Nandan Nilekani não consegue parar de tentar levar a Índia para o futuro. Ele começou há quase 30 anos, arquitetando um experimento em andamento de capacidade tecnológica do Estado que começou com o Aadhaar, o maior sistema de identidade digital do mundo. O nome significa “fundação” em hindi e, sobre esse alicerce, Nilekani e pessoas que trabalharam com ele passaram a construir uma vasta coleção de ferramentas online gratuitas e interoperáveis que criam uma infraestrutura digital para a sociedade. Elas abrangem serviços governamentais, pagamentos, bancos, crédito e cuidados de saúde, oferecendo conveniência e acesso que seriam surpreendentes em países ricos com um décimo do tamanho da Índia. Por lá, esses sistemas são chamados, coletivamente, de “infraestrutura pública digital” (Digital Public Infrastructure, ou DPI).
Aos 70 anos, Nilekani deveria estar aposentado, mas ainda tem mais algumas ideias. A rede elétrica da Índia é precária e propensa a falhas, por isso, quer adicionar uma camada de comunicação digital para estabilizá-la. Também há a expansão das funções financeiras na DPI para o resto do mundo, criando uma espinha dorsal digital global para o comércio que ele chama de “finternet”.
“Parece uma loucura”, diz Nilekani. “Mas acho que todas essas são grandes ideias que, nos próximos cinco anos, terão um impacto demonstrável e material.” Como um último ato na vida pública, por que não aadhaarizar o mundo?
A espinha dorsal digital da Índia
Hoje, um agricultor em um vilarejo na Índia, a horas do banco mais próximo, pode receber pagamentos de assistência social ou transferir dinheiro simplesmente pressionando um polegar em um leitor de impressão digital na loja local. Cópias autenticadas digitalmente de carteiras de motorista, certidões de nascimento e registros educacionais podem ser acessadas e compartilhadas por meio de uma carteira digital que fica no seu smartphone.
Nas grandes cidades, onde o dinheiro em espécie é cada vez menos comum (tentar trocar uma nota pode ser uma grande dor de cabeça), os pagamentos móveis são onipresentes, seja para comprar uma TV de um varejista de rua principal ou um coco de um carrinho à beira da estrada. Não há tarifas e qualquer aplicativo de pagamento ou conta bancária pode enviar dinheiro para qualquer outro. O mosaico caótico de hospitais públicos e privados do país começou a digitalizar todos os seus prontuários médicos e a carregá-los em uma plataforma nacional. Na Open Network for Digital Commerce (ONDC), as pessoas podem fazer buscas de compras online pelo aplicativo que quiserem e os resultados mostram vendedores de uma variedade de outras plataformas também. A ideia é libertar pequenos comerciantes e consumidores dos jardins murados dos gigantes das compras online, como a Amazon e a gigante doméstica Flipkart.
No coração de todas essas ferramentas está o Aadhaar. O sistema dá a cada indiano um número de 12 dígitos que, em combinação com um escaneamento de impressão digital ou um código por SMS, permite acesso a serviços governamentais, cartões SIM, contas bancárias básicas, serviços de assinatura digital e pagamentos de assistência social. O governo indiano afirma que, desde sua criação em 2009, o Aadhaar economizou 3,48 trilhões de rúpias (US$ 39,2 bilhões) ao aumentar a eficiência, contornar funcionários corruptos e cortar outros tipos de fraude. O sistema é controverso e imperfeito: um banco de dados com 1,4 bilhão de pessoas nele vem com preocupações inerentes de segurança e privacidade. Ainda assim, na nação mais populosa da Terra, uma grande parte da burocracia que qualquer pessoa pode encontrar no dia a dia simplesmente acontece na nuvem.
Nilekani esteve por trás de grande parte dessa inovação, mobilizando um exército de servidores públicos, empresas de tecnologia e voluntários. Agora ele vê isso em ação todos os dias. “Isso reforça que o que você fez não é alguma coisa abstrata, mas algo real para pessoas reais”, diz ele.
Por admissão dele próprio, Nilekani está entrando no crepúsculo de sua carreira. Mas ainda não acabou. Agora ele é “mentor-chefe” do India Energy Stack (IES), uma iniciativa do governo para conectar os dados fragmentados mantidos por empresas responsáveis por gerar, transmitir e distribuir energia. As redes elétricas da Índia são instáveis e díspares, mas Nilekani espera que um movimento ao estilo Aadhaar ajude. O IES pretende dar identidades digitais únicas não apenas a usinas e instalações de armazenamento de energia, mas até mesmo a painéis solares em telhados e veículos elétricos. Todos os dados vinculados, como características dos dispositivos, certificações de classificação energética, informações de uso, estarão em um formato comum, legível por máquinas, e serão compartilhados nos mesmos protocolos abertos.
Idealmente, isso dará aos operadores da rede uma visão em tempo real da oferta e da demanda de energia. E, se funcionar, também poderá tornar mais simples e barato para qualquer pessoa se conectar à rede, até mesmo pessoas comuns vendendo energia excedente de seus sistemas solares no telhado, diz RS Sharma, o presidente do projeto e vice de Nilekani durante a construção do Aadhaar.
A outra atividade paralela de Nilekani é ainda mais ambiciosa. Sua ideia de um “finternet” global combina aadhaarização com blockchains, criando representações digitais, chamadas tokens, não apenas para instrumentos financeiros, como ações ou títulos, mas também para ativos do mundo real, como casas ou joias. Qualquer um, de um banco a um gestor de ativos ou até mesmo uma empresa, poderia criar e gerenciar esses tokens, mas a equipe de Nilekani espera especialmente que a ideia ajude pessoas pobres a negociar seus ativos, ou usá-los como garantia de empréstimo, expandindo serviços financeiros para aqueles que, de outra forma, não conseguiriam acessá-los.
Isso parece quase coisa de visionário delirante. Ainda assim, o projeto finternet tem 30 parceiros em quatro continentes e deve ser lançado no ano que vem.
Um chamado ao serviço
Nilekani nasceu em Bengaluru, em 1955. Sua família era de classe média e, segundo ele, estava “tomada por questões e desafios sociais”. Sua criação também foi impregnada do tipo de socialismo defendido pelo primeiro-ministro da jovem nação, Jawaharlal Nehru.
Depois de estudar engenharia elétrica no Indian Institute of Technology, em 1981 Nilekani ajudou a fundar a Infosys, uma empresa de tecnologia da informação que foi pioneira na terceirização e ajudou a transformar a Índia no back office de TI do mundo. Em 1999, ele fez parte de uma força-tarefa nomeada pelo governo que tentava modernizar a infraestrutura e os serviços em Bengaluru, então emergindo como a capital de tecnologia da Índia. Mas, na época, Nilekani tinha receio de ser visto como apenas mais um tecno-otimista. “Eu não queria ser visto como ingênuo a ponto de acreditar que a tecnologia poderia resolver tudo”, diz ele.
Ver a dimensão do problema mudou sua opinião. Burocracia, corrupção endêmica e exclusão financeira eram questões intratáveis, sem soluções tecnológicas. Em 2008, Nilekani publicou um livro, “Imagining India: The Idea of a Renewed Nation” (Imaginando a Índia: A ideia de uma nação renovada, em tradução livre). Era um manifesto por uma Índia que pudesse dar um salto e chegar a um futuro em rede.
E isso lhe rendeu um trabalho. Na época, mais da metade dos nascimentos no país não era registrada e até 400 milhões de indianos não tinham nenhum documento oficial de identidade. Manmohan Singh, o primeiro-ministro, pediu a Nilekani que colocasse em prática um plano mal definido para criar um cartão nacional de identidade.
A equipe de Nilekani tomou uma decisão controversa de depender de biometria. Um sistema baseado nas impressões digitais e em escaneamentos de retina das pessoas significava que ninguém poderia se cadastrar duas vezes, nem precisaria carregar papelada. Em termos de execução, era como tentar alcançar a industrialização, mas pular uma era do vapor. A implantação exigiu um esforço monumental de coleta de dados, bem como uma nova infraestrutura que pudesse comparar cada novo cadastro com centenas de milhões de registros existentes em segundos. No auge, a Unique Identification Authority of India (UIDAI), a agência responsável por administrar o Aadhaar, estava registrando mais de um milhão de novos usuários por dia. Isso aconteceu com uma equipe técnica de apenas cerca de 50 desenvolvedores e, no fim, custou pouco menos de meio bilhão de dólares.
Impulsionados pelo sucesso, Nilekani e seus aliados começaram a procurar outros problemas que poderiam resolver usando o mesmo manual de digitalizar o mundo real. “Nós construímos cada vez mais camadas de capacidade”, diz Nilekani, “e então isso se tornou uma ideia de alcance mais amplo. Mais grandiosa.”
Enquanto outros países estavam construindo espinhas dorsais digitais com controle estatal total (como na China) ou em parcerias público-privadas que favoreciam abordagens corporativas voltadas ao lucro (como nos Estados Unidos), Nilekani achava que a Índia precisava de outra coisa. Ele queria que tecnologias críticas em áreas como identidade, pagamentos e compartilhamento de dados fossem abertas e interoperáveis, não monopolizadas nem pelo Estado nem pela iniciativa privada. Por isso, as ferramentas que compõem a infraestrutura pública digital usam padrões abertos e APIs abertas, o que significa que qualquer pessoa pode se conectar ao sistema. Nenhuma empresa ou instituição única controla o acesso. Sem jardins murados.
Um legado contestado
É claro que outra forma de enxergar colocar serviços e registros financeiros e governamentais em bancos de dados gigantes é que isso representa um risco enorme à liberdade pessoal. O Aadhaar, em particular, tem enfrentado críticas de defensores da privacidade preocupados com o potencial de vigilância. Vários vazamentos de dados de alto perfil de registros do Aadhaar mantidos por entidades governamentais abalaram a confiança no sistema, mais recentemente em 2023, quando pesquisadores de segurança encontraram hackers vendendo os registros de mais de 800 milhões de indianos na dark web.
Tecnicamente, isso não deveria importar. Um número Aadhaar deveria ser inútil sem autenticação biométrica ou baseada em SMS. É “um mito que esse número aleatório seja muito poderoso”, diz Sharma, ex-colíder da agência que opera o sistema. “Eu não tenho nenhum exemplo em que a divulgação do Aadhaar de alguém tenha prejudicado alguém.”
Um problema é que, no uso cotidiano, usuários do Aadhaar muitas vezes contornam o sistema de autenticação biométrica. Para garantir que as pessoas usem um endereço genuíno no registro, administradores do Aadhaar entregam às pessoas seus números em um documento com aparência oficial. Os indianos se apropriaram dessa papelada como uma prova de identidade por si só. E, como o documento (os indianos até o chamam de um “cartão Aadhaar”) não tem data de validade, é possível que as pessoas obtenham vários cartões válidos com detalhes diferentes ao mudar seu endereço ou data de nascimento. Isso é uma brecha e tanto. Em 2018, um relatório de uma ONG constatou que 67% das pessoas que usavam o Aadhaar para abrir uma conta bancária se baseavam nesse documento de verificação, em vez de autenticação digital. Esse relatório foi a última vez que alguém publicou dados sobre o problema, então ninguém sabe o quão ruim isso está hoje. “Todo mundo está vivendo de experiências com anedotas”, diz Kiran Jonnalagadda, um ativista anti-Aadhaar.
Em outros casos, falhas na tecnologia biométrica do Aadhaar fizeram com que pessoas fossem impedidas de acessar serviços essenciais do governo, que minimiza esses riscos. Mas, novamente, é impossível dizer o quão grave é o problema porque a agência não divulga números. “Precisa haver um reconhecimento muito mais honesto, documentação e, então, um exame de como essas exclusões podem ser mitigadas”, diz Apar Gupta, diretor da Internet Freedom Foundation.
Além do potencial de fraude, também é verdade que as ferramentas gratuitas e interoperáveis não chegaram a todas as pessoas que poderiam achá-las úteis, especialmente entre as populações rurais e mais pobres da Índia. As esperanças de abertura de Nilekani não se concretizaram totalmente. Grandes empresas de e-commerce ainda dominam, e as vendas no varejo da plataforma ONDC vêm caindo de forma constante desde 2024, quando os incentivos financeiros para participar começaram a diminuir. Os serviços de pagamentos digitais e de documentação governamental têm centenas de milhões de usuários, números que a maioria das empresas globais de tecnologia adoraria ver, mas, em um país tão grande quanto a Índia, isso deixa muita gente de fora.
Rumo ao mundo
O geralmente calmo Nilekani se irrita com essa crítica. Ele já a ouviu antes. Os críticos ignoram a disfunção que precedeu esses esforços, diz. Ele permanece convencido de que a tecnologia era o único caminho a seguir. “Como você move um país de 1,4 bilhão de pessoas?”, pergunta. “Não há outra forma de consertar isso.”
A prova é evidente por si só, diz ele. Indianos abriram mais de 500 milhões de contas bancárias básicas usando o Aadhaar; antes de ele entrar em uso, milhões dessas pessoas estavam completamente fora do sistema bancário. No início deste ano, a Unified Payments Interface da Índia ultrapassou a Visa como o maior sistema de pagamentos em tempo real do mundo. “Não há como o Aadhaar ter funcionado se não fosse pelo fato de que as pessoas precisavam disso”, diz Nilekani. “Não há como os pagamentos terem funcionado sem as pessoas precisarem disso.”
Essa necessidade pode estar presente em países além da Índia. “Muitos países não têm um sistema adequado de registro de nascimento. Muitos países não têm um sistema de pagamentos. Muitos países não têm uma forma de os dados serem aproveitados”, diz Nilekani. “Então esta é uma ideia muito poderosa.” Parece estar se espalhando. Governos estrangeiros enviam regularmente delegações a Bengaluru para estudar as ferramentas de DPI da Índia. O Banco Mundial e as Nações Unidas tentaram introduzir o conceito em outros países em desenvolvimento igualmente ansiosos para levar suas economias à era digital. A Fundação Gates estabeleceu projetos para promover infraestrutura digital e Nilekani criou e financiou uma rede de think tanks, institutos de pesquisa e outras ONGs voltadas a, como ele diz, “propagar o evangelho”.
Ainda assim, ele admite que talvez não viva para ver a DPI se tornar global. “Há duas corridas”, diz Nilekani. “A minha corrida pessoal contra o tempo e a corrida da Índia contra o tempo.” Ele se preocupa que o potencial econômico de sua vasta população jovem, o chamado dividendo demográfico, possa se transformar em um desastre demográfico. Apesar do crescimento rápido, os ganhos têm sido desiguais. O desemprego juvenil permanece alto, um problema particularmente volátil em um país grande e economicamente turbulento.
“Talvez eu seja um viciado”, diz ele. “Por que diabos eu estou fazendo tudo isso? Acho que eu preciso disso. Acho que eu preciso continuar curioso e vivo e olhando para o futuro.” Mas é isso que acontece ao construir o futuro: ele nunca chega de verdade.



