Sete dias livres. Nenhum de trabalho. Se a tecnologia tivesse cumprido ao pé da letra uma de suas grandes promessas, talvez não houvesse a PEC que propõe o fim da escala 6×1, aprovada pela Câmara em maio e agora em análise no Senado. Estaríamos celebrando a escala 0x7. Máquinas trabalhando. Humanos simplesmente vivendo.
Claro que isso é uma provocação. Mas ela expõe uma questão importante já vista em outras revoluções tecnológicas: aumentamos absurdamente nossa capacidade de produzir, sem transformar, na mesma proporção, produtividade em tempo livre. Ou, indo além, sem usar esse tempo conquistado para outra coisa que não mais trabalho.
Não há dúvida de que as máquinas nos poupam de tarefas exaustivas e chatas. De uma grande colheitadeira a um robô aspirador, cada um, à sua maneira, executa em minutos o que levaríamos horas ou dias para fazer. Agora a Inteligência Artificial escreve, traduz, programa, desenha, analisa documentos e responde perguntas em segundos.
Pense aí: o que você fez com todo o tempo economizado nos últimos anos? Muitas vezes, trabalhamos mais. Não necessariamente mais horas no relógio, embora isso aconteça com muita gente. Podemos trabalhar mais dentro da mesma jornada medida em horas e dias. Quando uma tecnologia permite que uma tarefa que demora duas horas seja feita em uma, nem sempre ganhamos uma hora de ócio. Podemos ganhar outra tarefa para preencher a lacuna.
Na correria do dia a dia, esquecemos o passado recente. O e-mail acelerou a comunicação, mas também multiplicou as mensagens. O smartphone eliminou a necessidade de estar fisicamente no escritório, mas levou o escritório para todos os lugares. A videoconferência economizou deslocamentos, mas tornou possível encaixar uma reunião imediatamente depois da outra. A Inteligência Artificial tem tudo para ser a próxima etapa desse processo de “otimização” do tempo.
Há, porém, uma questão anterior à distribuição do tempo economizado: quanto desses ganhos já aparece nas estatísticas de produtividade? Estamos vivendo o que alguns economistas descrevem como uma espécie de atualização do chamado paradoxo de Solow. Em 1987, o economista Robert Solow observou que os computadores estavam por toda parte, menos nas estatísticas de produtividade. Hoje a IA também está em toda parte, enquanto muitas empresas ainda tentam descobrir exatamente onde está o retorno. Nos Estados Unidos, o crescimento recente da produtividade das empresas não agrícolas apenas igualou a média histórica. No Brasil, segundo a FGV, o avanço foi de só 2,1% entre o fim de 2019 e o fim de 2025. Os números, porém, não mostram quanto disso se deve à IA.
Talvez isso aconteça porque uma empresa não se torna mais produtiva simplesmente distribuindo uma nova ferramenta para os funcionários. É preciso redesenhar processos, eliminar etapas, mudar estruturas e, em alguns casos, questionar por que determinadas tarefas existem. Esse último ponto talvez seja o mais difícil. Afinal, existe uma diferença enorme entre usar Inteligência Artificial para executar uma tarefa de forma mais rápida e usar Inteligência Artificial para deixar de fazer aquela tarefa.
Daron Acemoglu, professor do MIT e vencedor do Nobel de Economia, tem chamado a atenção justamente para o exagero de algumas previsões sobre o impacto imediato da Inteligência Artificial. Em um estudo de 2024, ele estimou, sob as hipóteses do modelo, que a IA elevaria a produtividade total dos fatores — uma medida diferente da produtividade por hora trabalhada — em no máximo 0,66% em dez anos (cerca de 0,07% ao ano), ou menos de 0,53% se consideradas as tarefas mais difíceis de automatizar. É bem menos do que imaginam os discursos mais entusiasmados. Isso não significa, no entanto, que a IA seja pouco relevante. Talvez signifique apenas que ainda estejamos repetindo um padrão conhecido.
Pode ser também que, por trás disso tudo, exista uma explicação econômica óbvia relacionada à competitividade. Se uma companhia consegue produzir dez vezes mais utilizando a mesma quantidade de pessoas, dificilmente decidirá voluntariamente produzir o mesmo que antes e mandar todos para casa na hora do almoço. Provavelmente essa empresa tentará produzir dez vezes mais. E os concorrentes tentarão fazer o mesmo. Ou seja, mesmo que haja aumento de produtividade, o tempo liberado não se transforma necessariamente em descanso.
Existe outra grande discussão sobre o que aconteceria se conseguíssemos, de fato, atingir uma escala 0x7. Ela diz respeito a “quem paga a conta no fim das contas?”. Entram nesse bojo propostas como a renda básica universal. Sam Altman, CEO da OpenAI, ajudou a financiar um dos maiores experimentos de transferência incondicional de renda nos Estados Unidos, conduzido pela OpenResearch: US$ 1.000 por mês para mil participantes durante três anos. Quem recebeu trabalhou, em média, 1,3 hora a menos por semana do que o grupo de controle, que recebia US$ 50 mensais. Pouco, mas devolveu tempo. Outra proposta seria a tributação sobre as grandes empresas de tecnologia. Sem resolver quem financia a utopia do tempo 100% livre, o sonho do fim do trabalho provavelmente se transformaria no pesadelo do desemprego aliado à falta de dinheiro.
Mas tudo isso, por enquanto, faz parte de um cenário hipotético e, aparentemente, de longo prazo. Na escala 6×1 ou 5×2, muitos de nós continuamos trabalhando em jornadas extensas, apenas de maneira diferente. E há um detalhe nisso: se o limite constitucional da jornada brasileira cair para 40 horas nos termos da PEC, será porque o Congresso terá mudado a Constituição. A tecnologia, por si só, não garante essa mudança.
É bom lembrar também que existe um limite na tentativa de aumentar a performance humana no mesmo ritmo das máquinas. O computador pode ganhar continuamente mais processadores e memória. Enquanto isso, nossos cérebros dependem da mesma quantidade finita de neurônios, além de sono, de alimentação, de relações sociais e, quando dá, de tempo sem produzir nada.
Faz séculos que imaginamos máquinas trabalhando para que possamos descansar. As máquinas estão cada vez mais perto de cumprir a parte delas. Nós é que ainda não aprendemos a cumprir a nossa.

