O relógio marca
Tecnologia & Sociedade

O relógio marca

Por que temos a impressão de que está cada vez mais difícil ter paciência nos tempos da tecnologia?

Impossível entrar num elevador sem dar aquela olhada no celular. São quinze segundos? Talvez vinte? O suficiente para consultar uma mensagem, verificar uma notificação ou descobrir se alguém respondeu ao que você escreveu.

Durante décadas, a tecnologia nos prometeu economizar tempo. E cumpriu boa parte dessa promessa. Uma fotografia que levava dias para ser revelada aparece instantaneamente na tela. Um filme começa quando queremos, sem depender da programação da televisão. A comida chega à nossa porta acompanhada de um pequeno mapa que revela, quase metro a metro, o percurso do entregador. Curiosamente, isso não parece ter nos tornado mais pacientes.

Existem mil livros e teorias sobre o fenômeno da aceleração social. São trabalhos que nos ajudam a compreender por que os avanços tecnológicos, embora reduzam o tempo necessário para realizar tarefas, não produzem necessariamente uma vida menos apressada. Somos aquele ratinho que corre na gaiola redonda. Quanto mais pressa, menos saímos do lugar.

Um pacote da Shopee previsto para chegar na sexta-feira pode provocar ansiedade já na terça. Consultamos repetidamente o rastreamento, mesmo sabendo que nossa insistência não fará o pacote andar mais depressa. Se o aplicativo do Uber informa que o carro chegará em quatro minutos e depois altera a previsão para seis, sentimos frustração.

Essa transformação também alcançou um território mais delicado: nossas relações. O WhatsApp é um bom laboratório da impaciência contemporânea. Os dois pequenos tiques azuis, que confirmam a leitura de uma mensagem, acrescentaram uma nova camada de interpretação às conversas. Sabemos que alguém leu, mas desconhecemos suas circunstâncias. Ainda assim, o silêncio pode ser recebido como desatenção, desinteresse ou rejeição. Não por acaso, eu mesmo preferi desativar a confirmação de leitura. Foi uma tentativa de recuperar algum controle sobre o meu próprio tempo. Passei a me sentir melhor e menos ansioso. Mas existe uma contradição interessante.

As mensagens instantâneas permitem uma comunicação assíncrona: escrevemos quando podemos, o outro responde quando quiser ou puder. Mas frequentemente tratamos essa possibilidade como uma obrigação de presença contínua. Confundimos estar conectado com estar disponível. Na vida afetiva, os aplicativos de relacionamento aproximam desconhecidos, aceleram intimidades e multiplicam oportunidades de contato. Conversas intensas surgem em poucas horas, alimentadas por mensagens, áudios e até nudes.

Mas a facilidade tecnológica de iniciar uma relação não garante que ela vai evoluir para algo mais concreto. O ghosting, quando alguém interrompe o contato e desaparece sem explicação, tornou-se banal. Uma mensagem sem resposta pode ocupar nossa atenção por muito mais tempo do que os segundos necessários para escrevê-la. Tem gente que fica dias esperando pelo outro. O sofrimento de não saber o que aconteceu é imenso.

Agora, a Inteligência Artificial acrescenta outro elemento a essa história. Um chatbot pode responder a qualquer hora, sem precisar dormir, trabalhar ou resolver problemas pessoais. Oferece uma disponibilidade que nenhuma pessoa consegue sustentar. E talvez essa experiência amplie ainda mais nossas expectativas sobre a rapidez das respostas humanas. As IAs estão mudando a maneira como nos relacionamos com os outros. Queremos respostas da mesma maneira que um cão quer um afago atrás da orelha.

A tecnologia transformou a velocidade em conveniência, eficiência e, muitas vezes, qualidade de vida. A confiança precisa de tempo. A intimidade também. A atenção exige presença, algo diferente de uma conexão permanente.

Talvez tenhamos aprendido a medir o tempo sem compreender muito bem o que fazer com os intervalos. Mas, enquanto as máquinas aprendem a responder cada vez mais depressa, nós parecemos encontrar cada vez mais dificuldade para respeitar o tempo dos outros. Enquanto isso, o relógio continuará marcando os mesmos sessenta segundos por minuto.

Como nasceu esta coluna:

Semana passada, marquei um almoço com meu filho. Fui pro restaurante na hora marcada e, nos quinze minutos em que ele se atrasou, o garçom veio até mim quatro vezes.

A cada vez, uma pergunta diferente: “Cardápio, chefe?”, “É só mesmo o senhor, hoje?”, “Já escolheu o que vai pedir?”, “Quer que traga a bebida antes, ou só quando o prato vier?”.

Agradeci aos céus quando meu filho chegou e, enfim, pudemos fazer o pedido. Só assim, a ansiedade do atendente foi saciada e ele, enfim, pode se concentrar na próxima mesa.

Já em casa, lembrei que, em inglês, garçom é “waiter”, aquele que espera. Ri sozinho.

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