Quer perder peso? Ficar trincado? Manter a mente afiada? Um influenciador de bem-estar pode dizer para você tomar peptídeos, o mais recente milagre no arsenal da medicina alternativa. As pessoas os injetam. Elas os aspiram. Elas os combinam em misturas com nomes de super-heróis, como o Protocolo do Wolverine (Wolverine Stack, em inglês), uma referência ao potência rápido do herói de quadrinhos da Marvel.
Matt Kaeberlein, um pesquisador de longevidade, começou a ouvir falar de peptídeos pela primeira vez há alguns anos. “Naquele momento, eram principalmente profissionais da área de medicina funcional que estavam usando peptídeos”, diz, referindo-se a médicos que adotam a medicina alternativa e suplementos. “Nos últimos seis meses, meio que enlouqueceu.”
Os peptídeos entraram no mainstream. Na startup de tecnologia em saúde Superpower, em Los Angeles, na Califórnia, Estados Unidos, funcionários podem receber injeções gratuitas de peptídeos às sextas-feiras. Em uma loja de produtos naturais em Phoenix, no Arizona, também nos EUA, uma placa na calçada diz: “Temos peptídeos!” Em um centro de tae kwon do na Carolina do Sul, um atacadista de peptídeos promove uma noite informativa. Nas redes sociais, eles estão por toda parte. E essa popularidade parece prestes a crescer; o secretário do Departamento de Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr., prometeu acabar com a “supressão agressiva” de peptídeos pela Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA (Food and Drug Administration, ou FDA).
Os benefícios e os riscos de muitos desses compostos, no entanto, são em grande parte desconhecidos. Alguns dos peptídeos mais populares nunca foram testados em ensaios clínicos em humanos. Eles são vendidos para fins de pesquisa, não para consumo humano. Alguns são imitações ilegais de medicamentos para perda de peso extremamente bem-sucedidos. A grande maioria vem da China, um fato que deixa alguns legisladores preocupados. Na semana passada, o senador Tom Cotton instou o chefe da FDA a reprimir remessas ilegais de peptídeos vindas da China. Na ausência de supervisão regulatória, algumas pessoas estão enviando os compostos que compram para testes independentes, apenas para garantir que o produto é legítimo.
O que é um peptídeo?
Um peptídeo é simplesmente uma curta cadeia de aminoácidos, os blocos de construção das proteínas. “Em geral, os cientistas pensam em peptídeos como fragmentos de proteína muito pequenos, mas na verdade não temos um limite preciso entre um peptídeo e uma proteína”, diz Paul Knoepfler, pesquisador de células-tronco na Universidade da Califórnia, Davis. A insulina é um peptídeo, assim como o hormônio do crescimento humano. O mesmo vale para alguns neurotransmissores, como a ocitocina.
Mas, quando influenciadores de bem-estar falam sobre peptídeos, muitas vezes eles estão se referindo a compostos específicos, formulados como injeções, comprimidos ou sprays nasais, que se tornaram tendência ultimamente.
Alguns desses peptídeos são medicamentos prescritos aprovados pela FDA. Os medicamentos GLP-1, por exemplo, são aprovados para tratar diabetes e obesidade, mas também estão facilmente acessíveis online para praticamente qualquer pessoa que queira usá-los. Muitos sites vendem microdoses de GLP-1s com alegações de que eles podem “apoiar a longevidade”, reduzir o declínio cognitivo ou conter a inflamação.
Muitos outros peptídeos são experimentais. “A maioria se enquadra no balde dos não aprovados”, diz Kaeberlein, que é diretor-executivo da Optispan, uma empresa de tecnologia em saúde sediada em Seattle, em Washington, e voltada para longevidade. Esse balde inclui medicamentos que promovem a liberação de hormônios do crescimento, como TB-500, CJC-1295 e ipamorelina, e compostos que supostamente promovem reparo de tecidos e cicatrização de feridas, como BPC-157 e GHK-Cu. São principalmente esses compostos não aprovados que têm levantado preocupações. “Qualquer pessoa pode montar uma loja online vendendo peptídeos de grau de pesquisa”, diz Tenille Davis, farmacêutica e diretora de advocacy da Alliance for Pharmacy Compounding, uma associação comercial que representa mais de 600 farmácias. “E ninguém sabe o que sequer está nos frascos.”
Não são apenas gurus do fitness, biohackers e fanáticos por longevidade que estão tomando esses medicamentos experimentais. Kaeberlein se lembra de ter ouvido falar de uma conhecida cuja médica lhe prescreveu peptídeos não aprovados. Ela era “apenas uma mulher típica de classe média alta”, diz. “Foi aí que realmente me caiu a ficha de que isso meio que se tornou relativamente mainstream.”
O que os peptídeos fazem?
Todo tipo de coisa, supostamente. O GHK-Cu deveria ajudar na cicatrização de feridas e na produção de colágeno. Diz-se que o BPC-157 promove reparo de tecidos e reduz inflamação, e que o TB-500 favorece a formação de vasos sanguíneos. Aqui vai a ressalva: as evidências desses benefícios vêm em grande parte de estudos em animais e depoimentos online, não de ensaios clínicos em humanos. “Não há evidência clínica em humanos para mostrar que eles sequer fazem o que as pessoas estão alegando que fazem”, diz Stuart Phillips, fisiologista muscular na Universidade McMaster, em Hamilton, Ontário. “Então pode ser apenas um grande golpe.”
Alguns peptídeos experimentais provavelmente têm, sim, propriedades benéficas de cicatrização de feridas ou efeitos regenerativos, diz Kaeberlein. No caso do BPC-157, por exemplo, “os dados em animais são convincentes”. Mas ainda há muitas incógnitas: qual é a dose certa? Por quanto tempo se deve tomar? Qual é a melhor forma de administrar? Essas são perguntas que só podem ser respondidas por meio de ensaios clínicos rigorosos. Na ausência desses estudos, os médicos “simplesmente inventam seus próprios protocolos”, explica. Alguns consumidores seguem o caminho do faça-você-mesmo, reconstituindo peptídeos em pó e injetando suas próprias misturas em casa.
Então por que estou vendo anúncios dessas terapias com peptídeos se elas não são aprovadas?
A lei federal proíbe que empresas façam marketing de medicamentos que não tenham sido aprovados. Isso inclui a maioria dos peptídeos, que são regulados como pequenas moléculas, não como suplementos alimentares. (Duas exceções notáveis são os de colágeno e os de creatina, frequentemente vendidos como pós.) A lei foi criada para proteger os consumidores de medicamentos que não foram comprovados como seguros e eficazes.
Mas ela não impede que laboratórios os fabriquem para fins de pesquisa. “A maioria dos peptídeos que estão sendo consumidos no mercado agora está sendo vendida por essas empresas online que os vendem rotulados apenas para uso em pesquisa”, diz Davis. Os frascos frequentemente trazem ressalvas que deixam isso bem claro: “Apenas para uso em pesquisa” ou “Não para consumo humano”. É ilegal comercializar esses produtos para uso humano, mas “os sites deixam bem claro que os compradores devem estar usando esses produtos em si mesmos”, diz ela.
A prática não é legal, mas a fiscalização tem sido esporádica. “A FDA envia cartas de advertência, fecha empresas. Mas, como é tudo online, eles têm muita dificuldade em acompanhar essas entidades”, diz Davis. E as empresas têm muitos incentivos para continuar comercializando ilegalmente os produtos. “Elas podem ganhar milhões de dólares sem ter de gastar dinheiro e tempo fazendo pesquisa”, diz Knoepfler. “É uma corrida ao dinheiro.”
Farmácias de manipulação, que têm permissão legal para criar medicamentos sob medida ao misturar ingredientes ativos a granel, frequentemente recebem pedidos para dispensar peptídeos, mas a maioria deles não atende aos critérios de elegibilidade para manipulação. Isso sempre foi assim, mas, em 2023, a FDA adicionou explicitamente vários peptídeos experimentais comuns à lista de substâncias a granel
que não podem ser manipuladas por causa de preocupações de segurança. “Isso colocou um ponto de exclamação em uma política que já estava em vigor”, diz Davis.
Muitos medicamentos GLP-1 estão disponíveis em farmácias de manipulação. Isso costumava ser aceito porque os medicamentos estavam em falta. Agora, no entanto, o fornecimento da maioria desses medicamentos está estável, e os vendedores estão sob pressão crescente dos reguladores para parar de comercializar em massa esses medicamentos.
Qual é o problema em experimentá-los?
Peptídeos vendidos para fins de pesquisa vêm de laboratórios com pouca supervisão regulatória. “Quando você compra coisas online destinadas a grau de pesquisa, você não faz ideia do que há no frasco que está recebendo. Você não faz ideia das práticas de esterilidade sob as quais isso foi fabricado, ou que tipo de impurezas podem estar no frasco”, diz Davis.
Phillips ouviu algumas pessoas dizerem que enviam seus peptídeos para testes de terceiros para garantir que sejam puros, “como se fosse algum tipo de ostentação”, diz. “E eu fico tipo, ‘Bem, você acabou de provar que esse negócio vive nas sombras, pelo amor de Deus.’”
A Finnrick Analytics, uma startup de testes de peptídeos em Austin, Texas, analisou a pureza e a potência de mais de 5 mil amostras de 15 peptídeos diferentes, de 173 fornecedores. Os resultados mostram que a qualidade varia substancialmente de fornecedor para fornecedor e até de lote para lote. Por exemplo, a empresa testou quase 450 amostras de BPC-157, de 64 fornecedores. Em alguns casos, os frascos vendidos como BPC-157 não continham o composto de forma alguma. Nos que continham, a pureza variou de cerca de 82% a 100%.
Talvez mais preocupante, 8% de todas as amostras de peptídeos que a Finnrick testou tinham níveis mensuráveis de endotoxinas, fragmentos bacterianos que podem causar febre e calafrios ou, em doses maiores, choque séptico.
Os riscos à saúde não são apenas hipotéticos. Em 2025, duas mulheres tiveram de ser hospitalizadas e colocadas em ventiladores após receberem injeções de peptídeos em uma conferência sobre longevidade em Las Vegas. Ambas se recuperaram, e ainda não está claro se elas reagiram aos próprios peptídeos ou a alguma impureza nos frascos.
“A ideia de que todos os peptídeos são seguros e naturais é simplesmente um absurdo”, diz Kaeberlein. “Eu tendo a me considerar bastante libertário quando se trata do que as pessoas querem fazer pela própria saúde”, acrescenta. “Se você quer tomar um medicamento experimental, isso é com você.” Mas o problema das terapias experimentais não regulamentadas é que é extremamente difícil avaliar benefício e dano. “A porcentagem relativamente pequena de pessoas que são maus atores será de maus atores e elas comercializarão isso de forma desonesta para pessoas que não estão preparadas para realmente entender os verdadeiros riscos e recompensas”, diz ele.
E, como qualquer medicamento, os peptídeos trazem o risco de efeitos colaterais. Para medicamentos aprovados, eles são detalhados diretamente na bula. Mas, para muitos peptídeos experimentais, não houve pesquisa suficiente para entender quais podem ser esses efeitos colaterais. Alguns pesquisadores alertaram que peptídeos que promovem crescimento ou formação de vasos sanguíneos também podem favorecer o crescimento de cânceres.
Para atletas competitivos que usam peptídeos, enquanto isso, os riscos incluem não apenas possíveis problemas de saúde, mas também suspensão. Alguns peptídeos, como o BPC-157, são proibidos pela Agência Mundial Antidoping.
A FDA passou por uma reformulação bastante substancial sob o governo Trump. É provável que as regulamentações em torno dos peptídeos mudem?
Não tenho uma bola de cristal, mas parece provável. Em maio de 2025, o secretário de saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., participou do podcast “The Ultimate Human” (O último humano, em tradução livre), do entusiasta da longevidade e biohacker Gary Brecka, e prometeu “acabar com a guerra na FDA contra a medicina alternativa, a guerra contra as células-tronco, a guerra contra os medicamentos quelantes, a guerra contra os peptídeos.”
Knoepfler prevê que Kennedy forçará a FDA a permitir a manipulação de alguns dos peptídeos mais populares, como BPC-157 e GHK-Cu. “Um passo assim colocaria a saúde pública em grande risco, ao mesmo tempo que daria aos manipuladores e, provavelmente, aos influenciadores de bem-estar muito mais lucro”, diz ele.
A FDA, no entanto, parece determinada a reprimir os imitadores de GLP-1. No início de fevereiro, o comissário Marty Makary publicou no X que a agência tomaria “medidas rápidas contra empresas que comercializam em massa medicamentos imitadores ilegais, alegando que são semelhantes a produtos aprovados pela FDA”.
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