Netflix muda roteiro para entretenimento e vendas
Negócios e economia

Netflix muda roteiro para entretenimento e vendas

A maior empresa de streaming do mundo diversificou seus negócios criando nova avenida de receita por meio de um e-commerce que será potencializado por séries, filmes e animações de sucesso.

De acordo com um estudo do Leichtman Research Group, 78% de todas as residências dos Estados Unidos assinam pelo menos um serviço de vídeo sob demanda (SVOD), como Netflix, Amazon Prime e Hulu, contra 69% em 2018 e 52% em 2015, apontando para um crescimento vertiginoso desse mercado mesmo em situação pré-pandêmica.

Em relação ao comportamento do consumidor, é cada vez mais comum optar por assinar mais de um serviço. Uma pesquisa da consultoria Parks & Associates apontou que 31% das famílias americanas assinam quatro ou mais serviços, enquanto 14% optam por três serviços e 32% se contentam com apenas dois ou um. Desse total, 22% informaram que não assinam nenhum tipo de serviço.

Em suma, esse tipo de entretenimento vem substituindo outros meios midiáticos e se tornando uma das principais formas de entretenimento na atualidade. No Brasil, a sua relevância não é diferente: em 2020, o setor de streaming no país cresceu cerca de 26% por causa da busca das pessoas por entretenimento em meio à pandemia. Atualmente, mais da metade dos brasileiros já assina pelo menos um serviço de streaming, de acordo com a pesquisa “Mercado, consumo e diversidade em serviços de vídeo streaming na América Latina”, feita pela Sherlock Communications.

Maior distribuição, mais possibilidades

Quando falamos especificamente sobre Netflix, trata-se do maior player do mercado no Brasil, sendo a empresa adotada por 90% dos consumidores desse tipo de produto, como indica o relatório da marca no Brasil, realizado pelo Statista em 2021, demonstrando uma incrível taxa de penetração no mercado, se considerarmos o ponto já comentado, no qual mais da metade da população brasileira consome SVOD:

Fonte: Statista

O que levou a organização a realizar um próximo passo neste ano, mais especificamente em julho de 2021: lançar o seu próprio e-commerce. Ao contrário de outras plataformas rivais, como HBO Max e Amazon Prime Video nos EUA, a Netflix não exibe e não tem planos de exibir anúncios. Ou seja, a sua receita vem quase exclusivamente dos pagamentos de mais de 200 milhões de assinantes ao redor do mundo.

Notadamente, a Netflix está optando por um modelo de negócio similar ao caso da Disney, tornando o ativo da criação um apoiador para se criar novas vias de receita. É aí que entra o Netflix.shop. Um grande passo para uma direção relativamente lógica, dado o impacto gigantesco que a empresa teve no ano passado no varejo e em outros serviços.

Exemplos de impacto da Netflix no varejo

A série ‘The Last Dance’ ou ‘O último arremesso’, por exemplo, que relata a vida de Michael Jordan, teve grande impacto nas vendas da marca. Realizada pela Netflix em parceria com a ESPN e produzida pela Nike (patrocinada), a série influenciou um crescimento de 15% na categoria dos produtos da linha Jordan em 2020, chegando a uma receita de US$ 3,6 bilhões no ano.

Indo na contramão do mercado de esportes, sendo a única categoria de produtos da marca a atingir um aumento nas vendas em meio a um cenário de confinamento, graças à influência da série, segundo o atual CEO, Jonn Donahoe em uma conferência de resultados do ano passado.

Movimentos semelhantes ocorreram após a série “O Gambito da Rainha”, com o enredo sobre a vida de uma personagem que é jogadora de xadrez, o que influenciou fortemente o mercado de xadrez, devido ao sucesso da série. O Chess.com, por exemplo, uma rede social e site de servidor de xadrez, adicionou cerca de 2,8 milhões de novos usuários apenas em novembro, época em que a série foi lançada. Assim como a varejista de brinquedos Goliath Games teve um aumento nas vendas de jogos de xadrez em novembro e dezembro, o que, de acordo com Mary Higbe, diretora de marketing da Goliath, representou um aumento de 1.100% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Um canal de influência

Quando se trata de canais de vendas ou relacionamento com o cliente, eu sempre digo: “Você precisa estar onde o seu cliente está.” No caso da Netflix, ela optou por verticalizar e lançar a sua solução própria com a Netflix.shop, sendo possível adquirir bonés de beisebol, camisetas, capuzes e suéteres “Lupin”, casacos “House of Cards”, colares “The Crown”, linha de roupas “Yasuke”, acessórios e kits de beleza “To All the Boys I’ve Loved Before” e até vestuários da marca Netflix.

Uma curiosidade interessante é que o executivo que está liderando a iniciativa é Josh Simon, ex gestor na Nike, que entrou na companhia em março de 2020 para dirigir a divisão de produtos de consumo.

Em um panorama geral de mercado, as vendas de produtos licenciados vinculados a programas, filmes e personagens foram de cerca de US$ 128 bilhões globalmente em 2019, de acordo com um estudo do grupo comercial, Licensing International. Agora, com a Netflix entre os players de vendas relacionados, podemos esperar um aumento nessas cifras.

Apesar da iniciativa, Simon, o executivo da Netflix, disse que o dinheiro gerado pelo site de compras não deve corresponder à quantia que a Netflix ganha por meio de seus acordos com cadeias de lojas e marcas de moda espalhadas pelo mundo, que usam a plataforma para merchandising, o que é compreensível.

Reflexão sobre novos horizontes

O Netflix.shop é o pontapé inicial da empresa na união do entretenimento com as vendas. Ponto para a organização que começa a operacionalizar, uma mistura que vem se demonstrando alinhada com o comportamento do consumidor moderno, seja pelo crescimento da relevância do papel dos influenciadores, assim como no caso do oriente, com a ascensão do live commerce.

Sim, são coisas diferentes, mas possuem algo em comum, a forte união de entretenimento com vendas. A Netflix ainda opta por disponibilizar os produtos de forma não intrusiva, sem interromper os consumidores, uma tendência natural ao evitar fricções com o usuário.

Porém, fica uma provocação: atualmente o Netflix.shop, é um site separado da plataforma, mas quem sabe, futuramente pode se tornar uma plataforma com tecnologia que permita “one click buy” possibilitando compras imediatas? Dentro ou fora da programação, mas facilitando a jornada do cliente de forma não intrusiva.

É um canal de vendas ainda inexistente, mas com um potencial imensurável se juntarmos alguns pilares da organização: entretenimento relacionado a conteúdos exclusivos; exemplar presença nas redes sociais, capaz de identificar tendências e demandas advindas de sua larga base de clientes; tecnologia para permitir o ‘one click buy’ para compras imediatas, unindo espectadores a produtos de marcas ou séries.

Enfim, são passos para acompanhar de perto, de uma das maiores empresas do mundo no mercado de entretenimento.


Este artigo foi produzido por Alfredo Soares, co-fundador e mentor do G4 Educação, presidente da Loja Integrada e sócio da VTEX, fundador da  XTECH COMMERCE e colunista da MIT Technology Review Brasil.

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