Por que agricultura digital e inovação são determinantes para alimentar 10 bilhões de pessoas até 2030
Inovação

Por que agricultura digital e inovação são determinantes para alimentar 10 bilhões de pessoas até 2030

95% dos produtores rurais do Brasil têm interesse em saber cada vez mais sobre agricultura digital, segundo a Embrapa. Por isso, é cada vez mais importante fomentar o ecossistema de inovação com foco no setor.

O World Agri-Tech Innovation Summit, realizado em São Francisco, nos Estados Unidos, reuniu mais de dois mil produtores rurais, líderes da indústria e distribuição de insumos agrícolas, agtechs, investidores, pesquisadores e profissionais do governo. O objetivo do encontro foi levantar questões e discutir cenários e soluções sustentáveis e inovadoras para agricultura, contribuindo com a segurança alimentar, clima e o meio ambiente. Esta mesma conferência também é realizada ao longo do ano em São Paulo, Londres e em Singapura.

Geopolítica mundial e pandemia: alta nos preços de alimentos

O aumento dos preços de diversos produtos agrícolas mais do que dobraram desde o início da pandemia da Covid-19. Outro fator é a guerra Rússia-Ucrânia que tem gerado escassez de matérias-primas e impactado amplamente trigo, óleos vegetais, milho, fertilizantes e outros mercados. Os dois países produziam 30% do trigo e 17% do milho no mundo. A Índia, por sua vez, cancelou a maior parte da exportação de trigo para priorizar o abastecimento interno.

Adicionalmente, a seca em diversas regiões ao redor do mundo também contribui para a disparada dos preços de alimentos no mundo. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos prevê um declínio de 16,8 milhões de toneladas até o final da safra 2022/2023 no país. A alta volatilidade e incerteza no clima nos próximos anos devem manter a instabilidade dos preços dos alimentos.

Como as tecnologias e inovações podem ajudar a endereçar estes desafios em âmbito mundial?

É evidente que uma única organização ou ator, por mais inovadora que seja, não conseguirá resolver sozinha desafios na agricultura, no clima, na cadeia de suprimentos e produção de alimentos.
Neste sentido, o ecossistema de inovação se torna cada vez mais relevante para que trazer soluções em longo prazo para produtividade, otimização de custos, automação de processos, práticas de sustentabilidade, agilidade e transparência em comercialização, redução de aplicação de defensivos químicos, economia em escala, análise preditiva do clima e do solo.

O termo “ecossistema” consiste em redes de colaboração entre empresas e pessoas para gerar valor à sociedade e aos negócios. O que se vê na agricultura é a formação de um ambiente favorável à inovação, com objetivos claros e a partir dos pilares: cultura, investimentos, políticas públicas, capital humano e tecnologia.

A empresa Gro Intelligence desenvolveu uma solução com Inteligência Artificial, dados, Analytics e análise preditiva para fornecer uma visão unificada de insights sobre clima, agricultura e economia e fazer previsões assertivas sobre mudanças climáticas. A plataforma consegue identificar, por exemplo, regiões mais propícias para cultivar uma plantação de acordo com probabilidade de maior rendimento do cultivo.

Monitoramento e previsão de produção de trigo no inverno dos EUA

Fonte: site GRO Intelligence

Como a agricultura digital avança no Brasil?

A agricultura digital já é uma realidade em diversas propriedades rurais do país. E não apenas entre os grandes, mas também entre pequenos e médios produtores que, em alguns casos, auxiliados por associações ou cooperativas, também se beneficiam desta revolução no campo.

Dados de uma pesquisa recente realizada pela Embrapa apontam que 95% dos produtores rurais do Brasil têm interesse em saber cada vez mais sobre agricultura digital. A maioria (84,1%) afirma usar pelo menos uma tecnologia digital no seu processo produtivo e uma fatia de 40% já admite estar utilizando aplicações a partir de sensores remotos ou diferentes plataformas digitais com foco específico em determinada cultura ou sistema de produção.

A pesquisa foi realizada entre abril e junho de 2020 e contou com a participação de 504 agricultores de todos os estados brasileiros e do Distrito Federal. O estudo é resultado de uma parceria entre a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) e o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Marketplace com blockchain para comercialização de commodities

No evento em São Francisco, tive a oportunidade de conhecer os sócios Vítor Nunes e Diogo Iafelice da startup brasileira Gavea. Os dois estavam na conferência para se conectar com outros empreendedores, multinacionais e investidores.

Em um setor onde processos de comercialização e negociação ainda são arcaicos, a plataforma online, desenvolvida com base nas tecnologias Blockchain, Inteligência Artificial e Machine Learning, visa simplificar a negociação, execução e liquidação de commodities, de forma transparente, segura, rastreável e sem intermediários.

Desta forma, a comercialização de commodities torna-se um processo simples e intuitivo, cobrindo as principais necessidades dos produtores, dos comerciantes e dos exportadores:

▪️ Compra e venda de soja e milho;
▪️ Negociações à vista (spot) e a prazo (forward);
▪️ Módulos de negociação em reais (R$) e dólares (US$);
▪️ Contratos digitais sob medida assinados com certificado ICP-Brasil;
▪️ Rastreabilidade e transparência no acesso à informação;
▪️ Menores custos transacionais e operacionais.

Fonte: Gavea Startup

Geotecnologia combinada com dados aumenta eficácia no controle de percevejos na soja e reduz aplicação de inseticidas

Na safra de soja 2019/2020, a Embrapa, em colaboração com a Cooperativa Cocamar, desenvolveu o aplicativo “Agrotag”, baseado em geotecnologias que consistem em georreferenciamento e dados, com o objetivo de analisar o aumento de eficácia do manejo integrado de pragas na lavoura.

No estudo foram criados mapas de distribuição espacial de percevejos a partir de conhecimentos digitais e agronômicos. Os dados, por sua vez, orientaram as máquinas de pulverização a fazer aplicações apenas em áreas indicadas para os controles químico e biológico. O conceito de zonas de manejo ganha cada vez mais força com a ajuda da inclusão de ferramentas digitais no dia a dia da agricultura.

Segundo os pesquisadores, uma das vantagens do uso da tecnologia digital foi melhoria na qualidade dos grãos. Outro resultado significativo foi redução de até 45% no uso de produtos químicos na área em que o aplicativo e suas funcionalidades foram utilizadas. O app Agrotag da Embrapa também foi apresentado como uma das primeiras iniciativas em geotecnologia no mundo para o monitoramento de redução de gases de Efeito Estufa.

Agricultura de precisão reduz em até 70% o uso de herbicidas e gera economia em escala aos produtores rurais

Outras tecnologias disponíveis no mercado seguem na mesma linha de auxiliar o agricultor a avaliar cada talhão de sua fazenda e identificar a espécie de planta daninha em cada lugar. A BASF desenvolveu soluções tecnológicas para que os agricultores possam controlar plantas daninhas com precisão. Combinados com Machine Learning, nuvem e gestão de dados, drones e Veículos Aéreos Não Tripulados (VANTS) de asa fixa se tornam cada vez mais populares nas fazendas, sendo que o segundo possui mais autonomia de voo.

▪️xarvio™ FIELD MANAGER: possui um algoritmo com Inteligência Artificial e cerca de um milhão de fotos de plantas daninhas em sua base dados. Desta forma:

1. Drone ou VANT sobrevoa a fazenda e gera um mapa aéreo, com identificação dos focos de plantas daninhas em cada talhão. Os dados ficam armazenados na nuvem (imagem 1)

2. Em menos de 48 horas, a informação é acoplada em um trator que fará aplicação de herbicidas somente nos pontos focais de plantas daninhas, de acordo com o mapeamento (imagem 2)

3. Redução no uso de herbicidas chega a até 70%, além da economia na utilização de água e combustível devido à eficiência e otimização na aplicação

Imagem 1: mapa aéreo que identifica focos de plantas daninhas

Fonte: xarvio powered by BASF

Imagem 2: trator faz aplicação de herbicidas somente nos pontos focais de plantas daninhas


Fonte: xarvio powered by BASF 


▪️ xarvio Smart Spraying:
inteligência agronômica da solução xarvio® da BASF e software de sensor de câmera da Bosch, a solução identifica e controla de forma automática e em tempo real, em pré e pós-emergência de plantas daninhas. A redução do risco de resistência de plantas daninhas corre a partir de formulações e taxas otimizadas de herbicidas especificamente desenvolvidas, garantindo que o produto seja aplicado apenas onde e quando necessário. Com a aplicação pontual, a redução no uso de herbicida também pode chegar em até 70%, dependendo das condições de campo prevalecentes e da pressão das plantas daninhas.

Mais do que a tecnologia, a prioridade deve ser a criação do ecossistema de inovação

Uma startup ou solução tecnológica pode ter alto potencial de trazer benefícios à agricultura, mas sem fundos de capital, incentivos fiscais, parceria com grandes empresas, talentos com capacidade de operar máquinas, dados e softwares, dificilmente consegue ter escalabilidade para uma grande quantidade de clientes que, de fato, vão utilizá-la. Por isso, reforço a importância destas centenas de conexões que já estão ocorrendo entre os diversos players da cadeia da agricultura.

Afinal, o termo “ecossistema”, em sua essência, significa um conjunto de comunidades que habitam e interagem em um determinado espaço. Fatores bióticos: todos os organismos vivos. Em uma analogia, condições de vida só são possíveis devido somatória de: nutrientes, água, chuva, umidade, solo, sol, ar, gases e temperatura. Como comentei no começo do artigo, no ecossistema de inovação todos devem estar focados na mesma direção e integrados: Estado, startups, empreendedores, academia, fundos de investimentos, multinacionais, indústria, aceleradoras, incubadoras, pesquisadores.


Este post foi produzido por Adriano Ueda, Digital commerce & CX na BASF Agricultural Solutions, professor de MBA na FGV e colunista do MIT Technology Review do Brasil.