Rafaela Lima é professora de Ciências da rede pública de ensino do Rio de Janeiro e se considera bem informada sobre as inovações da tecnologia, especialmente no que pode ser aplicado à educação. Ela realiza a formação de professores para o uso de recursos tecnológicos e, desde 2015, mantém o “Mais Ciências”, um canal no YouTube com videoaulas, dicas e curiosidades. Quando a pandemia de Covid-19 fechou escolas e obrigou muitos professores a recorrerem às aulas em vídeos, mesmo sem estarem preparados para isso, Rafaela já era uma veterana no assunto. Não seria diferente com a Inteligência Artificial, que, segundo a professora, pode otimizar o trabalho dos docentes no planejamento de aulas, formulação de questões e até mesmo guiando os estudantes para pesquisas e tarefas.
“Eu uso a Inteligência Artificial para a minha produção no YouTube. Ela me ajuda com o roteiro e as legendas dos vídeos, gera tags, sugere títulos, ideias de temas, organiza textos para eu fazer postagens nas outras redes, como Instagram e TikTok… e uso muito para o meu trabalho mesmo, para elaborar questões, organizar um plano de aula, produzir palestras de cursos para professores, que é o que eu faço muito”, explica Rafaela.
A professora entende que a IA é um recurso, não uma substituta, e conta com a própria base de conhecimento e o domínio dos assuntos para ficar atenta aos conteúdos gerados, fazendo uma curadoria. “A IA acelera o que eu teria plena condição de fazer, eu uso para otimizar. Para alguns assuntos que pesquiso, quando acho necessário, sempre peço o link de origem ou um compilado de artigos, para que eu possa verificar, indo na fonte daquela informação”.
E não é preciso ser uma professora ou professor muito fã de tecnologia, como a Rafaela Lima, para ter acesso à Inteligência Artificial e entender que ela pode ser, sim, uma facilitadora. Recursos considerados simples, como um celular e o acesso à internet, são suficientes para entrar nesse universo de maneira gratuita. Um estudo realizado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) em parceria com a agência de marketing Conversion, e divulgado pela Forbes em junho de 2025, revelou que 93% dos brasileiros conectados já utilizaram ferramentas de IA generativa, como ChatGPT, Gemini ou Copilot. Além disso, elas são conhecidas por 98% dos entrevistados. O mesmo levantamento mostrou que 49,7% utilizam a Inteligência Artificial diariamente e 86,4% têm o hábito de usar ao menos uma vez na semana.
Se, entre a população conectada, os percentuais são tão significativos, quando o recorte é a escola, não é diferente. A mais recente pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Teaching and Learning International Survey – Talis), coordenada pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), revelou que 56% dos professores brasileiros, de sexto ao nono ano do ensino fundamental, afirmam usar ferramentas de IA para preparar aulas ou buscar formas mais eficientes de ensinar. O estudo também abordou a formação de professores, o que revelou que 39% deles dizem precisar de habilidades para o uso de Inteligência Artificial para ensino e aprendizagem. Entre os que relataram não ter usado a IA para essa finalidade nos 12 meses anteriores à pesquisa, 64% responderam que não fizeram por falta de conhecimento ou habilidade.
A ordem é apoiar sem desumanizar
Novos movimentos relacionados à tecnologia costumam se refletir nas escolas e universidades. Com a Inteligência Artificial não foi diferente, o que começou a gerar debates sobre o uso das ferramentas de IA na educação. Em 2024, a Organização das Nações Unidas (ONU) já havia divulgado um relatório sobre o tema. O documento, organizado pela socióloga paquistanesa Farida Shaheed, que é relatora especial da ONU sobre o direito à educação, reconhece a Inteligência Artificial como um acelerador do progresso em muitos setores, mas aponta que a rápida expansão do uso na educação, com regulamentação ou supervisão limitadas, exige uma avaliação urgente.
No Brasil, o Ministério da Educação (MEC) também vem dando atenção ao tema. Nesta quarta-feira (08/04), foi realizado um webinário no YouTube, promovido pela Secretaria de Educação Básica (SEB), com o objetivo de apresentar e debater diretrizes do ministério para o uso e ensino da IA nas escolas da Educação Básica (Educação Infantil e ensinos Fundamental e Médio). Na ocasião, também foram apresentadas duas iniciativas: a publicação “Inteligência Artificial na Educação Básica – um documento orientador sobre caminhos curriculares e práticas éticas de uso de IA nas escolas”; e o curso “IA na prática docente: uso ético, criativo e pedagógico”, voltado para professores do Ensino Médio.
Ao mesmo tempo, o Conselho Nacional de Educação (CNE) já vinha atuando, desde 2025, por uma regulação nacional do uso da Inteligência Artificial na educação, por meio de uma comissão criada para debater as regras de uso nas escolas e universidades. Para chegar ao texto da regulação, que ainda não tem uma versão definitiva, foram feitos debates dentro do próprio conselho, houve participação de outros setores do MEC, além de uma consulta pública realizada em abril de 2025. A minuta da regulação prevê um prazo de dois anos para que sistemas de ensino e instituições realizem as adaptações necessárias.
De acordo com Celso Niskier, reitor da UniCarioca, membro do CNE e correlator da Resolução sobre IA na Educação, a Inteligência Artificial entrou no cotidiano escolar, tanto para professores quanto para estudantes, o que começou a influenciar na produção de textos, na pesquisa, na avaliação, no planejamento das aulas e até na forma como os alunos estudam e interagem com o conhecimento. “Nesse contexto, o papel do CNE é justamente evitar dois extremos igualmente problemáticos: o entusiasmo ingênuo, que trata a IA como solução mágica para todos os desafios educacionais, e a rejeição defensiva, que ignora uma transformação já em curso”.
Seguindo essa lógica, Celso Niskier, reforça que a regulação não é proibicionista, mas coloca a IA como um recurso e um apoio, sem nunca substituir professores e mediadores pedagógicos. O uso deve ser parte de uma decisão técnica, institucional e exige uma documentação formal sobre finalidade, riscos, monitoramento e revisão (que deve ser humana). Práticas de vigilância ou monitoramento emocional de estudantes por meio da Inteligência Artificial são proibidas, assim como a utilização de dados de gestores, docentes e estudantes para treinar modelos de terceiros, ou gerar monetização.
A regulação será uma referência a ser seguida por todo o país, seja nas redes de ensino públicas ou privadas, na Educação Básica ou nas universidades. “Para mim, o grande destaque é a reafirmação de um princípio essencial: a Inteligência Artificial pode apoiar a educação, mas não pode desumanizá-la. Em outras palavras, a tecnologia entra como ferramenta. A intencionalidade pedagógica, o vínculo humano, o discernimento ético e a mediação crítica continuam sendo insubstituíveis”, destaca Niskier.
Além da regulação: o que não depende da IA
Ainda que a regulação do uso da Inteligência Artificial na educação traga orientações e diretrizes para o trabalho dos professores, existem outros pontos de atenção. Um deles é a própria desigualdade na estrutura das instituições e na formação de professores, principalmente quando consideramos o tamanho das redes de ensino do país.
No Colégio Pedro II (CPII), instituição de ensino pública e federal do estado do Rio de Janeiro, a professora Elizabeth Paes chefia, desde 2019, o Departamento de Informática Educativa, que tem exatamente o foco no uso pedagógico da tecnologia. Ela e outros docentes escreveram o currículo atual do departamento, que precisou ser atualizado após a publicação da Base Nacional Comum Curricular Computação, em 2022, que foi um complemento à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que estabeleceu uma atualização dos currículos escolares a partir de 2017.
Elizabeth afirma que, antes da mudança, a computação era apenas ferramenta de apoio, mas já havia desejo de transformá-la em uma área de conhecimento. Com a mudança, o currículo passou a ter três eixos: pensamento computacional, cultura digital e mundo digital.
Apesar de o CPII ter também desafios como instituição de ensino pública, a professora reconhece que a estrutura e o currículo já estabelecidos favorecem que professores e estudantes possam se ambientar melhor com a Inteligência Artificial, que não entra como conteúdo isolado, mas como um tema que atravessa os três eixos do currículo. “Já temos condições institucionais e pedagógicas para trabalhar a IA de forma crítica e contextualizada, integrando ao currículo e à realidade dos alunos. Mesmo sem diretrizes consolidadas, é possível avançar com responsabilidade, apoiando-se em princípios já conhecidos, como ética, uso crítico da tecnologia e proteção de dados”.
Em uma outra realidade, Juliana Lizzi, professora de inglês na rede pública do Estado do Rio de Janeiro, utiliza a IA para otimizar o próprio trabalho, adaptando textos, fazendo transcrição de vídeos e criando imagens para as atividades que fará com os estudantes. “Acho que ter um olhar crítico começa na decisão de como usar a IA. Acredito que ela ajude como ferramenta dentro de um escopo limitado. Eu não tenho acesso à IA em sala. Quando é uma atividade de pesquisa, eu oriento sobre o uso da IA e alguns cuidados que os alunos devem ter, mas, como o trabalho é feito em casa, nem sempre há o cuidado que eu gostaria”, afirma Juliana.
O desafio imposto pela estrutura, conectividade, formação e cultura digital também é percebido por Celso Niskier. Ele pondera que a regulação do uso da IA na educação é nacional em princípios, mas precisa ser sensível à real diversidade do Brasil, sem pressupor que todas as redes partem de um mesmo ponto. “Entendo que a regulação precisa equilibrar cinco dimensões: clareza ética, viabilidade pedagógica, proteção de direitos, respeito à autonomia federativa e compromisso com a equidade. Sem isso, corremos o risco de aprovar um texto formalmente avançado, mas descolado da realidade concreta das escolas. Isso dialoga diretamente com uma convicção que venho defendendo: tecnologia sem inclusão não é inovação, é exclusão sofisticada”.
A utilização da Inteligência Artificial traz desafios não só para professores em exercício, mas também para aqueles que ainda estão fazendo a primeira formação, ou que ainda nem ingressaram nela, mas já pensam em ser professores um dia. Os currículos das universidades estariam contemplando essa realidade, ou seguem como no passado, deixando que a IA seja utilizada de acordo com a curiosidade e afinidade de cada um com essa tecnologia?
O programa EducaMídia, criado em 2019 pelo Instituto Palavra Aberta, uma organização da sociedade civil, atua diretamente com a educação midiática para diversos públicos, incluindo professores e escolas. Essa vivência acaba respondendo um pouco da pergunta que lançamos acima, como aponta Daniela Machado, coordenadora pedagógica do EducaMídia. “A gente acaba tendo contato com muitos professores nas nossas formações e vê como as formações iniciais estão, de certa forma, desatualizadas para dar conta desse novo ecossistema informacional, dessa nova maneira de aprender e de ensinar que vem a partir da internet, a partir da pluralidade de vozes que a gente tem”.
Ela afirma ainda que, cada vez mais, os estudantes têm outras possibilidades de pesquisa e já chegam para as aulas tendo contato com o conteúdo, ou seguem aprendendo e se aprofundando quando saem da escola, o que não quer dizer que professoras e professores tenham perdido a importância. “A meu ver, o papel do professor é ainda mais relevante, mas é diferente do que costumava ser para outras gerações que, de certa maneira, viveram uma era de escassez de informação. A gente tinha algumas figuras de autoridade, como o próprio professor e os livros didáticos, ou o material selecionado pela escola, mas, hoje em dia, isso está muito pulverizado, o que muda muito a dinâmica da própria educação”.
Existem, de fato, esforços para que a Inteligência Artificial seja utilizada de maneira mais assertiva na educação, com letramento algorítmico, pensamento crítico, propósito e sem tirar da escola e dos professores os papéis centrais de facilitadores da aprendizagem. Resta entendermos se o tempo das ações regulatórias vai dar conta do tempo que recursos tecnológicos, como a IA, levam para nos atravessar no dia a dia. O fato é que as novas formas de aprender já estão à frente das tradicionais maneiras de ensinar.


