MetaHealth: o potencial do metaverso na saúde
Health Innovation por Einstein

MetaHealth: o potencial do metaverso na saúde

Ainda não conhecemos os limites do metaverso na saúde, mas já temos evidências do potencial uso dessas tecnologias no tratamento de diversas doenças crônicas e para a interação médico-paciente.

Há muitos séculos, a relação médico-paciente é a peça fundamental do cuidado à saúde. A consulta médica é o momento físico e temporal onde se constrói confiança, o diagnóstico é realizado e o tratamento planejado. No entanto, a Transformação Digital criou “pacientes digitais”, a coleta e a análise de dados de saúde têm ganho um papel de destaque, trazendo soluções para o diagnóstico e tratamento dos pacientes, e desafios de interoperabilidade e segurança de dados. Todas essas mudanças e os avanços tecnológicos são o alicerce para um novo tipo de interação entre médicos e pacientes que já ocorre por meios digitais como a telemedicina e, mais recentemente, o metaverso: uma combinação de vários elementos de tecnologia onde os usuários vivem, trabalham e interagem com outras pessoas dentro de um universo digital paralelo.

A palavra metaverso compreende o prefixo “meta”, que significa “além de”, indicando o que transcende, e o sufixo “verso”, que se refere ao universo, ou que contém o mundo real. Assim, ao invés de sermos coadjuvantes no uso da Internet, como nos dias atuais, iremos passar a viver como avatares dentro de espaços cibernéticos.

Da mesma forma que ninguém é dono da Internet, é importante notar que, para que o metaverso seja um universo completo, nenhuma empresa poderia ser sua proprietária. As empresas podem lucrar por meio de serviços de assinatura, publicidade e vendas diretas ao consumidor, controlando seus respectivos mercados no metaverso, mas não podem controlar o metaverso por completo.

As novas empresas de tecnologia usam o termo metaverso para descrever algo que surge após a Internet, podendo ou não depender de equipamentos de Realidade Virtual. E de fato, o metaverso é um conceito mais avançado do que o de Realidade Virtual (Virtual Reality – VR). Para que a experiência e a imersão no mundo digital sejam o mais intensas possível, o metaverso tem como tecnologia a Realidade Estendida (Extended Reality – XR), que está relacionada a ambientes físicos e virtuais combinados, e interações entre homens e máquinas, geradas por tecnologias de computador e dispositivos vestíveis, em que o “X” representa uma variável para tecnologias de computação espacial (Spatial Computing Technologies). Assim, a XR é um termo mais abrangente que engloba a Realidade Aumentada (Augmented Reality – AR), a VR, a Realidade Mista (Mixed Reality – MR) e qualquer tecnologia entre elas.

O metaverso na saúde

Em novembro de 2021, a empresa canadense Treatment anunciou seus planos para desenvolver um “Metaverso Médico”, combinando sua Biblioteca Global de Medicina com tecnologias de Inteligência Artificial (IA), conectando provedores, pacientes e parceiros. Esse e outros investimentos recentes realizados com o intuito de integrar ambientes virtuais emergentes no metaverso em saúde acompanham os novos esforços da Meta, nova marca da empresa de tecnologia social que inclui o Facebook, Whatsapp, Oculus e outras. As gigantes de tecnologia Microsoft e Nvidia também apresentaram recentemente suas plataformas para colaboração e simulações virtuais em tempo real.

As tecnologias disruptivas que estão sendo utilizadas na construção desse novo ecossistema digital de saúde vêm sendo estudadas há mais de três décadas na área de saúde. Uma busca na maior base de dados e artigos na área da saúde, a MEDLINE/PubMed.gov mostra um aumento exponencial no número de artigos com os termos para XR, AR, VR e MR ao longo dos últimos 32 anos, totalizando cerca de 17 mil artigos publicados até o momento.

Além desse número impressionante, até novembro de 2021, a plataforma de estudos clínicos ClinicalTrials.gov tinha registrado cerca de 1.400 estudos clínicos com tecnologias de VR, 115 com AR e 15 estudos com MR em diversas doenças e especialidades médicas. O rápido desenvolvimento dessas ferramentas traz soluções para o tratamento de uma variedade de condições clínicas, incluindo o câncer, a dor aguda e crônica, ansiedade e outros transtornos mentais.

Um artigo publicado em 2021 pelo Journal of Medical Internet Research buscou identificar e analisar a literatura científica sobre pesquisa exclusivamente em VR e AR na medicina, revelando os tópicos de pesquisa mais populares, principais autores, instituições científicas, países e periódicos. A análise foi baseada em dados de 8.399 artigos. Os principais temas de pesquisa foram procedimentos diagnósticos e cirúrgicos, bem como reabilitação. As condições médicas comumente estudadas foram dor, acidente vascular cerebral, ansiedade, depressão, medo, câncer e distúrbios neurodegenerativos. Estudos de áreas de pesquisa mais relacionadas clinicamente, como cirurgia, psicologia, neurociências e reabilitação, tiveram um número médio de citações maior do que estudos de ciências da computação e engenharia. Os Estados Unidos e o Reino Unido são os países com maior número de contribuições científicas nessa área.

Treinamento e educação médica

Na educação médica, o metaverso poderá ser usado para treinamento e simulações em áreas que requerem habilidades manuais e interações avançadas, em vez da simples entrega de conhecimento.

No Brasil, a startup MedRoom usa VR para aprimorar a educação médica, permitindo uma melhor compreensão do corpo humano. Usando um headset de VR, os alunos podem trabalhar em um laboratório virtual onde podem explorar livremente o corpo humano sozinhos ou por meio de experiências guiadas criadas por seus professores. A startup inclui simulações em VR de pacientes com parada cardiorrespiratória, de atendimento de um caso clínico de dengue, além de possibilitar observar cinco diferentes estágios de evolução dos cânceres de próstata e mama e suas variações.

Na Coreia, a empresa Vulabo usa simulação médica virtual para treinar profissionais de saúde desde a triagem médica até injeções intravenosas. Essas novas tecnologias permitem que estudantes de todo o mundo da área da saúde tenham um treinamento de alta qualidade.

Em abril de 2021, as empresas Medtronic e Surgical Theatre anunciaram uma colaboração que permitirá que os neurocirurgiões usem a AR em tempo real para aprimorar a visualização durante procedimentos cranianos complexos.

Saúde mental

A elevada prevalência de doenças que afetam a saúde mental tem aberto oportunidades para que novas tecnologias digitais auxiliem no tratamento e monitoramento de pacientes. Médicos já estão prescrevendo jogos de VR para tratar condições como o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), depressão e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).

Em junho de 2020, a Food and Drug Administration (FDA) dos EUA autorizou a comercialização do primeiro dispositivo terapêutico digital baseado em jogos para melhorar a função da atenção em crianças com TDAH. O dispositivo denominado EndeavorRx, é indicado para pacientes pediátricos de 8 a 12 anos de idade com TDAH. O EndeavorRx é indicado para melhorar a função de atenção medida por testes baseados em computador e é a primeira terapia digital destinada a melhorar os sintomas associados ao TDAH, bem como a primeira terapia baseada em jogos com autorização regulatória pelo FDA para qualquer outro tipo de condição. O dispositivo destina-se ao uso como parte de um programa terapêutico que pode incluir terapia dirigida por médicos, medicação e/ou programas educacionais, que abordam os sintomas do distúrbio.

Em novembro de 2020, a FDA autorizou a comercialização do Nightware, um novo dispositivo destinado à redução temporária de distúrbios do sono relacionados a pesadelos em adultos de 22 anos ou mais que sofrem de transtorno de pesadelo ou têm pesadelos de TEPT. Através da IA e outras tecnologias de ponta, o aplicativo NightWare avalia continuamente o índice de estresse de um usuário durante o sono, monitorando a frequência cardíaca e os movimentos do corpo.

As aprovações, pela FDA, dessas tecnologias são exemplos importantes do crescimento do campo de terapias digitais, o que abre portas para o uso do metaverso nos cuidados da saúde mental, oferecendo opções não medicamentosas para melhorar os sintomas associados às doenças do cérebro.

Dor

O tratamento da dor é tradicionalmente baseado em medicamentos, incluindo opioides, que podem produzir resultados que variam entre pacientes. Nesse contexto, a VR tem sido vista como uma modalidade de tratamento não farmacológica eficaz para a dor aguda e crônica. Em um estudo recente publicado na revista científica PLOS ONE, o autor mostrou que a VR reduziu significativamente a dor em comparação aos pacientes que não vivenciaram a VR no estudo. Uma teoria mecanicista proposta sugere que, ao estimular o córtex visual enquanto envolve outros sentidos, a VR atua como uma distração para limitar o processamento do usuário de estímulos nociceptivos, ou seja, que causam dor.

Em novembro de 2021, a FDA autorizou a comercialização do EaseVRx, um sistema de VR imersiva, de uso por prescrição, que usa terapia cognitivo-comportamental e outros métodos comportamentais para ajudar na redução da dor em pacientes de 18 anos de idade ou mais com diagnóstico de dor lombar crônica.

A VR como um conceito passou a incluir uma ampla gama de aplicações de tecnologia digital onde o usuário interage com um ambiente virtual gerado por computador. Em um artigo publicado recentemente por pesquisadores da University of British Columbia, foram identificados 29 jogos de saúde com VR, a maioria abordando contextos de saúde relacionados ao exercício físico, reabilitação motora e dor. Esses jogos normalmente envolvem desafios baseados em obstáculos e sistemas de recompensa para envolver os clientes em intervenções relacionadas ao funcionamento físico e à dor.

Cirurgias

Em 8 de junho de 2020, neurocirurgiões da Universidade Johns Hopkins realizaram as primeiras cirurgias em pacientes utilizando a AR. A tecnologia usada pelos médicos nas cirurgias com AR inclui um fone de ouvido com visor transparente que projeta imagens da anatomia interna do paciente com base em tomografias, fornecendo aos cirurgiões uma visão detalhada dos ossos e outros tecidos. No primeiro procedimento, os médicos colocaram seis parafusos na coluna vertebral da paciente para fundir três vértebras a fim de aliviar a dor crônica debilitante nas costas da paciente. Na segunda cirurgia, realizada em 10 de junho, os cirurgiões removeram uma lesão maligna, denominada cordoma, da medula espinhal de um paciente. Ambas as cirurgias foram bem-sucedidas.

O futuro

Diversas tecnologias emergentes tais como a IA, a Internet das Coisas (IoT), a quinta geração de internet móvel (5G), a computação quântica e a XR estão contribuindo para a criação do metaverso. Nesse novo universo paralelo será possível monitorar remotamente pacientes que requerem cuidados intensivos, usar gêmeos digitais ou avatares para consultas médicas e atendimento personalizado, além de se realizar o tratamento e diagnóstico por meio da interconectividade de dados. Apesar de ainda não estar claro quais serão os limites do metaverso na saúde, já temos evidência do potencial uso dessas tecnologias no tratamento de diversas doenças crônicas e para a interação médico-paciente.

Como um novo universo de saúde será construído, tudo o que está dentro dele será adaptado à realidade do metaverso, desde os tipos de seguros de saúde até a jornada dos pacientes. Outros desafios incluem mudanças regulatórias, interoperabilidade, portabilidade, proteção contra-ataques cibernéticos, privacidade, segurança e governança de dados de saúde.

Embora o metaverso seja promissor e possa mudar significativamente o ecossistema de saúde atual e a forma como a medicina é praticada, perguntas sobre a privacidade e segurança do paciente ainda estão em aberto. A Professora Renata Rothbarth, advogada e especialista em saúde digital, diz que “não há que se falar em saúde digital se não considerarmos abrir mão de uma parte da privacidade sobre os nossos dados – a pergunta é: em que medida e sob quais condicionantes. O tratamento de dados pessoais de saúde resultantes do metaverso deve atender propósitos limitados, legítimos, específicos, explícitos e consentidos ou informados adequadamente ao seu titular, quando autorizados mediante outra base legal. Em complemento, é indispensável que isso seja feito de forma associada às regulações éticas e sanitárias a respeito do tema, por exemplo: demandando regularização perante a ANVISA quando o metaverso for considerado um software médico”.

À medida que forem criadas novas formas de dispositivos conectados, e os desafios técnicos e humanos forem superados, o metaverso se tornará cada vez mais acessível ao mundo. A empresa Meta (Facebook) já está trabalhando em novos óculos inteligentes (Smart Glasses) e a infraestrutura de rede móvel 5G está recebendo investimentos significativos em todo o mundo e crescerá na próxima década. Nosso maior desafio será catalisar a presente Transformação Digital em um ecossistema de saúde com o metaverso que seja bom para os pacientes e profissionais de saúde.


Este artigo foi produzido por Jonas Sertório, Consultor de Inovação no Ministério da Saúde, em parceria com Camila Pepe, Diretora de Projetos da ORIGIN Health Co. e representante/revisora da MIT Technology Review Brasil.

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