O exercício físico pode mudar o curso do câncer?
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O exercício físico pode mudar o curso do câncer?

Estudos apontam benefícios da atividade física na prevenção, na tolerância ao tratamento e na sobrevida de pacientes, mas transformar as evidências em parte do cuidado oncológico ainda é um desafio

Parar de fumar. Reduzir o consumo de bebidas alcoólicas. Controlar o peso. Ao lado dessas recomendações já bem conhecidas no combate ao câncer, outro fator vem ganhando cada vez mais espaço, com o respaldo da ciência: o exercício físico. Uma análise recente da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), que se baseou nos dados de quase 600 mil adultos de seis países europeus, constatou que pessoas fisicamente mais ativas tinham menor risco de desenvolver 15 tipos de câncer.

As evidências acumuladas ao longo dos últimos anos mostram ainda que, durante o tratamento, exercícios aeróbicos e de resistência podem reduzir a fadiga e preservar a força e o condicionamento físico. Agora, as pesquisas começaram a investigar outra possível vantagem: o exercício poderia mudar o curso da doença?

De acordo com o ensaio clínico Challenge, publicado no renomado periódico The New England Journal of Medicine no ano passado, existem grandes chances. Para chegar a essa conclusão, os cientistas acompanharam cerca de 900 pacientes de câncer de intestino durante quase oito anos (mediana de 7,9 anos). O grupo submetido a um programa de exercícios físicos estruturados (isto é, planejados, com objetivos definidos) apresentou 28% menos risco de recidiva, novo câncer ou morte. Já a sobrevida livre do tumor por cinco anos foi de 80% nesse grupo contra 73,9% no outro, que recebeu apenas informações sobre saúde.

O resultado não significa que o exercício cura o tumor, até porque o estudo foi realizado em uma população específica de pacientes com câncer de cólon que já haviam concluído a quimioterapia. Os especialistas, porém, são otimistas. “Anos atrás, orientávamos o paciente com câncer a descansar durante o tratamento. Isso mudou completamente, e o Challenge reforçou essa mudança. Antes, a recomendação era que ele fizesse uma caminhada diária de meia hora, por exemplo. Hoje, sabemos que mais do que evitar o sedentarismo, é preciso investir em um programa estruturado de exercícios físicos”, afirma o cirurgião oncológico Samuel Aguiar Junior, líder do Centro de Referência em Tumores Colorretais do AC Camargo Cancer Center.

O que a ciência já sabe sobre o papel do exercício físico contra o câncer

Como, afinal, o exercício físico pode aumentar a sobrevida do paciente e até mesmo impedir que o câncer volte em alguns casos? Segundo o especialista, ainda não se conhecem exatamente os mecanismos biológicos envolvidos, mas uma das hipóteses é que ele promova um reequilíbrio do metabolismo. “De modo geral, o sedentarismo também está relacionado à obesidade, que aumenta o risco de diversos tipos de câncer. Ao regular a proporção de massa muscular e gordura corporal, regularizam-se também a inflamação sistêmica comum em pessoas obesas, assim como os hormônios e a resistência insulínica, fatores que podem influenciar o crescimento das células tumorais”, explica Samuel Aguiar Junior, do AC Camargo Cancer Center.

Há também indícios de que a atividade física possa fortalecer a resposta imunológica, de acordo com a fisioterapeuta oncológica Tania Tonezzer, cofundadora da ONG Onco Movimento e membro do Comitê Científico do Instituto Vencer o Câncer. “O exercício regular parece aumentar a vigilância imunológica, pela atividade das células natural killer (NK), que reconhecem e destroem células tumorais”, diz Tania.

A importância da atividade física no cuidado oncológico tem levado sociedades médicas de todo o mundo a elaborar diretrizes específicas para orientar e ampliar a conscientização dos profissionais de saúde, conforme destaca uma revisão de literatura recente da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (USP). Por aqui, um guia produzido pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), em parceria com o Instituto Nacional de Câncer (Inca) e a Sociedade Brasileira de Atividade Física e Saúde (SBAFS), recomenda a realização de 150 minutos de atividade física de intensidade moderada por semana ou 75 minutos de atividade física vigorosa por semana ou uma combinação das duas, durante e depois do tratamento.

E todo paciente de câncer pode praticar exercícios físicos? De acordo com a fisioterapeuta oncológica Tania, do Onco Movimento, há situações em que ele deve ser temporariamente evitado. “Mas evitar quase sempre significa adaptar, pausar ou trocar o tipo de exercício por alguns dias, não voltar ao repouso como regra”, afirma. É o caso, por exemplo, de pacientes com queda importante de glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas, comum nos cânceres hematológicos. “Durante o exercício, sinais como dor intensa, falta de ar excessiva ou tontura persistente também indicam que é preciso parar imediatamente”, acrescenta a especialista. Por isso, Tania reforça a importância do acompanhamento profissional, seja de um educador físico, seja de um fisioterapeuta, que devem trabalhar em conjunto com a equipe oncológica.

E o que ainda falta descobrir?

Uma das principais questões que os cientistas investigam sobre a relação entre câncer e atividade física é quanto da redução do risco de desenvolver determinados tipos de câncer pode ser atribuída, de fato, à atividade física e quanto pode ser explicado por outros fatores relacionados ao estilo de vida. Afinal, pessoas fisicamente ativas podem diferir das sedentárias em diversos aspectos, como alimentação, tabagismo, peso corporal, renda e acesso aos serviços de saúde, entre outros.

Outro desafio é que grande parte das pesquisas nessa área é observacional. Nesse tipo de estudo, os pesquisadores analisam dados sobre fenômenos que ocorrem naturalmente, sem intervir diretamente nas variáveis investigadas. Embora essas pesquisas sejam fundamentais para identificar associações e formular hipóteses, elas não permitem, por si só, estabelecer uma relação de causa e efeito com segurança.

Foi nesse contexto que o estudo Challenge ganhou tanta relevância. Por meio de um ensaio clínico randomizado de fase 3, padrão-ouro na ciência médica para provar se um novo tratamento funciona, os cientistas demonstraram que um programa estruturado de exercícios físicos, realizado após a quimioterapia, melhorou a sobrevida livre de doença em pacientes com câncer de cólon. Ainda assim, resta mais uma questão importante: os benefícios podem se estender a outros tipos de câncer? “Naqueles associados a alterações metabólicas, como os de mama e próstata, provavelmente sim. No caso da mama, inclusive, já temos pesquisa que mostra essa relação. Mas em outros tipos de câncer com fatores mais preponderantes, como é o caso do câncer de pulmão e do cigarro, não sabemos”, pontua o cirurgião oncológico Samuel Aguiar Junior, do AC Camargo Cancer Center.

De qualquer maneira, a fisioterapeuta oncológica Tania Tonezzer conta que observa os benefícios relatados nos estudos na prática do consultório. “Ao longo desses anos, vejo isso tanto em pacientes que já eram ativos antes do diagnóstico e continuaram se exercitando quanto nos que nunca tinham feito exercício estruturado e começaram durante ou depois do tratamento. Na grande maioria, para não dizer em todos, os ganhos são consideráveis: em qualidade de vida, em desempenho físico e, sobretudo, na tolerância ao tratamento”, afirma.

A especialista também fala por experiência própria. Em 2008, seis meses depois de terminar uma quimioterapia, Tania subiu o Tepozteco, no México: uma trilha íngreme de cerca de 2 km, com escadarias, até um sítio arqueológico a 2.300 metros de altitude. “Durante o tratamento eu tinha passado por fadiga intensa e cardiotoxicidade (danos na função do músculo cardíaco, provocados por efeitos colaterais). Aquela subida não foi um feito excepcional: foi o resultado de um caminho de recuperação pelo movimento, que hoje deveria ser o padrão de cuidado”, completa.

Um benefício ainda pouco acessível

Embora o conhecimento sobre os benefícios da atividade física no combate ao câncer esteja cada vez mais difundido no meio médico, os especialistas ouvidos pela MIT Technology Review Brasil ressaltam que essas informações ainda estão longe de alcançar toda a população, especialmente fora dos grandes centros urbanos. A fisioterapeuta e maratonista Raquel Castanharo não conhecia essa associação até o ano passado, quando ela própria foi diagnosticada com câncer de mama.

“Pude comprovar como os exercícios físicos são fundamentais para tolerar o tratamento. Tanto que hoje me tornei porta-voz desse tema”, conta Raquel. De 2025 para cá, ela passou por uma cirurgia para retirada da mama, além de várias sessões de quimio e radioterapia. Há alguns meses, começou a hormonioterapia e chegou a publicar um livro (“Este livro não é só sobre corrida”, da Editora Planeta). “Em alguns momentos fiz exercícios regularmente, em outros não conseguia me levantar da cama. Mas, se antes encarava a atividade física como um remédio para viver bem, hoje sei que é também um remédio para sobreviver ao câncer”, conclui.

A maratonista reconhece, no entanto, que transformar esse conhecimento em prática é um desafio para qualquer pessoa, inclusive para quem não enfrenta um câncer. Recentemente, em um congresso do movimento Todos Juntos Contra o Câncer, Raquel discursou sobre o tema a uma plateia repleta de profissionais de saúde. “Falar para o paciente que ele tem de se exercitar, sem políticas públicas que favoreçam a mudança, não basta”, acredita.

O epidemiologista Leandro Rezende, professor do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), concorda. Para Rezende, que participou da criação do guia da SBOC para profissionais de saúde, o aumento da incidência do câncer entre os brasileiros torna ainda mais urgente o olhar sobre o que significa viver depois da doença. “O exercício físico pode contribuir não apenas para que as pessoas vivam mais, como também vivam melhor”, resume.

O epidemiologista defende que estratégias de promoção da saúde ganhem mais espaço nas políticas de prevenção do câncer, tradicionalmente concentradas em campanhas de rastreamento e diagnóstico precoce. “O potencial de medidas como a atividade física para ampliar os anos e a qualidade de vida ainda é negligenciado, mesmo que seja consideravelmente mais econômico do que o rastreio”, avalia.

Se o cigarro, o álcool e a obesidade entraram no radar da oncologia há tempos, agora chegou a vez do sedentarismo. A história — e a ciência — mostram que não é uma batalha fácil, pois exige mudanças de hábitos individuais, mas também transformações coletivas. Um esforço que, literalmente, vale a pena.

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