O “Vale do Silício” da energia e a transição energética
Inovação

O “Vale do Silício” da energia e a transição energética

Entender as origens e a “governança” do Vale do Silício pode trazer insights importantes sobre como navegar na transição energética nos próximos anos.

Segundo o relatório World Energy Investment 2021, da Agência Internacional de Energia (IEA), o dispêndio global com energia elétrica em 2020 foi de US$ 2,6 trilhões. Pela primeira vez esse montante superou o dispêndio global com petróleo, que ficou em US$ 2,5 trilhões. A despeito dos efeitos adversos causados pela pandemia no consumo de petróleo, claramente observados abaixo, essa tendência de “ultrapassagem” não é algo conjuntural e deve acontecer de maneira estrutural em breve, puxados pelas grandes mudanças relacionadas a mobilidade urbana como os veículos elétricos/híbridos, veículos autônomos, eVTOLs, entre outros. A transição energética já começou e o mercado já precifica e enxerga com relativa clareza essa mudança.

Dispêndios com Uso Final de Energia no Mundo (IEA, 2021)

Um exemplo claro disso pode ser observado nas bolsas de valores. Há 15 anos eram as empresas de petróleo e energia que figuravam o topo da lista das empresas mais valiosas do mundo. Hoje há um domínio inconteste das empresas de Tecnologia da Informação entre as 10 mais valiosas, sendo 8 delas pertencentes ao setor (Apple, Microsoft, Alphabet/Google, Amazon, Meta/Facebook, Nvidia, TSMC e Tecent). Parte deste domínio se dá pelo seu próprio crescimento em termos de importância na economia global, fato bem representado pela frase “dados são o novo petróleo”. Porém, muito da queda relativa das empresas de energia se dá pelo alto nível de incerteza sobre o futuro do setor, que continua sendo um mercado bastante significativo sob diversos aspectos.

Outro indicador interessante dessa precificação da mudança futura é observado através do setor automobilístico. Mesmo produzindo menos de 300 mil automóveis por ano (quase 10 vezes menos que a GM, por exemplo), a Tesla já vale, sozinha, mais do que as 10 maiores montadoras tradicionais de veículos a combustão interna juntas. A fabricante de veículos elétricos cheios de tecnologia embarcada foi a sexta empresa da história a atingir o notável valor de mercado de US$ 1 trilhão, sendo obviamente a primeira do setor automotivo.

Olhando em retrospectiva, percebemos que boa parte dessas empresas que puxaram a revolução da Internet (e hoje estão entre as mais valiosas do mundo) surgiram muito próximas fisicamente uma das outras, na região conhecida como Vale do Silício na Califórnia (EUA). Essa constatação nos leva a duas perguntas que serão o tema central de uma trilogia de colunas lançadas nos próximos meses. São elas: Teria sido essa co-localização geográfica uma mera coincidência? E qual a relação desses números e tendências da revolução da Internet com a construção/surgimento de um “Vale do Silício” da energia e a transição energética?

Insights do Vale do Silício para a Transição Energética

O primeiro passo é entender minimamente o impacto econômico e cultural causado por essa região formada por São Francisco e um conjunto de cidades localizadas no seu entorno. Segundo a Agência de Análise Econômica dos EUA (Bureau of Economic Analysis ou BEA) o PIB per capita do Vale do Silício é de US$ 128,3 mil, o que faria da região a mais rica do mundo caso fosse um país independente. A região é sede e originou diversas das mais valiosas empresas de tecnologia da atualidade como Google, Facebook, Apple, Cisco, HP, Intel entre outras. A região é considerada símbolo do que há de mais moderno e próspero no mundo de hoje e símbolo da cultura ocidental sob diversos aspectos.

Diversas dessas empresas que surgiram no Vale do Silício e hoje dominam os ambientes de negócios surgiram não apenas nessa região específica, mas também em um período de tempo específico — final da década de 1990 e início dos anos 2000 — quando havia um certo senso comum de que a Internet seria fundamental no futuro, mas ainda não havia um consenso sobre quais os caminhos de mudança iriam prevalecer. A grande aposta do período eram os portais de conteúdo como Yahoo! e AOL, que, anos depois, deixaram de existir/ser relevantes. Enquanto isso, prevaleceram teses alternativas da época como as que diziam que seria mais importante encontrar conteúdo de qualidade do que produzi-lo (Google, YouTube, etc.), ou de que intermediar a comunicação direta entre pessoas (redes sociais) seria um grande negócio (Facebook, Instagram, Whatsapp, etc.). O que é obvio hoje, não era naquele tempo.

O setor de energia é consideravelmente grande e passará por uma grande transformação nas próximas décadas. Assim como havia com a Internet nos anos 1990/2000, atualmente existe um certo consenso sobre a macro direção das mudanças do setor de energia (no caso os 4 Ds: descarbonização, descentralização, digitalização e democratização), mas não há muita certeza sobre qual caminho específico prevalecerá neste processo de transição energética. Há hoje um intenso debate sobre fontes de energia, novas tecnologias e novos modelos de negócios, mas sem um consenso sobre o que prevalecerá como novo mainstream no setor de energia. Geração solar distribuída, hidrogênio, biocombustíveis, captura de carbono, nanoestruturas de carbono, fusão nuclear são apenas alguns exemplos de tecnologias que podem mudar completamente os paradigmas do setor.

Essa similaridade de contextos torna a comparação entre o passado da revolução da Internet e o futuro do setor de energia irresistível e quase inevitável. Entender as origens e a “governança” do Vale do Silício poderá trazer insights importantes sobre como navegar na transição energética nos próximos anos.

A intricada governança dos i-ecossistemas

Mas, afinal, quem foram os responsáveis pela transformação do Vale do Silício, uma região desértica (que pertencia ao México até meados do século XIX) em uma das mais ricas e desenvolvidas regiões do planeta? Teriam sido os governos dos EUA e da Califórnia com suas políticas públicas ousadas e inovadoras? Teriam sido as universidades de ponta como Stanford e UC Berkeley? As grandes empresas de tecnologia como Apple, HP, Cisco entre outras? Startups como Uber e Airbnb? Ou grandes fundos de investimento em tecnologia como o Sequoia Capital ou Khosla Ventures?

Por mais paradoxal que seja, a resposta é nenhum e todos ao mesmo tempo. Depois de muito investigar sobre os fatores e elementos que habilitaram o surgimento do Vale do Silício (e de outras regiões similares), pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT) desenvolveram um modelo que busca explicar como são formados os ecossistemas de inovação, também conhecidos como i-ecossistemas, regiões que se desenvolvem rapidamente ao se tornarem polos de inovação e empreendedorismo de alto impacto (independente de setores).

O modelo de atores-chave do MIT preconiza que i-ecossistemas são formados e “geridos” pela relação interdependente de cinco atores (pontas): Universidades, Governo, Corporações, Empreendedores e Investidores de Risco. Se alguma dessas pontas falhar em seu papel, dificilmente a região prosperará como um i-ecossistema.
Assim, para tentar entender como construir um “Vale do Silício” na energia é fundamental compreender o potencial papel de cada um desses atores e como integrá-los de modo eficiente. Acreditar que apenas uma dessas pontas poderá ter, sozinha, todos os recursos humanos, financeiros, políticos, tecnológicos e de infraestrutura é o primeiro passo para ser “disruptado” e excluído do papel de protagonista da transição energética.

Outro ponto fundamental destacado pelos professores do MIT em suas pesquisas é o caráter local e regional das transformações. Uma alta densidade, quantidade e qualidade desses atores é fundamental para o fluxo de conhecimento, recursos materiais e pessoas entre instituições, gerando espirais positivas e gerando valor para todos.

Entender o papel que cada ator exerce, assim como as razões de suas inevitáveis interdependências, é crítico no processo de desenvolvimento de um i-ecossistema, ainda mais em um setor em processo de profunda transformação como o setor de energia. No Rio de Janeiro, através do programa MIT REAP e de seu “spin-off” energINN esse processo já começou e conta com instituições de peso em seu Conselho. Na próxima coluna da série, entenderemos em detalhes o papel que deve ser desempenhado por cada uma dessas “pontas” para, em seguida ver, na prática, essa “ciência em ação”.


Este artigo foi produzido por Hudson Mendonça, líder do Programa MIT REAP no Brasil, coordenador/pesquisador do LabrInTOS (o Laboratório de Inovação da COPPE/UFRJ), professor de Corporate Venture e Startups da FGV, e colunista da MIT Technology Review Brasil.

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