punida criminalmente?

São questões muito importantes que líderes, empreendedores e as pessoas em geral devem abordar todos os dias, independentemente do setor em que atuam. Sabe por que? Porque a tecnologia hoje está presente em todos os negócios, e nós não podemos deixar de considerar as implicações que ela truxe.

Então, por que a filosofia é tão importante no mundo atual?

Primeiro, porque o número de dilemas éticos e filosóficos que a tecnologia trouxe é enorme, como, por exemplo, o conflito entre privacidade e dados.  Segundo, porque o raciocínio filosófico é algo que ainda a inteligência artificial não consegue substituir, e representa um diferencial para os seres humanos que a praticarem. Terceiro, porque o raciocínio mais obvio, da dedução lógica, não funciona como no mundo analógico.

O famoso filosofo italiano Luciano Floridi argumenta que estamos vivendo uma quarta revolução após Copernico, Darwin e Freud, pois as barreiras entre nossos mundos online (conectado à Internet) e offline (fora da esfera digital) estão desaparecendo; agora nos movemos dentro do redemoinho da “infosfera”, vivendo uma “vida na vida” — vidas cotidianas vividas simultaneamente entre os dois mundos.

Enquanto fazemos compras, cuidamos de nossa saúde e lidamos com as relações sociais, estamos interagindo com o mundo do direito, das finanças e da política. Em cada uma dessas facetas da vida, as tecnologias representam agora uma força ambiental inescapável.

O cenário tecnológico emergente, com seus benefícios digitais imediatos, exige responsabilidade intelectual que, segundo Floridi, ainda não é palpável ou institucionalizada no meio acadêmico, mas está nas ruas. Existe um ar de expectativa e preocupação ao mesmo tempo em que há preocupação e fascinação sobre como a tecnologia está mudando o mundo. Alterando a forma como vemos o mundo, nós mesmos e os outros. As tecnologias nos capacitam ou nos controlam? Podemos nos beneficiar de novas tecnologias sem permitir que a rede tome o controle sobre nós? Essas são algumas perguntas que vem à tona.

Há cada vez mais filósofos nas empresas

Cada vez mais empresas de tecnologia estão contratando filósofos e profissionais das áreas de humanas. No caso do Tinder, por exemplo, uma das pessoas mais importantes, ainda mais no início do aplicativo, foi a Jessica Carbino, uma socióloga que além de ter dado match no Tinder com o fundador Sean Rad, foi contratada para ajudar a entender melhor as mudanças nos relacionamentos.

Mas é fundamental entender mais sobre filosofia, por isso, para finalizar, vou lançar um desafio prático: pegue o dilema ético entre dados e privacidade. A legislação mais importante sobre privacidade nos últimos anos é o General Data Protection Regulation, cuja filosofia é fundamentalmente que os usuários têm o direito de determinar como seus dados são usados ​​e armazenados, empoderando a privacidade. Mas há um porém: se as empresas tiverem mais dados seus, elas conseguirão entregar melhores experiencias e personalização, a princípio, pois sabem melhor suas preferências. Pense em como isso mudaria o setor de saúde: quanto mais dados em tempo real os médicos e hospitais têm, melhor poderão ajudar a prevenir doenças.

Por isso, quero que reflita: até que ponto para uma melhor experiência com as empresas compensa abrir mão de dados e privacidade? E mais importante: quem detém estes dados?  Estas são apenas algumas reflexões que podem tornar todos nós filósofos, já que como vimos, o mundo está em falta deles.


Este artigo foi produzido por Andrea Iorio, autor Best-Selling, palestrante, escritor sobre Transformação Digital, professor de MBA e colunista da MIT Technology Review Brasil.

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