Por que as empresas de tecnologia chinesas se sentem tão otimistas
Inteligência artificial

Por que as empresas de tecnologia chinesas se sentem tão otimistas

Elas estão começando a dominar setores inteiros de IA e robótica

Decidi ir à Consumer Electronics Show (CES) meio que em cima da hora. Durante o recesso de fim de ano, contatos da China continuavam me mandando mensagens sobre seus planos de viagem. Depois da enésima mensagem “Vejo você em Vegas?”, cedi. Como jornalista que cobre tecnologia na China e mora nos EUA, tenho uma semana por ano em que toda a minha pauta parece vir até mim, sem necessidade de voos de 20 horas.

A CES é a maior feira de tecnologia do mundo, momento em que empresas lançam novos gadgets e anunciam novos desenvolvimentos. E ela acontece todo mês de janeiro. Neste ano, o evento atraiu mais de 148 mil participantes e mais de 4.100 expositores. Ela se espalha pelo Las Vegas Convention Center, o maior espaço de exposições da cidade, e transborda para hotéis adjacentes.

A China há muito tempo tem presença na CES, mas, neste ano, apareceu em grande estilo. Expositores chineses representaram quase um quarto de todas as empresas na feira e, em áreas como hardware de IA e robótica, a presença do país pareceu especialmente dominante. No pavilhão, vi toneladas de participantes chineses do setor circulando, além de um número notável de investidores chineses em capital de risco. Vários frequentadores experientes da CES me disseram que esta é a primeira edição pós-covid em que a China esteve presente de um jeito impossível de não se notar. O ano passado talvez também estivesse indo nessa direção, mas muitos participantes chineses teriam, segundo relatos, esbarrado em negativas de visto. Agora, a Inteligência Artificial se tornou a desculpa universal, e o motivo, para fazer a viagem.

Como esperado, a IA foi o maior tema deste ano, vista na parede de estande após estande. Ela é, ao mesmo tempo, a maior coisa sobre a qual todo mundo está falando e um truque de marketing profundamente confuso. “Nós adicionamos IA” está colado em tudo, do razoável (PCs, celulares, TVs, sistemas de segurança) ao delirante ( inelos, secadores de cabelo, estrados de cama).

Gadgets de IA para o consumidor ainda parecem estar no começo, e com qualidade muito desigual. As categorias mais comuns são dispositivos educacionais e brinquedos de apoio emocional que, como escrevi recentemente, estão na moda na China. Há alguns memoráveis: a Luka AI faz um panda robótico que se arrasta por aí e mantém um olho vigilante no seu bebê. A Fuzozo, um robô de IA peludo do tamanho de um chaveiro, é basicamente um bichinho digital em forma física. Ele vem com uma personalidade embutida e reage a como você o trata. As empresas que vendem isso só torcem para que você não pense demais nas implicações de privacidade.

Ian Goh, um investidor da 01VC, me disse que a vantagem de fabricação da China o coloca na dianteira em eletrônicos de consumo com IA, porque muitas empresas ocidentais sentem que simplesmente não conseguem lutar e vencer na arena do hardware.

Outra área em que as empresas chinesas parecem estar na liderança é a de eletrônicos para o lar. Os produtos que elas fazem estão se tornando impressionantemente sofisticados. Robôs domésticos, câmeras 360, sistemas de segurança, drones, máquinas de cortar grama, bombas de calor para piscina… Você sabia que duas marcas chinesas basicamente dominam o mercado de robôs de limpeza doméstica nos EUA e estão “comendo o almoço” de Dyson e Shark? Você sabia que quase toda a tecnologia para quintais suburbanos que você pode comprar no Ocidente vem de Shenzhen, embora todo esse estilo de vida obcecado por quintais quase não exista na China? Isso tudo é tão elegante que você não perceberia que é chinês, a menos que fosse procurar. O velho estereótipo de “barato e repetitivo” não explica o que vi. Saí da CES sentindo que eu precisava de uma grande atualização de eletrodomésticos.

É claro que eles compõem um mercado seguro e maduro. Na frente mais experiencial, robôs humanoides foram um potente ímã para as multidões, e as empresas chinesas fizeram um grande show. Parecia que todo robô estava dançando, em estilos que iam de Michael Jackson a K-pop e a dança do leão. Alguns até dando mortais para trás. A Unitree, sediada em Hangzhou, chegou a montar um ringue de boxe onde as pessoas podiam “desafiar” seus robôs. Os robôs lutadores tinham cerca de metade do tamanho de um ser humano adulto e as lutas muitas vezes terminavam com um nocaute do robô, mas esse não é exatamente o ponto. O que a Unitree estava realmente exibindo era a estabilidade e o equilíbrio de seus robôs: eles eram empurrados, tropeçavam pelo ringue e permaneciam de pé, se recuperando no meio do movimento. Além de ostentar movimentos dinâmicos como esses, também houve demonstrações impressionantes de destreza: era possível ver robôs dobrando cata-ventos de papel, lavando roupa, tocando piano e até fazendo arte em latte.

No entanto, a maioria desses robôs, mesmo os bons, são artistas de um truque só. Eles são otimizados para uma tarefa específica no piso da feira. Tentei fazer um deles dobrar uma camiseta depois que eu tinha virado a peça de roupa, e ele se confundiu muito rapidamente.

Ainda assim, eles estão recebendo muito hype como uma importante próxima fronteira porque poderiam ajudar a tirar a IA de caixas de texto e levá-la para o mundo físico. À medida que os LLMs amadurecem, modelos de visão-linguagem parecem o próximo passo lógico. Mas aí você esbarra no grande problema: há muito menos dados do mundo físico do que dados de texto para treinar IA. Robôs humanoides se tornam tanto aplicações quanto terminais ambulantes de coleta de dados. A China está em uma posição singular aqui por causa de cadeias de suprimentos, profundidade de manufatura e transbordamento de indústrias adjacentes, veículos elétricos (VEs), baterias, motores, sensores, e já está desenvolvendo uma indústria de treinamento de humanoides, como a Rest of World reportou recentemente. (Publicação estadunidense que cobre histórias de tecnologia fora dos países ocidentais)

A maioria das empresas chinesas acredita que, se você consegue fabricar em escala, você consegue inovar, e elas não estão erradas. Grande parte da confiança na nascente indústria chinesa de robôs humanoides e além é menos sobre uma única descoberta e mais sobre “Nós conseguimos iterar mais rápido do que o Ocidente”.

As empresas chinesas não estão apenas vendendo gadgets, porém, estão trabalhando em cada camada da pilha de tecnologia. Não apenas em produtos finais, mas em frameworks, ferramentas, habilitação de Internet das Coisas (IoT), dados espaciais. A cultura de código aberto parece profundamente enraizada, engenheiros de Hangzhou me dizem que há hackathons de IA toda semana na cidade, onde fica o novo “pequeno Vale do Silício” da China.

De fato, as inovações de manchete na CES 2026 não estavam em dispositivos, mas na nuvem: plataformas, ecossistemas, implantações corporativas e aplicações de “IA híbrida” (nuvem + no dispositivo). A Lenovo fez os eventos mais badalados no palco principal neste ano e, sim, havia PCs, mas a história central era seu sistema de agentes de IA entre dispositivos, Qira, e uma proposta de parceria com a Nvidia voltada a provedores de nuvem de IA. O CEO da Nvidia, Jensen Huang, lançou Vera Rubin, uma nova plataforma de data center, alegando que reduziria drasticamente os custos para treinar e executar IA. A CEO da AMD, Lisa Su, apresentou Helios, outro sistema de data center construído para rodar enormes cargas de trabalho de IA. Essas soluções apontam para a carga de computação de IA em expansão nos data centers e a verdadeira corrida de tornar os serviços de nuvem baratos e poderosos o suficiente para acompanhar.

À medida que eu conversava com participantes ligados à China, o clima geral que senti foi de um otimismo cauteloso. Em uma festa em uma casa a que eu fui, VCs e fundadores da China estavam se misturando com facilidade com recém-chegados da Bay Area. Todo mundo está construindo alguma coisa. Quase ninguém quer apenas ganhar dinheiro com consumidores chineses mais. O novo padrão é: construir na China, vender para o mundo e tratar o mercado dos EUA como o campo de prova.

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