O futuro da inovação digital
Inovação

O futuro da inovação digital

Algumas megatendências na China que podem servir de referência ao restante do mundo nesta década

Nos últimos anos, no Brasil e no mundo, surgiram plataformas digitais chamadas de “SuperApps”, que reúnem e fornecem diversos serviços aos milhares de clientes cadastrados em suas bases de dados. Empresas como Magalu, Rappi, Submarino e Banco Inter são algumas das marcas nacionais que oferecem serviços financeiros, entrega de refeições e itens de supermercados, cashback, compras de roupas e eletrônicos e mesmo reserva de viagens em um único ambiente digital.

Embora seja um conceito recente por aqui, a gigante WeChat, da empresa chinesa Tecent, com quase 1 bilhão de usuários, já está no ar há mais de uma década, desde 2011. Em vez de ter 10 aplicativos instalados no celular, as pessoas conseguem em um único aplicativo: agendar um corte de cabelo, chamar um táxi, escutar músicas, realizar doações e ações sociais, comprar um peixe na feira e pagar via QR Code e até mesmo buscar um relacionamento amoroso.

Mais uma coincidência com que vemos por aqui?

Como a Meta (novo nome do Facebook) ganha dinheiro hoje? Principalmente por meio de anúncios e posts patrocinados que as empresas pagam para conseguir alcançar os bilhões de usuários ativos em mídias sociais, como Instagram e o próprio Facebook. A organização tenta entrar também no setor de meios de pagamentos com o WhatsappPay no Brasil, país-teste da empresa com 130 milhões de usuários.

Enquanto o WeChat é referência mundial e serve de inspiração às empresas de tecnologia, varejo e finanças, faz alguns anos que Mark Zuckerberg tenta transformar sua empresa no WeChat Pay do Ocidente, embora tenha esbarrado em regulamentações governamentais nos Estados Unidos.

Este é apenas um exemplo dentre outras gigantes de tecnologia no Oriente, como Xiaomi, Didi (dona da 99), Alibaba e Baidu.

Por que ficar de olho na China?

Em pouco tempo o país se tornou uma das maiores economias digitais do mundo. Quando morei em Pequim e visitei Xangai em 2012, o país começava a construir seu ecossistema de inovação, composto por: empreendedores e startups, incentivo governamental, universidades gerando talentos, investidores e grandes empresas. Mais tarde, já em 2015, 12% dos estudantes da Universidade de Pequim abriram ou trabalharam em startups. Outros dados recentes confirmam a evolução:

A China tem cerca de 1 bilhão de usuários de Internet hoje;

Em 2020, e-commerce representou 30% de todas as vendas no varejo, o que equivale a US$ 1,7 trilhão.

E não se trata apenas de números e da magnitude do mercado chinês. É, acima de tudo, uma história de inovação e disrupção. O país continua desenvolvendo muitas inovações chamadas de “China First” em áreas como varejo, mídias sociais, serviços sob demanda, mobilidade, fintech, healthtech, entre outras. Vale ressaltar que na mesma proporção que o governo chinês investe em tecnologia, pode também barrar a entrada de novos modelos digitais se achar que contrariam suas regras e interesses, como veremos adiante.

#1 – A integração total do varejo

A consolidação de setores de varejo continuará ocorrendo, com integração massiva dos comércios digital e físico, que vai além do conceito “omnichannel” (físico e online). Os principais fatores serão:

Economia cada vez mais sob demanda: entretenimento, alimentação, educação, conteúdos, notícias. Quando as pessoas estão com fome fazem um pedido em poucos cliques. Se estão assistindo ao futebol, resolvem comprar cerveja e petiscos rapidamente. Antes de ir fazer uma trilha na floresta, compram roupas adequadas pelo site e as experimentam na loja.

Economia social: mídias sociais com enorme influência e impacto direto em compras online, seja via anúncios durante um vídeo ou transmissão ao vivo (“live streaming”).

Cadeia logística mais robusta: supply chain será desafiada a se tornar mais ágil para atender a pedidos sob demanda diversificados e mais frequentes, bem como prever melhor as tendências do consumidor e as fontes de demanda (Data Analytics).

O comércio social, pelo qual consumidores podem comprar produtos diretamente pelas mídias sociais, sem necessidade de ir até um e-commerce, será expandido e responsável por uma parcela cada vez maior da margem digital. Essa tendência ocorrerá a partir da melhoria no atendimento, do aumento da satisfação dos clientes e do desejo por conveniência e eficiência, que reduzirá rapidamente a lacuna entre o e-commerce tradicional e o sob demanda.

Enquanto isso, fontes confiáveis ​​de informações sobre produtos e serviços continuarão relevantes para tomadas de decisões dos consumidores a partir de vídeos, mídias sociais, mobile, web e TV.

Somado a isso, o e-commerce baseado em conteúdo ganhará relevância em plataformas de compartilhamento de vídeo como Douyin (a versão chinesa de Tiktok) e Bilibili. As transmissões ao vivo durante as quais os expectadores podem comprar via QR code também se tornarão mais populares à medida que a China avança para a Era 5G e Internet das Coisas (IoT).

#2 – Digitalização exponencial de serviços, em especial educação

A digitalização de serviços e experiências online dos consumidores aumentou substancialmente em diversos setores ao redor do mundo em decorrência da pandemia nos últimos dois anos. Na área de educação, a digitalização deve compensar e equilibrar os gastos públicos desiguais que são mais de três vezes maiores nas metrópoles do que em cidades menores. Plataformas como o DingTalk do Alibaba, um aplicativo de comunicação e colaboração, facilitarão a convergência educacional online e offline aos jovens chineses. A geração atual de alunos está mais propensa a um modelo integrado “online to offline” (O2O). De acordo com uma pesquisa da plataforma de educação O2O Aixuexi, 68% dos pais chineses preferem a abordagem integrada ou híbrida do que unicamente presencial.

Escolas digitais baseadas em Inteligência Artificial para transformar completamente as experiências dos alunos

Enquanto ocorre a mudança geracional na China, o país continua expandindo investimentos e experimentos em tecnologia de Inteligência Artificial (IA) na área de educação, com objetivo de gerar aprendizados personalizados, interativos e cada vez mais interessantes aos alunos. À medida que a internet de altíssima velocidade (5G) avança no país, novos modelos de escolas proporcionam um ensino adaptativo para cada jovem, com aulas e conteúdos customizados a partir de preferências individuais de aprendizagem e preferências de estudo.

Enquanto que no modelo tradicional de Educação à Distância (EAD) os professores apresentam um único conteúdo e seguem o mesmo ritmo de aula com a premissa de que todos os estudantes possuem o mesmo nível de entendimento, a escola digital Squirrel AI Learning by Yixue Group identifica pontos fracos e de melhorias de cada aluno, proporcionando mentorias, conteúdos e planos de aprendizagem personalizados a partir de sua plataforma de IA, atuando como auxiliar dos professores em grande escala.

Os resultados desta EdTech impressionam:

Tornou-se case de Stanford;

Atingiu valor de mercado de mais de US$ 1 bilhão;

Tem 3 mil professores e 2 mil centros de ensino em 200 cidades na China.

Segundo a Singularity Hub, a Inteligência Artificial (IA) alcançará inteligência de cérebro humano até 2030. Ainda nos próximos anos, algoritmos e Machine Learning serão cada vez mais disponibilizados em código aberto na nuvem, permitindo que pessoas com conexão à internet complementem suas habilidades cognitivas, aumentem sua capacidade de resolução de problemas e construam novos negócios com baixo custo.

Essa megatendência será impulsionada pela convergência da conectividade global de alta conectividade de banda, como 5G, redes neurais e computação em nuvem. Ou seja, não apenas educação, vários outros setores serão impactados e transformados, como agronegócio, saúde e entretenimento.

#3 – Digitalização de nossas vidas sociais

Espera-se que até 2030 a Realidade Aumentada e a web espacial serão onipresentes. A combinação de AR e redes 5G transformará a forma como vivemos nossas vidas cotidianas, impactando todos os setores, de varejo e publicidade a educação e entretenimento. Nós iremos jogar, aprender e comprar ao longo do dia em um mundo inteligente e virtualmente sobreposto. Essa tendência será impulsionada pela convergência de avanços de hardware, 5G, Inteligência Artificial, ciência de materiais e crescimento do poder de computação.

Embora a nossa referência de inovação se baseie, em grande parte, pelas novidades apresentadas pelas gigantes de tecnologia, como Facebook, Google, Amazon, Apple e Microsoft, alguns casos da China podem ser observados há algum tempo.

Meta e Microsoft

Nos últimos meses, um dos assuntos mais comentados no mundo, é o Metaverso, um mundo virtual onde as pessoas podem realizar reuniões, compras, encontros, interações e negócios por meio de equipamentos de realidade virtual e avatares. O termo “metaverso” surgiu em 1992, pelo autor Neal Stephenson, que indicava um local onde as pessoas interagiriam virtualmente por meio avatares, segundo Allan Costa.

Nesta luta de pesos pesados, a Microsoft anunciou o Mesh, sua versão do metaverso prevista para 2022. A empresa pretende adotar novos recursos para aplicações como o MS Teams, que permitirá reuniões virtuais com avatares em 3D, em um ambiente bastante interativo.

O que as duas empresas têm em comum para conseguir alcançar suas ambições que o Second Life não teve nos anos 90?

Enorme base enorme de usuários em seus aplicativos (vide Whatsapp, Instagram, LinkedIn, etc.);

Combinação de diferentes tecnologias que somadas permitem criar este novo mundo online: Realidade Virtual, live-streaming, criptomoedas, Realidade Aumentada, mídias sociais;

Maturidade de aceitação pelo público: pessoas em fazer negócios e interações, marcas com interesse de anunciar, investidores.

E a China?

Os consumidores chineses têm mudado cada vez mais os hábitos, as interações sociais e as atividades de lazer para ambientes virtuais ao longo dos últimos 15 anos. À medida que as interações sociais físicas são cada vez mais orquestradas por meio de comunidades virtuais, as atividades sociais online e offline também se unem.

Em 2007, a empresa chinesa HiPiHi, também com o contexto de metaverso, foi inaugurada com uma comunidade formada por cerca de 30 mil pessoas. Neste universo digital havia templos budistas, dragões, feng shui, motivos relacionados com os Jogos Olímpicos de Pequim 2008. Os habitantes do ambiente tinham que respeitar as leis chinesas, estando já ativas algumas restrições, como a utilização de expressões que prejudiquem os interesses da China.

Embora fosse um negócio promissor, com dois pilares importantes para adoção de um novo modelo de negócio (tecnologia com maturidade e aceitação e engajamento de pessoas), o grande entrave neste caso foi o próprio governo chinês, que teria pouca autonomia para controlar ou censurar a população.

Mais recentemente, em 2021, a China proibiu negociações com criptomoedas, e mais uma vez deve restringir outras duas tecnologias no país: tokens não fungíveis (NFTs) e metaverso. Gou Wenjun, chefe da Unidade Antilavagem de Dinheiro do Banco Central Chinês, sugeriu que criptomoedas, NFTs e mundos virtuais podem ser usados como uma ferramenta de lavagem de dinheiro por criminosos.

Mesmo diante de barreiras de regulamentação, essa tendência de comportamento que surgiu particularmente em cidades menores, onde as interações presenciais eram mais limitadas, continua crescendo. Hoje, em megalópoles, como Xangai, uma comunidade de bicicletas vinculada a aplicativos expande suas atividades e interações para outras áreas da vida social. Já em sites de streaming de jogos online como Huya e DouYu, as pessoas levam as interações das salas de chat para o mundo real, organizando aulas de ioga e clubes de corrida.

Já a gigante Tencent está construindo um ecossistema descentralizado, competitivo e de cocriação amigável, baseado em games, e-commerce e mídias sociais, com impactos significativos no mundo físico. Mais comunidades podem se formar em torno de aplicativos sociais, incluindo aqueles que facilitam o match entre donos de uma marca.

Embora sejam três tendências fortes na China na última década, já são realidades muito maduras no Ocidente. Vamos acompanhar os próximos anos em 2022.


Este artigo foi produzido por Adriano Ueda, Digital Commerce & CX na BASF Agricultural Solutions, Professor de MBA na FGV, Co-fundador na Supernova (EdTech) e colunista da MIT Technology Review Brasil.

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