O Mar está para Startups! 
Inovação

O Mar está para Startups! 

2020 não foi um ano trivial. Mas, mesmo nesse cenário, as startups brasileiras tiveram recordes de investimentos e terminaram o ano com duas excelentes novidades. Parece que depois de um ano de turbulências, teremos mais um “mar de almirante” para as startups em 2021.

Ninguém dúvida que 2020 será alvo de muitas reflexões no futuro. A tragédia global provocada pela pandemia da Covid-19, que contaminou mais de 73 milhões de pessoas, causou a morte de mais de 1,6 milhões (números de meados de dezembro/2020) e continua se espalhando pelo mundo enquanto soluções definitivas ainda não estão disponíveis. Porém, seus impactos vão muito além da área da saúde. A pandemia gerou (e continuará gerando) um impacto profundo na economia e no comportamento das pessoas.

Embora estejamos vendo um início de recuperação da economia, segundo o IBGE, mais de 500 mil empresas fecharam suas portas no primeiro semestre de 2020, sendo 40% delas declaradamente por consequência da pandemia. Nos EUA, os dados do Departamento do Trabalho mostraram uma a taxa de desemprego de 14,7% no pico de abril/2020. Embora este número já tenha se reduzido para 6,7% em dezembro/2020, ele ainda é bastante alto, quase o dobro da média de 2019. O mesmo ocorre com varejo, que teve queda global de 37,4% no Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA) em abril/2020.

Mas nem só de tragédias e más notícias vive-se em 2020. Neste ano repleto de incertezas, o universo das startups mostrou-se ainda mais resiliente e seguiu sua trajetória de crescimento acelerado de forma impressionante. E mais. O final de 2020 foi contemplado com as aprovações na Câmara dos Deputados do Marco Legal das Startups e do PLP 135/2020 que prometem garantir a continuidade desta trajetória de crescimento nos próximos anos. Vamos entender por que esse foi o ano das startups no Brasil e por que esse otimismo deve continuar para 2021?

Recorde de investimentos:

Embora o ano ainda não tenha acabado, tudo indica que este será o ano com maior volume de investimentos em startups da história do país. Em levantamento recente feito pela Distrito, até novembro de 2020, o volume de investimentos no ano tinha sido cerca de R$ 14,6 bilhões, contra R$ 11,8 bilhões no mesmo período de 2019, um incremento de 24,2% em Reais.

Em termos de número de operações, os recordes anteriores já haviam sido batidos com folga. Neste ano tivemos 456 operações de investimentos e 118 de fusões e aquisições entre startups. Esses valores são respectivamente 28,1% e 87% maiores que todo o ano dos recordes anteriores – 356 investimentos em 2017 e 63 fusões e aquisições em 2019.

Mas qual razão para tamanho crescimento num ano tão cheio de incertezas? Podemos destacar alguns pontos que fizeram das startups as estrelas do conturbado ano de 2020:

1.Cultura e Transformação Digital:

De modo geral, as startups já começam sua jornada com uma forte cultura digital. Muitas delas possuem a maior parte da força de trabalho de “nativos digitais” plenamente acostumados a utilizar toda sorte de ferramentas online. Diversas delas já trabalhavam no modelo de home-office antes da pandemia com funcionários espalhados por diversos lugares do mundo trabalhando remotamente. Além disso, boa parte de seus negócios, vendas, fornecedores, marketing também já funcionavam de maneira integrada no mundo digital.

Nesse cenário, enquanto algumas grandes empresas tiveram que implementar a força e em semanas planos de transformação digital planejados anteriormente para meses ou anos (gerando toda sorte de complicação de fazer mudanças dessa forma), boa parte das startups pouco mudaram no seu jeito de atuar. Claro que nem todas as startups se destacaram durante a pandemia, mas diversas que seguiam modelos de e-commerce, plataformas online e soluções para trabalho remoto, por exemplo, tiveram um crescimento bastante significativo em 2020.

2.Flexibilidade, Agilidade e Resiliência:

Entre as principais características das startups estão a combinação de flexibilidade e agilidade. A sua capacidade de se adaptar rapidamente em um mundo VUCA – volátil, incerto, complexo e ambíguo – as vezes é tão presente que chegamos a achar que esses atributos fazem parte da própria definição de startup. Uma startup é capaz de demitir ou realocar uma grande quantidade de recursos e mudar seu negócio principal em pouco tempo, como fez a MaxMilhas, startup de emissão de passagens áreas via milhas. A empresa, que foi duramente afetada pela pandemia devido à redução dos vôos, demitiu 42% dos seus funcionários, conseguiu remarcar 70% das passagens emitidas, desenvolveu novas frentes de negócio e já começa a se reerguer para um 2021 com metas bastante arrojadas e novos negócios em início de operação.

Uma outra qualidade bastante útil das startups (e de seus empreendedores) é a resiliência. Muitas vezes startups apresentam produtos, serviços e modelos de negócio tão inovadores que precisam “educar seus os consumidores” antes de ter sucesso. Outras vezes, por ameaçar grandes empresas e negócios já estabelecidos acabam enfrentando verdadeiras guerras de David versus Golias. Por isso, é comum startups enfrentarem longos períodos em que parece que tudo dará errado antes de iniciarem sua trajetória de crescimento. Para não desistir no meio do caminho diante de tantos obstáculos, entra a famosa resiliência dos empreendedores (muitas vezes confundida com teimosia). A Netflix é um ótimo exemplo da resiliência capaz de suportar o período de aparente estagnação da chamada curva “taco de hóquei”. Por três anos a empresa ficou com crescimento quase zero buscando novos modelos até encontrar um que de fato a permitisse crescer rapidamente e se tornar a empresa que é hoje. A resiliência desses empreendedores os permite passar por turbulências como esta pandemia e saírem ainda mais fortes ao final do processo.

3.Ativos de Conhecimento:

Um outro fator importante que ajuda explicar o sucesso das startups neste ano é a o fato de seus principais ativos serem ativos intangíveis. Durante períodos de crise, ativos físicos tentem a sofrer mais desvalorização e serem mais voláteis. Já o conhecimento, cultura organizacional e outras “soft skills” de maneira geral não desaparecem ou se desvalorizam durante as crises e muitas vezes seguem o caminho contrário. O escritor Nassim Taleb diz que existem pessoas e empresas que são anti-frágeis, ou seja, não apenas resistem a situações difíceis, mas também são capazes de aprender com elas e se fortalecer. Esse modelo de aprendizado com o erro e as dificuldades sem dúvida tornam as startups mais preparadas para barreiras geradas pelo contexto de 2020.

Mas nem todas as empresas e instituições são anti-frágeis. E isso resulta em outra vantagem para startups e empresas que conseguem ser. Diante da necessidade de sobreviver com pouco caixa, diversas empresas tiveram que se desfazer de ótimos profissionais, o que abriu espaço para quem conseguiu se adaptar e sobreviver contratar pessoas muito boas com menor investimento. Isso seria um fator menos importante se não houvesse, no Brasil e no mundo, um déficit enorme de profissionais qualificados nas áreas de tecnologia da informação (TI). Antes da pandemia, a Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom) estimava um déficit de 290 mil profissionais de TI no Brasil até 2024. No mundo, a IDC estima que esse déficit é seja de 570 mil profissionais por ano. Startups que se adaptaram bem à pandemia conseguiram adquirir ativos de conhecimento muito mais baratos do que normalmente seria.

4.Valuations Atrativos, Menor Volatilidade

Pelo lado objetivo dos investidores, também há vantagens bastantes concretas para investir em startups em 2020. Muitas startups crescem seguindo a famosa “curva J”, ou seja, para sustentar um crescimento exponencial, ficam propositalmente um certo tempo no prejuízo, investindo pesadamente em marketing, vendendo seus produtos abaixo do preço de custo ou mesmo os fornecendo de graça. É fácil perceber essa estratégia quando vemos serviços de alta qualidade baratos ou mesmo de graça, como as promoções agressivas de Uber e iFood, o buscador e Gmail do Google, o Whatsapp, etc. Essas startups passaram anos no “vermelho” para depois virarem a chave e se tornarem lucrativas. A questão aqui é que, para financiar esse “prejuízo proposital temporário”, elas precisam de investidores de risco. O momento atual de crise viabilizou e acelerou uma série de negociações com valuations mais ajustados que estavam emperrados devido a euforia dos unicórnios de 2019.

Outro fator importante pela ótica do investidor é a menor volatilidade dos investimentos. Os ciclos de maturação e crescimento de uma startup, de seus passos iniciais até a consolidação leva, em média, 8 anos (a ideia da startup que explode em crescimento em 6 meses é, uma exceção… No geral, isso é muito mais mito do que realidade). Por terem esses ciclos mais longos e por terem poucas saídas intermediárias, startups possuem menor variação de valor quando comparados com ativos líquidos como bolsa de valores durante crises momentâneas, como a causada pelo Coronavirus. Enquanto os investimentos em startups se mantiveram estáveis em 2020, o Ibovespa, começou o ano em 118 mil pontos, caiu para 63 mil em abril, e terminou o ano no mesmo patamar que começou (118 mil pontos), gerando inúmeros ganhos e perdas no meio do caminho.

Assim, por esses (e alguns outros) motivos tivemos recordes de investimentos, fusões e aquisições de startups no Brasil em plena pandemia. Mas o que foi bom em 2020, em 2021 promete ser ainda melhor!

O Marco Legal de Startups e o PLP 135/20

Enquanto ainda eram consolidados os recordes de 2020, duas excelentes notícias para as startups surgiram do Legislativo prometendo um 2021 ainda melhor. Estamos falando do Marco Legal das Startups e do PLP 135/2020 que prometem alavancar ainda mais o crescimento das startups e dos seus investimentos neste ano. Eles foram aprovados em dezembro/2020 com votações positivas expressivas na Câmara (361 a 66 e 385 a 18 respectivamente) e prometem tirar boa parte das barreiras que ainda impedem o crescimento do nosso ecossistema de inovação.

Sobre o Marco Legal das Startups, o texto trás uma série de novidades dentre as quais se destacam a criação programas que envolvam ambientes regulatórios experimentais para inovação (“sandbox regulatório”); a simplificação de obrigações das sociedades anônimas com faturamento abaixo de R$ 78 milhões (como publicação de balanço em veículos de grande circulação, por exemplo); a diferenciação, com segurança jurídica, do mecanismo de “stock options” em relação às remunerações vinculadas às leis trabalhistas tradicionais; a possibilidade de compras públicas sem licitação para soluções de startups e que envolvam riscos tecnológicos; a maior segurança jurídica para os aportes de investidores-anjo entre outras mudanças fundamentais para melhoria do ambiente de negócios para startups e investidores de risco.

Já o PLP 135/2020 atua garantindo a ampliação e continuidade dos recursos de apoio governamental para startups de alto risco tecnológico e projetos de pesquisa que podem virar startups, conhecidos como spin-offs. Nos últimos anos o FNDCT, principal fundo nacional de apoio a ciência, tecnologia e inovação (C,T&I), tem sofrido fortes contingenciamentos, inviabilizando projetos maior risco tecnológico e startups inovadoras. Em 2019, por exemplo, o volume arrecadado pelo fundo foi de R$ 6,3 bilhões de reais. Entretanto, o valor de fato disponibilizado após as reservas de contingência foi de apenas R$ 2,3 bilhões, pouco mais de 1/3 do total. Com o PLP, esses recursos não serão mais contingenciados e poderão ter ciclos maiores, organizações sociais (OS) vinculadas ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação poderão ter mais recursos entre outros pontos. São programas como o Finep Startups, Centelha e Inovacred da Finep, o modelo cooperativo da Embrapii, o apoio a incubadoras e parques tecnológicos, o apoio à pesquisa e desenvolvimento em universidades e institutos de pesquisa que poderão gerar spin-offs… Tudo isso de maneira direta ou indireta, irá afetar positivamente a criação e o crescimento de centenas (ou milhares) de startups brasileiras devido às novidades que podem impactar o FNDCT nos próximos anos.

Estamos apenas começando o novo ano, o Covid-19 ainda é uma realidade a nos assolar, mas, pelo menos no campo das startups, parece que 2021 será mais um ano promissor e com muitos recordes positivos sendo batidos. Definitivamente, o mar estará para as startups e empreendedores em 2021!

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