Não há problema em não participar da revolução das criptomoedas
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Não há problema em não participar da revolução das criptomoedas

A indústria de cripto está investindo pesadamente na atração de mais pessoas. Mas isso não significa que você precise comprá-las.

Se a o aumento do número de anúncios publicitários for alguma indicação, as criptomoedas chegaram. Outdoors de criptomoedas cercam a área da baía de São Francisco (EUA) e as rodovias de Los Angeles, e você não consegue pegar um trem em Nova York sem encontrar um anúncio de criptomoeda ou câmbio. Celebridades, como Gwyneth Paltrow, estão empurrando as plataformas de criptomoedas como uma oportunidade incrível, e a transmissão do Super Bowl deste ano foi repleta de anúncios de criptomoedas de grande orçamento, cada um anunciando a chance de enriquecer e “fazer história”, como diz LeBron James à sua versão mais jovem feita por meio de CGI.

Mas, apesar de sua onipresença e despesas generosas, esses anúncios rotineiramente omitem qualquer descrição do que é cripto ou o que qualquer uma dessas empresas de cripto que pagaram para dominarem nossos espaços, um grupo que inclui moedas como Bitcoin e cambistas de cripto como FTX, Coinbase e Crypto.com, estão realmente vendendo. Há uma boa razão para isso. Embora a indústria tenha sido boa para especuladores sortudos e com o dinheiro disponível para arriscar e o tempo para descobrir como fazê-lo, ela tem pouco a oferecer ao cidadão comum.

O termo “cripto” tornou-se uma espécie de abrangência para a tecnologia que funciona em uma blockchain. Muitas vezes, refere-se apenas a criptomoedas, como Bitcoin ou Ethereum, mas mais amplamente, também pode se referir a um conjunto de aplicativos da Web tokenizados coletivamente chamados de Web3, dos quais a maioria funciona na rede Ethereum. Muito disso é bem estranho, parte é potencialmente promissor, e há uma boa parte que parece ser um golpe. Independentemente disso, a criptomoeda atraiu mais de US$ 30 bilhões em investimentos de capital de risco no ano passado e quase US$ 4 bilhões este ano, até agora. Novos fundos de criptomoedas, como o empreendimento de US$ 1,5 bilhão da ex-procuradora federal Katie Haun, estão surgindo, novas startups de criptomoedas ostentam estimativas de bilhões de dólares meses após o lançamento, e Paris Hilton aumentou seus investimentos em NFT no The Tonight Show. Prontos ou não, as criptomoedas estão chegando.

Entusiastas das criptomoedas afirmam que a indústria revolucionará os sistemas financeiros descentralizando o comércio, tirando as rédeas das garras dos bancos que nos traíram no passado e dos assessores da Big Tech que mantiveram criadores e inovadores reféns com algoritmos tendenciosos e grandes taxas. O mantra popular dos fiéis de criptomoedas é “WAGMI” sigla para “We’re all gonna make it” (ou em tradução livre, “Todos nós vamos conseguir”), e a comunidade o implantou em canais de Discord, no Twitter e até em um videoclipe constrangedor de Randi Zuckerberg para encorajar o compromisso com a causa perante as oscilações desenfreadas de preços das criptomoedas.

Mas até agora, a indústria de criptomoedas não cumpriu essa promessa democratizante. “Historicamente, reivindicações como essas geralmente se originam de grupos de pessoas com uma quantidade significativa de poder e privilégio, que buscam reconsolidar e aprimorar esse poder em um novo domínio”, diz Mar Hicks, historiadora de tecnologia, gênero e trabalho, e autora de Programmed Inequality. Fora algumas pessoas sortudas, os lucros das criptomoedas parecem estar fluindo principalmente para executivos de criptomoedas e investidores de longa data do Vale do Silício, que precisam que pessoas comuns continuem investindo no setor para que ele continue crescendo. Desde setembro de 2021, quase 9 em cada 10 americanos entrevistados ouviram falar de criptomoedas, mas apenas 16% deles as usaram. Enquanto isso, bilhões de dólares já foram perdidos para fraudadores e golpistas de criptomoedas.

Não há uma definição clara de como exatamente as criptomoedas mudarão o futuro das finanças ou da web, e pouco pode ser feito com criptomoedas se você comprar algumas. No entanto, a indústria de criptomoedas cresceu de tal forma que passou a ser difícil de ignorar. Você pode até tentar bloquear a infinidade de propagandas, mas, independentemente do seu envolvimento, todos nós provavelmente sentiremos os efeitos do impacto das criptomoedas na sociedade.

E há algumas mudanças favoráveis acontecendo, escondidas sob a arrogância de celebridades. O protocolo distribuído de blockchain do qual as criptomoedas dependem está chegando nas retaguardas de setores como finanças e produtos farmacêuticos tradicionais, oferecendo benefícios reais, mas especialmente nos bastidores, trazendo mais velocidade e transparência transacional. Veja além da retórica utópica, os reguladores tentando recuperar o atraso e a potencial reestruturação das plataformas da web, e você verá que a contribuição positiva mais duradoura da criptomoeda para a história pode ser algo mais próximo de um protocolo invisível, como o Bluetooth, do que uma revolução financeira mundial.

Para entender a indústria de criptomoedas, primeiro temos que destrinchá-la em três partes principais, o trabalho que aqueles anúncios do Super Bowl evitaram em favor de banalidades e Larry David em trajes de época.

O primeiro elemento são as criptomoedas. Existem mais de 10.000 delas em todo o mundo, sendo as mais populares o Ethereum (ETH) e o Bitcoin (BTC). As criptomoedas podem ser moedas ou tokens. É uma distinção que pode parecer um mero detalhe, mas em essência, os tokens representam um ativo (acesso a uma palestra, por exemplo, ou uma representação digital de um item físico como um contrato). Por outro lado, as moedas têm poder de compra, a capacidade de comprar tokens e, um dia, uma grande variedade de outros bens.

Em segundo lugar, temos que analisar a blockchain, que, apesar de estar em singular, não é apenas uma coisa. É um tipo de protocolo de back-end que usa “mecanismos de consenso” (no lugar de autoridades tradicionais como bancos) para aprovar alterações e registros visíveis (em vez da manutenção de registros privados) para documentar essas alterações. A história do blockchain está entrelaçada com a das criptomoedas; um engenheiro de pseudônimo (ou grupo de engenheiros) chamado Satoshi Nakamoto usou o protocolo para criar o Bitcoin em 2008, em meio à crise financeira dos EUA. O Bitcoin deveria ser um sistema novo e descentralizado que permitiria “quaisquer duas partes dispostas a fazerem transações diretamente uma com a outra sem a necessidade de um terceiro confiável”, eliminando intermediários como bancos. Com uma blockchain, escreveu Nakamoto, as finanças poderiam ser puramente peer-to-peer, com cada transação adicionada a um registro imutável.

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A terceira parte desta história é a Web 3.0, ou Web3, um termo inventado em 2014 pelo cofundador do Projeto Ethereum, Gavin Wood. Expandindo as ideias de Nakamoto, Wood vislumbrou uma Internet totalmente descentralizada, onde os indivíduos poderiam usar tokens digitais para fazer negócios online em vez de depender de plataformas das Big Techs, como Amazon ou Google, para gerenciar segurança, armazenamento, pagamentos e todo o resto que mantém a internet funcionando. A Web3 é um conceito container para cripto e blockchain, propondo uma economia digital totalmente nova, onde os indivíduos carregam uma variedade de criptomoedas em uma carteira digital para comprar bens e serviços de outros indivíduos, ou apenas para realizar uma doação aos seus criadores de conteúdo preferidos. Nesta visão (ainda teórica), o mundo Web3 se assemelha a um enorme shopping, com cada loja aceitando pagamentos em cartões pré-pagos que você deve comprar com dinheiro real antes de entrar. Muitas empresas estão supostamente trabalhando para tornar essa visão realidade, mas os maiores negócios “Web3” que existem atualmente ainda são cambistas de criptomoedas, criptomoedas em si ou ferramentas para darem suporte a elas — embora com tanto financiamento circulando, isso possa mudar em breve.

O que uma pessoa normal faz com tudo isso? Você deve ser corajoso, como Matt Damon sugere em seu anúncio de TV da Crypto.com, e transformar seu dinheiro real em Bitcoin? Você deve escolher entre as mais de 150 carteiras de criptomoedas disponíveis para iniciar sua jornada no shopping do futuro?

Se você quiser fazer algo com seu dinheiro, como comprar ingressos para um filme ou dividir uma conta entre amigos, a resposta é não, ainda não, especialmente se sua situação financeira não permitir a possibilidade de perder tudo.

Quatorze anos após o surgimento do Bitcoin, as pessoas comuns podem se envolver no mundo cripto apenas investindo nas moedas, que significa comprar moedas ou tokens e esperar que eles aumentem de valor. A compra requer o uso de uma plataforma de troca de criptomoedas de terceiros, como Coinbase ou FTX, que cobram taxas de negociação e têm diferentes níveis de segurança.

Além de investir em moedas, os consumidores agora podem usar criptomoedas para comprar arte NFT, tokens únicos ou “infungíveis” que geralmente são imagem ou vídeo, mas também podem ser áudio. A arte NFT também é um investimento; até recentemente, havia pouco que se pudesse fazer com ela além de exibi-la como um avatar ou implementá-la em um videogame (agora você também pode usá-la para obter acesso a comunidades criptográficas exclusivas). Independentemente disso, os NFTs estão ganhando seu espaço. Martha Stewart lançou uma coleção natalina de fotos NFT de sua fazenda, Justin Bieber gastou mais de um milhão de dólares em um NFT Bored Ape e a produtora de Reese Witherspoon, Hello Sunshine, anunciou que adaptaria coleções NFT para filmes. Os NFTs podem ser usados para fazer contratos digitais seguros e rastreáveis para ativos do mundo real, como carros e casas. Mas essas aplicações ainda são raras, exceto por alguns experimentos interessantes. Os requisitos legais dificultam a substituição total desses processos.

A criptomoeda também pode ser usada para fazer doações para instituições de caridade como Save the Children e a United Way (facilitada por terceiros como The Giving Block, que cobram suas próprias taxas) ou até mesmo para nações, como a Ucrânia, que recebeu mais de US$ 50 milhões em doações de criptomoedas depois de publicar as informações da sua carteira Bitcoin e Ethereum no Twitter oficial do governo do país. E a TurboTax anunciou recentemente que permitirá que os usuários reinvistam automaticamente seus reembolsos tributários em criptomoedas por meio de uma parceria com a Coinbase. Mas é importante notar que ninguém está prometendo uma maneira de pagar impostos com criptomoedas. Na verdade, as criptomoedas se parecem pouco com a nossa moeda atual.

US$ 625 milhões

O valor (na cotação de câmbio da época) roubado em um único ataque cibernético de blockchain, reportado em março.

Quando os consumidores compram criptomoedas, elas são adicionadas à sua carteira, uma palavra que promete o mesmo tipo de poder de compra ao usar cartões de crédito e dinheiro. Mas enviar criptomoedas de um indivíduo para outro, ou entre indivíduos e pequenas empresas, ainda é caro e um pouco complicado. Ambas as partes precisam ter carteiras compatíveis, você não pode enviar Bitcoin de uma carteira Ethereum, por exemplo, e o remetente deve inserir a identificação da carteira do destinatário, que geralmente tem mais de 20 caracteres. O envio de criptomoedas para outra carteira pode levar de alguns minutos a horas, dependendo de quão ocupada a rede está, e não há medidas de segurança para garantir que você tenha enviado para a pessoa correta, se você acidentalmente errar um dígito e transferir moedas para a carteira errada, já era.

E depois há as taxas. Custa dinheiro para configurar uma carteira e mais ainda para enviar criptomoedas ou trocar dólares por moedas. O Ethereum, por exemplo, tem “taxas Gas”, medidas em gwei, que os usuários pagam para realizar transações e os mineradores coletam para adicionar as transações à blockchain. Além das diferenças entre as criptomoedas, as taxas variam de acordo com o tipo de transação, preferências de velocidade e segurança, carteiras, e plataformas de câmbio, que podem mudar com base no congestionamento, no preço da moeda e nas alterações nas políticas da empresa. Tudo isso torna os custos extremamente difíceis de prever antes de fazer uma transação. E para transferências menores, um usuário pode acabar gastando uma grande porcentagem do valor original em taxas. No momento em que escrevo, mover US$ 5 em bitcoin entre a Coinbase, que hospeda uma carteira popular, e uma conta bancária tradicional nos EUA custa cerca de US$ 1, transferir US$ 5,13 em ETH (0,0017 ETH) de uma carteira para outra custa US$ 4,46 em “taxas Gas.” Como as taxas do Ethereum podem ser tão altas, investidores experientes às vezes esperam para fazer transações no meio da noite, quando o tráfego está lento.

Algumas empresas, como a startup da YCombinator, a Paymobil, estão trabalhando para tornar as pequenas transferências mais simples e baratas. O objetivo do Paymobil é que seus usuários possam enviar qualquer forma de moeda para um número de telefone ou endereço de e-mail, seria como um Pix internacional com cripto operando silenciosamente nos bastidores. Mas essa não é uma perspectiva trivial. Quando a startup começou, em 2020, as taxas de processamento do Ethereum, a rede que a empresa usa, custavam cerca de 20 centavos em pequenas transferências. Mas como o Ethereum se tornou mais popular, as taxas se tornaram excessivas para o que o Paymobil quer fazer. O fundador Daniel Nordh diz que a empresa está atualmente subsidiando as taxas de transação do usuário e trabalhando em como seguir em frente. O Ethereum está desenvolvendo ferramentas mais econômicas que podem funcionar, e o Bitcoin tem uma abordagem diferente com taxas mais baixas, mas menos segurança. “Provavelmente ainda estamos a uma geração de distância da tecnologia estar pronta para esses tipos de baixas taxas de transação”, diz ele.

As grandes empresas também não descobriram como enviar cripto entre usuários. O PayPal e o Venmo (que pertence ao PayPal) alegam oferecer suporte a criptomoedas desde o início de 2021. Mas uma análise mais detalhada de seus serviços revela que, embora as plataformas permitam que os clientes dos EUA comprem, vendam ou negociem criptomoedas, eles não podem enviar cripto para outros usuários ou realizar pagamentos com essas moedas. Alguns usuários qualificados do PayPal podem realizar compras com criptomoedas, mas apenas convertendo-as primeiro em moeda fiduciária. Se “o futuro do dinheiro está aqui”, como a Coinbase afirma em seu site, aparentemente não há muito que pessoas comuns possam fazer com dinheiro no futuro.

Apesar da dificuldade de usar criptomoeda, é muito fácil perdê-la e, à medida que a indústria cresce, as perdas também aumentam. Sem as proteções configuradas nos sistemas financeiros tradicionais (como os protocolos Know Your Customer, ou KYC, que exigem verificação de identidade para transações financeiras), os fraudadores custaram aos investidores de criptomoedas, principalmente aqueles que são o público-alvo de todos esses anúncios, mais de US$ 14 bilhões em 2021, e quase o dobro no ano anterior. E as perdas continuam aumentando. No final de março, por exemplo, a Sky Mavis informou que um hacker havia roubado uma criptomoeda avaliada em US$ 625 milhões da blockchain por trás de seu jogo de versão paga, AxieInfinity.

Mesmo que suas carteiras não sejam invadidas ou seus ativos criptográficos liquidados, os indivíduos enfrentam o risco da extrema volatilidade dos mercados de criptomoedas. O valor do Bitcoin caiu mais de 20% em um único dia várias vezes nos últimos seis meses.

US$ 96 bilhões

O valor estimado do CEO da Binance, Changpeng Zhao, no final de 2021.

“Eu me preocupo com o acesso; Me preocupo com o uso indevido”, diz Afua Bruce, especialista em política social e tecnologia e autor de The Tech That Comes Next. “Quando estamos desenvolvendo novas tecnologias, temos que descobrir quem são as comunidades para as quais estamos desenvolvendo isso. Elas podem usá-la? Como é a sustentabilidade? Como isso está realmente empoderando as comunidades para as quais dizemos estar construindo essa novidade? Não sei se essas perguntas foram feitas e respondidas com o blockchain”.

De fato, o relacionamento da indústria de criptomoedas com sua comunidade parece ser predatório. O “nós” em “WAGMI” parece se referir a um pequeno grupo de investidores previsíveis que estão ficando ricos com os riscos assumidos por pessoas comuns. Em dezembro de 2021, 0,01% dos detentores de Bitcoin controlavam 27% da moeda, uma proporção muito mais distorcida do que a dos detentores de dólares nos EUA, o que não é uma estatística para se gabar, para começo de conversa. E porque eles não são apoiados por nenhum ativo real, as criptomoedas aumentam em valor à medida que a demanda por elas aumenta. Quando mais indivíduos optam por comprar, investidores de risco e executivos de criptomoedas observam suas carteiras crescendo. Existem muitos usos para o marketing na tecnologia: pode ser usado para aumentar a conscientização sobre uma nova tecnologia ou ajudar a construir uma base de usuários antes da monetização, e ambas estão acontecendo com as cripto. Mas se o marketing persuadir pessoas suficientes a transformar dinheiro real em criptomoedas, ele também pode literalmente pagar as contas da indústria.

As empresas de cripto já transformaram pessoas de suas equipes executivas em bilionários, como Sam Bankman-Fried, o CEO de 30 anos da FTX, que iniciou sua curta carreira em finanças tradicionais e agora vale cerca de US$ 24 bilhões. Bankman-Fried é atualmente o americano mais rico em cripto, mas havia outros seis “bilionários de cripto” na lista da Forbes de 2021 dos americanos mais ricos. E isso é apenas nos EUA. O CEO da Binance, Changpeng Zhao, que se mudou a uma nova sede em Dubai desde que a China baniu as criptomoedas, valia US$ 96 bilhões no final de 2021 (mas caiu para US$ 63 bilhões no início de abril). Embora o discurso da Web3 possa prometer uma utopia igualitária, a atual distribuição da riqueza criptográfica se alinha mais com o capitalismo em estágio avançado. “O capitalismo fica muito feliz em vender um produto real e obter um pequeno lucro com isso”, diz David Golumbia, crítico de criptomoedas e autor de The Politics of Bitcoin. “Mas fica mais feliz ainda ao vender uma farsa. Nunca subestime o poder que muito dinheiro e uma forma de abordagem golpista têm para persuadir muitas pessoas a fazer algo”. E à medida que mais e mais pessoas compram a ideia vendida por esses anúncios, a riqueza desses bilionários de criptomoedas continua a crescer.

O que acontece a seguir na regulamentação moldará significativamente o futuro da criptomoeda para os usuários comuns. No ano passado, o Facebook encerrou sua criptomoeda emergente, Diem, anteriormente chamada de Libra, após uma grande análise regulamentar. Provavelmente não será a última a encerrar suas atividades. Agências federais tomaram recentemente ações mais agressivas contra alguns cambistas de criptomoedas por oferecerem o que consideram produtos de investimento não licenciados e, em outubro de 2021, o Departamento de Justiça dos EUA montou uma força-tarefa para investigar como os mercados de criptomoedas estavam facilitando atividades ilegais como lavagem de dinheiro. Em março, o presidente Biden assinou um decreto orientando as agências financeiras a criar uma estratégia regulatória completa para criptomoedas e, como muitas outras nações, os EUA estão procurando criar uma moeda digital regulamentada, chamada CBDC (para “moeda digital do banco central” ). Estas não são criptomoedas, mas podem oferecer níveis semelhantes de eficiência. No momento, muitos cambistas de criptomoedas tentam limitar a volatilidade usando stablecoins privadas, uma classe de criptomoeda atrelada a um ativo real como o dólar. Se os EUA criarem uma CBDC, poderão competir com essas moedas ou até mesmo levar o governo a bani-las completamente. O próprio CEO da FTX, Bankman-Fried, prevê que as decisões do Sistema de Reserva Federal dos Estados Unidos serão as maiores impulsionadoras do mercado de criptomoedas nos próximos meses de 2022.

Ainda assim, a regulamentação tem suas limitações, como vimos nos bancos tradicionais. Com tanto dinheiro sendo investido em criptomoedas e tantos investidores poderosos do Vale do Silício que investiram em seu sucesso, a indústria pode encontrar uma maneira de crescer mesmo com sérias restrições. Daqui a cinco anos, as startups da Web3 ainda podem estar descobrindo como a criptomoeda pode ser útil para as pessoas comuns, mas é provável que todos nós sejamos afetados pelos efeitos ambientais e sociais desse momento tumultuado por muito tempo.

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Embora a criptomoeda voltada para o usuário comum ainda se assemelhe a uma cidade pioneira com garimpeiros e negociantes de remédios milagrosos, o cenário não consumidor apresenta uma imagem muito diferente. Empresas como serviços bancários corporativos, gigantes farmacêuticos, empresas de desenvolvimento de filmes e empresas de transporte internacional já estão usando blockchains para transparência e eficiência. Esses esforços podem trazer processos antigos, lentos e, às vezes, baseados em papel para a era digital e até ajudar as indústrias a atender aos novos requisitos regulatórios.

A Ripple, uma empresa com mais de 500 funcionários em nove escritórios em todo o mundo, é um exemplo. Como uma versão muito maior do serviço de transferência de dinheiro com criptoativos da Paymobil, a Ripple usa seu próprio token de blockchain como uma ponte entre moedas, permitindo que centenas de clientes corporativos, incluindo Bank of America, Santander e SBI Remit do Japão, reduzam seus custos operacionais causados por diferenças de fuso horário e processos de liquidação manual.

Ao contrário da retórica radical de seus contemporâneos de criptomoedas, a Ripple está usando a velocidade oferecida pelas moedas digitalizadas para melhorar os processos bancários antigos, não para substituí-los. Alinhado com essa atitude de reforma e não substituição, a gerente geral da RippleX, Monica Long, vê a regulamentação e até CBDCs como parte da evolução da blockchain para empresas, e operações financeiras em geral, nos próximos anos. “Clientes e consumidores se beneficiarão de infraestrutura aprimorada, experiência do usuário, clareza regulatória e interoperabilidade, pois a cripto se torna um elemento crítico do novo normal nas finanças”, diz ela.

O case que mais transformou a indústria até agora, embora talvez o que tenha menos repercutido, pode ser a MediLedger Network e sua organização de custódia, Chronicled. Em 2013, o governo dos EUA aprovou a Drug Supply Chain Security Act, afirmando que até 2023 a indústria farmacêutica deve criar um sistema digital para rastrear medicamentos prescritos para evitar a falsificação. A assistência médica e as ciências da vida são notórias por sistemas antigos e não interoperáveis, e os requisitos da lei exigiam uma maneira totalmente nova de fazer negócios. A CEO da Chronicled, Susanne Somerville, se perguntou se uma blockchain privada, um sistema fechado e autorizado, diferente de blockchains públicos como o Bitcoin, poderia oferecer um ambiente seguro e compartilhado no qual empresas farmacêuticas como Pfizer e Gilead poderiam trabalhar juntas. Depois de anos trabalhando com regras e metas de negócios, a Chronicled lançou a MediLedger Network, um grupo de grandes empresas farmacêuticas, em 2019. A Chronicled fornece uma variedade de serviços para elas, como um índice de identificações de produtos verificados à prova de falsificação e acesso a informações atualizadas em tempo real como preços populares. Essas soluções pequenas podem não ser o que as pessoas normalmente associam à tecnologia blockchain, mas são críticas no que diz respeito a indústria farmacêutica. “Quase todo mundo está pensando nessas ideias super grandiosas e é difícil chegar lá”, diz Somerville. “Mas há muitas coisas menos interessantes, mas que são realmente fundamentais”.

Os usos da blockchain pela Ripple e MediLedger podem significar medicamentos mais seguros e transferências de dinheiro mais rápidas para pessoas comuns, sem exigir que ninguém crie uma carteira digital ou troque moedas. Quanto à criptomoeda do consumidor? Se o discurso atordoante da indústria em relação a uma revolução financeira parece bom demais para ser verdade, é porque é. Até que possa oferecer usos diários acessíveis para novas moedas e proteções expansivas contra fraudes e golpes, é melhor ficarmos com dinheiro como conhecemos hoje e sistemas bancários tradicionais do que nos juntarmos ao desfile de impulsionadores de cripto marchando por nossas telas e cidades em anúncios.

Rebecca Ackermann é escritora, designer e artista de São Francisco (EUA).

Correção: uma versão anterior deste artigo dizia que os usuários não podem pagar por compras no PayPal com criptomoeda. Ele foi atualizado para refletir que as compras podem ser feitas com criptomoeda na plataforma, convertendo primeiro as moedas em moeda fiduciária.